Sábado, 21 de Novembro de 2009

Todos aqueles que trabalham nas escolas de referência percebem que a relação entre docentes ouvintes e docentes surdos nem sempre é pacífica, quando ambos trabalham em parceria. 

Há uma certa confusão e indefinição de quais os papéis que cada um deve desempenhar. Os docentes surdos sentem que são muitas vezes usados como intérpretes e consideram que essa não é a sua função.
 
Porque será que surge toda esta controvérsia?
 
Em primeiro lugar, porque há uma longa história na educação de surdos em que a língua gestual e os formadores surdos foram relegados para um segundo plano. A língua gestual foi durante muito tempo usada como um mero recurso ou apoio para chegar mais rapidamente à língua oral. Entretanto, adquiriu o estatuto de língua genuína com um espaço próprio, com uma avaliação independente.
 
No primeiro ciclo, muitos docentes surdos queixam-se de que na distribuição horária pelas diferentes áreas, a LGP sai sempre prejudicada. Há tempos para Língua Portuguesa, para Estudo do Meio, para Matemática e pouco sobra para a LGP, embora na lei esteja estipulado que o número de horas para LP e LGP devam ser iguais. Os docentes surdos compreendem que a LGP é transversal ao currículo e está sempre presente, em todos os momentos, no entanto, consideram que ela também necessita de tempos próprios para trabalho sobre a própria língua. Queixam-se ainda de que têm de estar presentes na sala de aula em todas as áreas, mas os docentes ouvintes vão embora quando chega a hora de ensinar LGP! Mais uma vez, o problema dos estatutos, de uns terem uma carga horária superior aos outros, de também ser importante para os docentes ouvintes estarem presentes quando se trabalha a LGP para compreenderem bem a sua estrutura. Penso que existe um grande problema de comunicação e de articulação entre os vários profissionais e aí é que está o problema. É necessário trocar ideias e chegar a consensos. Há escolas em que a parceria pedagógica funciona muito bem e outras em que nem tanto.
 
No segundo e terceiro ciclos e no secundário surge o mesmo problema. Docentes surdos em Língua Portuguesa e em outras disciplinas, porquê? Muitos sentem-se usados como intérpretes. Mais uma vez, penso que existe aqui um problema de articulação e trabalho em equipa. O docente ouvinte tem que reunir com o docente surdo e, os dois em conjunto, devem fazer a planificação da disciplina, os planos de aula, analisar os conteúdos que irão ser trabalhados e definir qual será o contributo de cada um. O docente surdo não pode ir para a aula sem saber o que lá vai acontecer. Desse modo, acabará mesmo por fazer o papel de intérprete. Completamente alheio ao que se vai passar e sem uma preparação prévia dos conteúdos da aula, vai ficar à espera que o docente ouvinte o chame para explicar melhor determinada matéria. Aprofundar uma ideia, explicar um conceito por outras palavras, não é o mesmo que traduzir. Mesmo assim, não chega. Os docentes surdos continuam a sentir-se como um mero apoio.  
 
É necessário aumentar a articulação entre os diversos profissionais em todos os níveis de escolaridade. Não pode cada um estar a trabalhar isoladamente no seu canto. É necessário ouvir o que cada um tem para dizer, o que cada um sente relativamente aos papéis e funções que desempenha e encontrar uma plataforma de entendimento para que o trabalho resulte e todos possam sair beneficiados, principalmente os alunos.


publicado por Maria do Céu Gomes às 12:14
Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

Já falamos aqui de tantas comemorações, que é tempo de mudar de tema. Mas antes disso, falta falar de Paranhos. Vou contar então como foi.

 

Em primeiro lugar, os alunos do 5ºS apresentaram uma dramatização:

 

                                      O Capuchinho Vermelho Surdo

 

Um capuchinho especial que deixa o lobo embaraçado. Afinal isto não estava previsto na história. Palavras ameaçadoras para quê, ela não ouve. Palavras mansas também não servem de nada. Este Capuchinho deixa o lobo fora de si, pois não percebe nada do que ele diz.

 

 

 

 Depois foi tempo de poesia, expressividade e emoção:

 

                 A magia das mãos(7ºS)              O silêncio (8ºS)

 

                                                              

 

E por fim, muitas, muitas anedotas, contadas pelos alunos e não só.

 

 

Duas delas podem ser encontradas no livro "Surdos, 100 piadas". A primeira é sobre preservativos... cuidado para não ferir susceptibilidades nas mulheres surdas. A segunda é sobre uma árvore que é diferente das outras. Todas caíam ao grito dos lenhadores, menos uma. Porque será que era tão teimosa? Era surda, é claro!

 

Muitas gargalhadas animaram este dia em Paranhos. E no fim de tanta diversão, a lembrança necessária: a LGP é uma disciplina tão importante como as outras, exige dos alunos o mesmo empenho e dedicação. Não é por serem surdos que vão pensar que é fácil e que não exige tanta atenção. Os alunos ouvintes nunca deixam de aprender português, desde que entram até que saiem da escola. Os alunos surdos devem seguir o mesmo percurso na disciplina de LGP, pois só assim podem desenvolver o domínio daquela que é a sua primeira língua. 



publicado por Maria do Céu Gomes às 21:57

 

 

Já aqui falamos de vários eventos que assinalaram o Dia da LGP, em Portugal e mais particularmente no norte do país. É interessante saber também como foi nos Açores e na Madeira.

 

Nos Açores, as comemorações decorreram na Escola Básica de Arrifes, uma escola de referência para alunos surdos em Ponta Delgada. Aí tiveram lugar várias actividades que contaram com a presença de alguns deputados da região. 

 

Na Madeira, a forma de assinalar o evento foi diferente do habitual. A comunidade surda  levou a cabo diversas acções de sensibilização nos cafés do Funchal. O objectivo foi levar a língua gestual aos ouvintes, fazê-los tomar contacto com expressões simples do dia-a-dia como pedir um café, dizer "bom dia" ou simplesmente "obrigado".

 
Como refere Maria José Camacho, Directora Regional da Educação Especial e Reabilitação da Madeira, não é obrigatório que as pessoas ouvintes dominem de forma fluente a LGP. Se souberem um pouco desta língua, tal como sabem de inglês ou de francês, isso já lhes possibilitará encetar um diálogo com pessoas surdas, tal como o fazem com os estrangeiros que visitam a ilha. E isso contribuirá para uma aproximação das duas comunidades.
 
Esta é mais uma iniciativa que vem de encontro à necessidade dos ouvintes aprenderem  língua gestual. É importante que cada vez mais pessoas, e não só os profissionais que trabalham directamente com as crianças surdas, estejam sensibilizados relativamente à LGP e à surdez. 
 
Deixo aqui o link das notícias que nos dão conta dos eventos na Madeira e nos Açores.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 18:24
Terça-feira, 17 de Novembro de 2009

 

Comemoramos o Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa e foi muito divertido. Foi mais do que um dia, foi uma semana. Todos os meninos da escola participaram e gostaram de viver estes dias.

 
Nos dias 9 e 10 de Novembro, tivemos a nossa lojinha de produtos caseiros.
 
 
No dia 13 de Novembro, fomos à escola Augusto Lessa brincar com os amigos Surdos, ver palhaços e fazer palhaçadas. Partilhamos um lanche muito gostoso e no fim uma pequena surpresa: um livro da história dos Três Ursos realizada por todos nós. Esperamos que gostem! 
 
 
 
No dia 16 de Novembro, apresentamos a dramatização da história “ Os Três Ursos “ para os meninos ouvintes, que viram também outras histórias em LGP e participaram em workshops em LGP e ainda receberam um livro com vocabulário e dactilologia em LGP. 
 
 

 

Da parte de tarde, nós os meninos Surdos, os ouvintes da pré e os primeiros anos, brincamos muito e fizemos jogos com as palhaças Surdas.

 

                                            Meninos Surdos da Escola EB1/JI do Covelo

                                            Agrupamento Eugénio de Andrade



publicado por Maria do Céu Gomes às 17:05
Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

 

 

 

Caros colegas e interessados,

Como sabem a dificuldade de implementação do Ensino Bilingue a Surdos no nosso país tem tido um caminho bastante difícil, no entanto, consideramos que não são os fundamentos teóricos que estão errados e sim a aplicação destes à realidade. Por essa razão efectuámos, no CEDJRP, no ano lectivo transacto, uma profunda reflexão sobre a aplicação deste modelo e considerámos ser urgente, a criação de uma estrutura de suporte para que o Ensino Bilingue seja uma realidade e não uma utopia. Assim, é para nós uma prioridade, a criação e produção de materiais bilingues desde o ensino Pré-Escolar ao Ensino Secundário. Em Julho de 2009 já produzimos um DVD em LGP de acessibilidade dos surdos aos museus, que estará acessível ao público, em geral, brevemente.

Hoje será, então, lançado o primeiro DVD dos Reis de Portugal em LGP, dando início à produção de vários materiais bilingues que se seguirão.

Assim, de 16 a 20 de Novembro o CED Jacob Rodrigues Pereira irá comemorar a semana da Língua Gestual Portuguesa com variadíssimas actividades desde o Pré-escolar ao ensino secundário.

Destacamos o dia 16 onde lançaremos um DVD dos Reis de Portugal em LGP. Este trabalho, como já referimos, vem na sequência de um amplo projecto de criação de materiais de suporte ao Ensino Bilingue desenvolvido pelo CEDJRP- Casa Pia de Lisboa.

Esta produção de materiais bilingues está sob a coordenação da Unidade de Investigação e do Departamento de LGP.

Este é apenas o primeiro passo de um trabalho, que temos consciência, levará vários anos a efectuar e que no fundo nunca estará concluído...

 

Um abraço a todos,

Paulo Vaz de Carvalho

 



publicado por Paulo Vaz de Carvalho às 12:30

Hoje, dia 15 de Novembro de 2009, o JN publicou uma notícia sobre o dia nacional da Língua Gestual. O texto salienta a necessidade de criar a oferta de LGP como disciplina curricular.

A notícia fala, também, sobre Lamaçães e a educação de alunos surdos

Aqui vai o link:

http://jn.sapo.pt/PaginaInicial/Sociedade/interior.aspx?content_id=1420953


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publicado por Luisa Campos às 01:02

Sexta-feira passada, dia 13 de Novembro, comemorou-se no Agrupamento de Escolas de Lamaçães, o dia nacional da Língua Gestual. Todas as escolas de referência (Jardim-de-Infância Brácara Augusta, EB 1 do Bairro Económico e EB 2,3 de Lamaçães) festejaram com as suas comunidades educativas.

Na Escola EB 2,3 houve um momento de poesia em LGP, na Biblioteca.

Mas o ponto alto desta festa aconteceu no fim do dia com uma festa-convívio em que participaram pais, familiares e amigos dos alunos surdos. Foi tão concorrida a nossa festa que a sala onde a fizemos quase não conseguiu conter tamanha alegria e participação.

 Aqui vai o programa:

 

·         História “O peixinho arco-íris” - grupo bilingue do JI Brácara Augusta
·         Mímica vs LGP – Alunos surdos do 1º ciclo Escola EB1 Bairro
·         Adivinha e anedota em LGP - Alunos surdos do 1º ciclo Escola
          EB1 Bairro
·         Dança “Chocolate” - Alunos surdos do 1º ciclo Escola
          EB1 Bairro
·         História “A Lua e o rato” - Alunos surdos do 1º ciclo Escola
          EB1 Bairro
·         Poema “Mundo do silêncio” alunos surdos do 3º ciclo
·         Poema “Surdo” – alunos surdos do 2º ciclo
·         Lanche-convívio


publicado por Luisa Campos às 01:01
Domingo, 15 de Novembro de 2009

Como já foi referido no post anterior, decorreu ontem na FPCEUP uma conferência destinada a assinalar o Dia Nacional da LGP. Falou-se de tudo um pouco, da LGP na saúde, na sociedade, na comunicação social e na educação. Os problemas apontados foram os mesmos de sempre, mostrando que ainda há um longo caminho a percorrer nas diversas áreas.

Por fim teve lugar uma mesa redonda, moderada por Helder Duarte, que teve o mérito de sentar à mesma mesa, um representante da comunidade surda (Maria Manuel Salgado), um representante da classe médica (Rui Nunes), um representante da Associação Portuguesa de Apoio a Implantes Cocleares (Vítor Sousa), um representante da Associação de Famílias e Amigos dos Surdos (Luís Clara), um representante da classe educativa (Carlos Afonso) e um representante do Instituto Nacional para a Reabilitação (José Serôdio).
Numa posição aberta, a AFOMOS convidou personalidades com diversas perspectivas sobre a surdez, no sentido de encetar um diálogo profícuo entre todos. Rui Nunes e Vítor Sousa referiram que é um direito dos pais a opção pelo implante coclear. Os representantes da comunidade surda, abandonando a habitual postura contra esta intervenção cirúrgica, aceitaram que a medicina evolua em termos científicos e tecnológicos. O que continuam a não aceitar e essa foi a base do debate, é que os médicos aconselhem as famílias das crianças surdas implantadas a se afastarem do contacto com outros surdos e com a língua gestual. Estas orientações confundem os pais e levam-nos a tomar atitudes, que acabam, por vezes, por prejudicar o futuro dos seus filhos. Na escola, exigem que as crianças frequentem turmas de ouvintes, mesmo quando o implante dos seus filhos não está a ter os resultados esperados em termos de ganhos auditivos. Rejeitam as orientações pedagógicas e seguem cegamente o que é aconselhado pelos médicos, que de educação nada sabem. Vários estudos já demonstraram que a língua gestual não prejudica a aquisição e o desenvolvimento da fala, no entanto estas investigações continuam a ser ignoradas. Como referiu Carlos Afonso, a comunidade surda lutou tantos anos para poder aceder à educação através da língua gestual e agora, quando isso foi conseguido, o que se constata nas escolas é que existem cada vez mais crianças implantadas. A educação bilingue não significa apenas língua gestual como primeira língua e língua portuguesa como segunda língua. Porque é que as crianças implantadas não podem usufruir de Língua Portuguesa como 1ª língua e LGP como 2ª língua? Se as crianças implantadas aprendem Inglês e Francês, porque é que não podem aprender língua gestual? É uma mais valia para a vida. Foi esse o testemunho dado por uma jovem surda implantada. Os pais sempre aceitaram que ela aprendesse língua gestual. Em situações de comunicação face a face ela consegue comunicar normalmente (vai ao médico sozinha, ao hospital sozinha), mas em situações em que está em grandes auditórios (aulas, seminários, conferências) não conseguiria acompanhar o discurso dos oradores, se não seguisse a tradução dos intérpretes de LGP. Tanto o implante como a língua gestual lhe trouxeram benefícios, uma coisa não exclui a outra. Não podemos esquecer que um surdo implantado não deixa de ser surdo. Quando o implante avaria ou fica sem pilhas, ele não ouve nada. Depois há a questão da identidade. As crianças não devem ter vergonha de ser surdas, não devem ser levadas a rejeitar a sua língua natural, os seus amigos e familiares surdos.
Como disse Luís Clara, a criança surda é uma criança sã e como tal, tem os mesmos direitos das outras crianças. E um dos direitos fundamentais é sem dúvida o da aquisição de uma primeira língua. Esta aquisição tem que ser feita nos primeiros anos de vida e se o impedirmos, estamos a comprometer irremediavelmente o desenvolvimento linguístico e cognitivo da criança.
Para finalizar o debate, Helder Duarte referiu que sempre existiram pessoas ouvintes a apoiar os surdos nas suas causas. Essa parceria, esse trabalho conjunto deve estender-se também aos médicos. É necessário o diálogo, de modo a que se possa chegar a um consenso sobre o que é melhor para as crianças surdas implantadas.        
 
Consideramos que este é realmente o caminho a seguir. De costas voltadas, nunca chegaremos a lado nenhum. Médicos, professores, técnicos, famílias, representantes da comunidade surda, todos devem procurar chegar a uma plataforma de entendimento. Deve existir comunicação e articulação entre as diversas áreas. O que aconteceu nesta conferência deve voltar a repetir-se. São importantes mais encontros em que estejam presentes todos os actores envolvidos nas questões da surdez.


publicado por Maria do Céu Gomes às 09:16
Sábado, 14 de Novembro de 2009

São dias de festa para os surdos. Pelo décimo segundo ano, celebra-se o reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa na alteração à Constituição realizada em 1997.

A Lei n.º 1/97 introduziu na Constituição a incumbência de o estado proteger e valorizar a LGP como expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de direitos das pessoas surdas. António Barreto, na sua coluna do Público, escreveu então que a Constituição tinha consagrado a dignidade constitucional do manguito... quanto mudou e quanto continuou igual? Tanto mudou e tanto ficou na mesma.
Tenho um amigo que diz «os surdos são muito festeiros» e tem toda a razão. A festa é rito principal no cimento de uma comunidade, por isso as festas correm a uma velocidade estonteante. Ontem houve festa todo o dia na Escola do Bigodes (Augusto Lessa, Paranhos). Mamadu, O Capuchinho Vermelho, os Ovos Misteriosos foram as histórias que encantaram os alunos surdos e ouvintes que se reuniram para as ouVer. Ao almoço vieram também os pequenos surdos do JI do Covelo e, quase todos os surdos passaram a tarde juntos, numa festa com palhaços surdos e muita animação.
Ontem, também os surdos de Lamaçães passaram o dia em festa. No Jardim-de-Infância Brácara Augusta, os mais pequenos, na Escola Básica do Bairro, os do primeiro ciclo, e os mais velhos na Escola de Lamaçães. Relato do sucedido já nos prometeu a Luísa Campos, por que nada mais se diz agora.
Hoje, na FPCEUP, a AFOMOS juntou uma enorme audiência logo pela manhã com dois painéis sobre a Língua Gestual, a Saúde e a Sociedade. Os painéis da tarde serão sobre Língua Gestual, Comunicação Social e Educação.
Amanhã à tarde, no mesmo local, a comunidade reúne-se em convívio, aberto às famílias, às crianças e aos amigos.
Na segunda, a festa regressa às escolas: estão em festa a Escola do Covelo, com os surdos do jardim e os mais que ouvem, e o Agrupamento de Escolas do Peso da Régua, que quer ser Escola de Referência em Trás-os-Montes e faz a apresentação pública desse projecto. Na terça-feira faz-se a festa em Paranhos. E estou só a enumerar as que sei, porque lá que as há, há. Muitas.
Vivam pois as festas e esqueçam o manguito.

 

 



publicado por Eduardo Cabral às 13:08
Quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Ainda a propósito do Dia Nacional da LGP, gostaria de lembrar aqui alguém que, embora sendo ouvinte, teve um papel crucial no reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa. Estou a referir-me a Maria Augusta Amaral, doutorada em Linguística Aplicada pela Faculdade de Letras de Lisboa, investigadora na área da linguística da Língua Gestual Portuguesa e da educação bilingue para alunos surdos e directora do Instituto Jacob Rodrigues Pereira entre 1992 e 2007. Juntamente com Amândio Coutinho, Maria Augusta Amaral fez parte do grupo de trabalho que levou ao reconhecimento da LGP pela Constituição Portuguesa.

Nos anos 80 do século passado, Maria Augusta Amaral começou a ir a Congressos Internacionais sobre linguística das diversas línguas gestuais existentes no mundo e ficou admirada com o que já existia de investigação nesta área. Ficou extasiada ao constatar que nesses congressos, os surdos tinham um discurso como qualquer pessoa ouvinte, quando ela estava habituada a que, aqui em Portugal, as crianças surdas não passassem de um patamar muito baixo. Ficou tão surpreendida que começou a pensar que em Portugal as coisas também teriam de mudar. Pensou: “Eu tenho mesmo é que me dedicar à investigação em Língua Gestual”. Juntamente com Amândio Coutinho, pediu ao então director do Instituto Jacob Rodrigues Pereira, se os podia deixar concorrer a uma bolsa para fazer investigação sobre a Língua Gestual Portuguesa. O Director concordou, dizendo: “Sim senhor, acho muito bem que façam essa investigação, porque vocês vão provar que não há nenhuma língua gestual”. Com a colaboração da professora Raquel Delgado-Martins, Maria Augusta Amaral e Amândio Coutinho começaram a visitar várias universidades no estrangeiro, donde trouxeram bastante material para começar a reflectir sobre a Língua Gestual Portuguesa. E foi assim que se iniciou o trabalho de investigação que veio a dar origem ao relatório final do projecto “Para uma gramática da Língua Gestual Portuguesa”, porque não era uma gramática, apenas o início de um estudo, embora já focasse diversos aspectos da gramática da LGP. Este trabalho acabou por ser publicado em livro e até à data ainda não surgiu nenhum mais completo. Em 1992, Maria Augusta Amaral foi convidada para directora do Instituto Jacob Rodrigues Pereira e, em colaboração com a Associação Portuguesa de Surdos, aprofundou a investigação em LGP. Ela refere que os primeiros surdos adultos a quem disse: “Vocês têm uma língua”, lhe responderam: “Ah! Não é nada uma língua. É só gestos.” Mas ela convenceu-os a ir a congressos no estrangeiro, a ir a Gallaudet e aí todos constataram que ela tinha razão. E depois, todos em conjunto, surdos e ouvintes, decidiram formar uma comissão para lutar pelo reconhecimento da LGP. A comissão integrava elementos de várias áreas como já referimos no post anterior. Helder Duarte destacou-se à frente da comissão, a incentivar todos a participar, a unir esforços, a divulgar a luta junto da Comunicação Social. Maria Augusta Amaral, com o seu livro debaixo do braço, tinha a prova científica, o trabalho já tinha sido aceite pela universidade. Foram à Assembleia da República e já ninguém podia dizer que a LGP não era uma língua. A reivindicação foi aceite e constitui hoje um marco muito importante para a comunidade surda.
 
Deixo por isso aqui uma homenagem a todos os que fizeram parte desta comissão e em particular a Maria Augusta Amaral e a Amândio Coutinho. Se a investigação que levaram a cabo não tivesse sido feita, se calhar não estaríamos agora a comemorar o Dia Nacional da LGP.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 19:13
Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Comemora-se todos os anos o Dia Nacional da LGP. Esta data pretende celebrar o dia em que foi criada a Comissão Para o Reconhecimento e Protecção da Língua Gestual Portuguesa e Defesa dos Direitos das Pessoas Surdas. Esta comissão foi criada em 15 de Novembro de 1995 e dela faziam parte várias associações representativas das pessoas surdas, familiares de surdos, jovens surdos, intérpretes de LGP, bem como professores e técnicos que trabalham com alunos surdos. Todos estavam unidos em torno de um objectivo comum. Foi graças a esta comissão que se conseguiu o reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa, pela 4ª revisão da Constituição da República Portuguesa, em 1997.

 
Através do Artigo 74, n.º 2, alínea h, o Estado Português comprometeu-se a:
 
“Proteger e valorizar a língua gestual portuguesa enquanto expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades”
 
A Comissão manteve ainda a sua actividade durante algum tempo, lutando em diversas frentes pela melhoria das condições de vida dos surdos portugueses, tendo obtido resultados positivos no âmbito da educação e da comunicação social. Depois, acabou por desaparecer e com ela, o espírito de união entre todos.
 
O dia da fundação desta Comissão foi instituído e é celebrado todos os anos. Importa lembrar que não é só o Dia da LGP, significa muito mais do que isso. Esta conquista só foi alcançada porque todos estavam unidos e lutaram lado a lado, sem guerras nem divisões.


publicado por Maria do Céu Gomes às 19:59
Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

Durante o tempo em que vigorou o Decreto-Lei 319/91 tornou-se um hábito dispensar os alunos surdos da frequência da disciplina de Inglês. Por vezes, nem sequer se analisava se o aluno tinha dificuldades de aprendizagem ou não. Bastava ser surdo para obter essa dispensa e as horas dessa disciplina eram direccionadas para aulas de apoio a Língua Portuguesa. Partia-se do pressuposto de que se os alunos surdos tinham bastantes dificuldades a Português, também as teriam às Línguas Estrangeiras. Mais valia dedicar mais tempo à Língua Portuguesa, para ver se, pelo menos essa língua, eles conseguiam dominar minimamente. Nunca ninguém propunha a dispensa de outras disciplinas, era sempre o Inglês e o Francês.

Esta prática prolongou-se no tempo e muitos alunos surdos foram prosseguindo estudos deixando o Inglês sempre para trás. Como eram dispensados no 2º e 3º ciclos, no secundário também já não o escolhiam. Só quando chegavam à faculdade, é que alguns destes alunos se davam conta do quanto lhes fazia falta esta competência. Qualquer aluno, seja ele surdo ou ouvinte, sente dificuldades acrescidas no ensino superior se não souber Inglês, pois uma grande parte dos textos e livros a ler são nesta língua, seja qual for o curso escolhido. É uma competência essencial em todas as áreas profissionais, basta ver os anúncios de emprego.
Com o Decreto-Lei 3/2008 desapareceu a medida educativa “currículo escolar próprio” e com ela a possibilidade de dispensar os alunos da frequência de determinadas disciplinas. Só são dispensados os alunos com deficiência mental, para quem é desenhado um currículo específico individual.
Assim, temos agora todos os alunos surdos a frequentar o Inglês como terceira língua. No entanto, tantos anos de dispensas deixaram marcas tanto neles como nos pais. Muitos alunos não compreendem porque é que antes estavam dispensados e agora não estão. A mesma pergunta é feita pelos pais. Perguntam: Porquê, Porquê, Porquê?
Devo dizer que as minhas primeiras aulas de Inglês se centraram em torno da pertinência da frequência da disciplina. E, de vez em quando, tenho de voltar ao tema, mostrando aos alunos o quanto é importante o domínio desta língua estrangeira para a sua vida futura. E também tenho de lhes provar que eles são capazes. Muitos interiorizaram a ideia de que se antes eram dispensados, era porque esta era uma disciplina muito difícil e eles, não teriam capacidades para a frequentar.
Nestas duas últimas semanas dei testes às minhas turmas de Inglês do 7º ano e sabia que os resultados seriam cruciais para a sua motivação futura. Nas duas turmas que lecciono houve apenas um insuficiente e um suficiente. Todos os outros alunos tiraram Bom e Muito Bom. Ainda bem que assim aconteceu, porque agora já não estou sozinha a dizer que eles são capazes. São eles próprios que dizem ao colega que continua a não acreditar: “Tu és capaz. Se nós conseguimos, tu também podes conseguir.” 

 

Considero que a motivação interior é a base principal para o sucesso dos nossos alunos. Se eles não acreditarem, nunca chegarão lá. Mas se acreditarem, todas as possibilidades estarão em aberto e o futuro será certamente diferente.



publicado por Maria do Céu Gomes às 18:20
Segunda-feira, 09 de Novembro de 2009

Para responder às necessidades especiais de encontro, partilha e reflexão de todos os que se envolvem na Educação Especial, Sábados Especiais é um programa de (auto)formação do Gabinete de Acompanhamento à Educação Especial da DREN, com a colaboração das Escolas e outras instituições.

O primeiro Sábado Especial é já no próximo dia 28 de Novembro. «Práticas com as Crianças Surdas, Intervenção Precoce e Educação de Infância» é o título do Encontro, que se realiza na Escola Básica de Lamaçães, Braga.
 

 

 

Programa
10:00    Abertura: Conceição Menino, Coordenadora do Gabinete de Acompanhamento à Educação Especial da DREN e João Dantas, Director do Agrupamento de Escolas de Lamaçães
10:15    «Projecto de Intervenção Precoce de Braga», Equipa do Projecto
            «Bebé surdo – família – escola de referência, o triângulo necessário», Equipa de Intervenção Precoce e Jardim-de-Infância de Referência Bracara Augusta (Lamaçães)
            «A brincar também se aprende», Equipa do Jardim-de-Infância de Referência do Covelo (Eugénio de Andrade)
            «E porque não a música?», Equipa do Jardim-de-Infância de Referência Bracara Augusta (Lamaçães)
            Debate
13:00    Intervalo para almoço
14:30    Grupos de trabalho
            A.«A família na escola», coordenação de Equipa da EREBAS de Lamaçães
            B. «Mãos e voz em parceria, histórias em sintonia», coordenação de Regina Silva, Ana Luísa Ferreira e Sofia Quintas (Eugénio de Andrade)
            C. «Introdução ao Cued Speech – Português Falado Complementado», coordenação de Bruno Coimbra e Susana Capitão (Eugénio de Andrade)
            D. «Sensibilização ao Sign Writing», coordenação de Bruno Remédios (Lamaçães)
16:30    Encerramento
(Programa da manhã com tradução em LGP)
 
Participação
As inscrições estão abertas até dia 23 de Novembro, limitadas a 60 participantes, de acordo com as seguintes prioridades:
  1. Educadores de infância, formadores de LGP e terapeutas da fala em funções nos jardins-de-infância das EREBAS; educadores de infância em funções na rede de agrupamentos de referência para a intervenção precoce; familiares de crianças surdas dos jardins-de-infância das EREBAS
  2. Outros docentes, formadores, intérpretes e terapeutas; outros familiares de crianças surdas
Para participar, envie mensagem de correio electrónico para gaee@dren.min-edu.pt, com o assunto «Inscrição Sábados Especiais – Práticas com crianças surdas – 28 de Novembro» e os seguintes dados: nome completo, escola, funções e nível de ensino onde exerce; os encarregados de educação devem indicar a escola e nível de ensino do seu educando. Indique os grupos de trabalho que pretende integrar por ordem de preferência (ex.: grupos de trabalho B/A/D/C).
Os grupos de trabalho serão constituídos de acordo com a ordem de chegada das inscrições. Receberá uma mensagem de resposta, a confirmar a inscrição, até dia 24 de Novembro, com a indicação sobre o grupo a integrar.
 


publicado por Eduardo Cabral às 12:21
Sábado, 07 de Novembro de 2009

Pesem o que pesem as alterações climáticas e o aquecimento global, parece que o que aí vem é Inverno e frio e chuva. Sendo que agora o tempo é de pantufas, só resta a lembrança do calorzinho e das liberdades do Verão.

Passe a publicidade, e porque hoje é sábado, deixo aqui um anúncio que nos cultiva essa saudade. A justificação é que… tem quadradinho para o tradutor de LIBRAS.

 

Profissão divertida, né? Mas com os seus perigos…

 

 



publicado por Eduardo Cabral às 10:42

Foi publicado no domingo, no jornal Estado de Minas, de Belo Horizonte, o artigo da autoria de Flávia Ayer que, sob o título «Solidariedade e fé movem a família Gontijo», transcrevemos abaixo. Fala-nos de determinação e da importância de não baixar as expectativas. Querem ler?

 
«Nos idos dos anos 1980, uma descoberta que tinha tudo para ser preocupante mudaria por completo a vida do jovem casal Maria Helenice e Milton Gontijo e, indiretamente, as de centenas de outros jovens dependentes de cuidados especiais. Era 1987 e a família morava em Arinos, no Noroeste de Minas, a 650 quilômetros de Belo Horizonte. Maria Helenice estava grávida do caçula, Milton Junior. A filha mais velha, Raiane, tinha 2 anos e Rejane, 7 meses quando os pais descobriram que os ouvidos das meninas eram incapazes de perceber as vozes do mundo. Mas não as do coração. Daí veio a força para, 22 anos depois, comemorarem a vitória de ver os três filhos na faculdade e mais de 200 outros jovens amparados pela Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Arinos, fundada pelo casal.
Esse é apenas o resumo da ópera da família Gontijo, um concerto embalado pelas notas do silêncio e composto pela solidariedade e a fé. Amadurecido pelo desafio da surdez, agora esse quinteto pode se orgulhar de levar uma vida normal, com sutis adaptações. Mensagens de e-mail e celular são arranjos da sinfonia. As mãos ganharam habilidades de um regente, que por meio de sinais, comanda uma orquestra. É exatamente por meio delas que, apesar da ausência do som, a família pode dizer com todas as letras a palavra superação. E haja motivos para isso.
Falta um ano para Raiane, de 24, que tem 15% da audição, tornar-se fisioterapeuta. Com 5% da capacidade auditiva, Rejane, de 22, também está prestes a concluir o curso de moda e, atualmente, dedica-se ao estágio na grife de sapatos Paula Bahia. Ouvinte, Milton Junior, de 21, é o único longe da família, que em 2006 se mudou para BH em busca de mais oportunidades para os filhos. Em Ouro Preto, na Região Central, o caçula cursa engenharia de controle e automação. "Sempre falei que todos iam fazer faculdade. A família tem que acreditar no potencial dos filhos", afirma Maria Helenice, de 53, que prefere ser chamada de Leninha e, atualmente, é articuladora institucional de saúde da Apae BH.
BATALHA Apesar das conquistas, enfrentar a surdez das filhas não foi tarefa fácil. O diagnóstico de Raiane representou para Leninha um choque e, ao mesmo tempo, a certeza de que Rejane também carregava limitações semelhantes. Sem falar do medo de que a dificuldade afetasse também o neném que estava por vir, já que a suspeita é de tratar de característica hereditária. "Como minhas filhas não podem cantar, achava que também não podia. Choravam e eu chorava junto, porque não conseguia me comunicar com elas", conta a mãe. A primeira reação foi procurar, em BH, Brasília, São Paulo, Montes Claros e Bauru (SP), médicos que dessem diagnóstico contrário.
A busca apenas confirmou o quadro, difícil de ser enfrentado numa cidade de 20 mil habitantes e sem estrutura para portadores de deficiência. "Diante dos desafios, há dois caminhos: ficar refém ou encarar, transformando a dor em amor, buscando conhecimentos, acreditando na capacidade de superação e na fé", resume Milton, de 50, gerente de Recursos Humanos. Atrás de tratamento e educação especializada, Leninha se mudou com os filhos para BH e, depois, para Unaí, município próximo a Arinos, onde Milton continuou morando. Antes disso, foram incontáveis viagens enfrentando estrada de terra para levar as meninas a consultas com fonoaudiólogos, médicos e psicólogos.
Ao retornar à cidade, o desafio dos Gontijo já não era cuidar de Raiane e Rejane, mas de todos os portadores de deficiência. A tia das garotas, Lindaura, foi à capital federal aprender a Língua Brasileira de Sinais (Libras), instrumento fundamental para as sobrinhas e demais surdos se comunicarem. Em 1993, fundaram a Apae na cidade, instituição dirigida pelo casal por 15 anos e que hoje, com nova direção, presta assistência a 206 pessoas. “Aprendemos a olhar além de nós mesmos. Somos testemunhas do que diz São Francisco de Assis: ‘É dando que se recebe’. Se você abre seu coração ao próximo, a vida presenteia você”, diz Milton.
PRESENTES Quer melhor recompensa do que o sorriso das filhas? Praticamente independentes, as jovens hoje se dedicam a realizar os sonhos. “Estou me sentindo muito feliz. Meus pais me estimularam a fazer a faculdade e me sinto muito bem desenhando no meu estágio. Tenho uma família unida, desde criança, quando a nossa comunicação ainda era mais difícil”, conta Rejane, por meio do intérprete e pedagogo Silvestre Ferreira, que a acompanha no estágio e auxilia as irmãs no aperfeiçoamento da linguagem de sinais.
Com Raiane não é diferente. “Amo fisioterapia. Meu grande sonho é trabalhar num hospital com geriatria. Considero-me vitoriosa, pois superei muitos desafios na minha vida.” Uma receita de esforço, com tempero especial das mãos. “Minhas mãos falam e meus olhos são meus ouvidos”, define a jovem de estilo, a começar pelos olhos – um azul e outro castanho. “Meus desafios agora são me formar, conseguir trabalho e ser independente. Mas acredito que falta à sociedade atitude para aproximação”, afirma. “Você pode ter a legislação que for, mas pessoas precisam entender que não pode haver egoísmo nem discriminação”, defende Leninha.
 

Fotografia de Marcos Michelin para EM/D.A PRESS



publicado por Eduardo Cabral às 10:23
Sexta-feira, 06 de Novembro de 2009

Nas aulas de Língua Portuguesa enquanto Língua Materna, os alunos ouvintes aprendem a classificar morfologicamente as palavras, mas nunca aprendem qual é a preposição que se usa com determinado verbo, porque esse é um conhecimento que adquirem de forma natural e espontânea, sem necessidade de aprendizagem formal.

Quando começam a aprender Inglês, já sentem necessidade de efectuar essa aprendizagem, porque a língua é diferente e a preposição que se escolhe pode mudar o significado de um verbo. É por isso que existem os dicionários de Phrasal Verbs.

 
Na língua gestual não há preposições. Então, torna-se bastante difícil para os alunos surdos compreender o sentido da sua aplicação no Português. O uso da mesma metodologia que se usa nas línguas estrangeiras pode ajudá-los. É importante ensinar-lhes quais as preposições que podem ser usadas com cada verbo, em que situações são usadas umas e outras e o significado de cada uma. É uma aprendizagem completamente formal, porque os alunos surdos só fazem uso deste conhecimento na escrita.
 
Um instrumento pedagógico que pode ajudar bastante os alunos surdos é o Guia Prático de Verbos com Preposições. É um daqueles livros que todos deviam ter em casa, sempre à mão de pegar e consultar. E na escola também o devíamos ter, tal como temos dicionários de Língua Portuguesa. Sempre que pedimos a um aluno para escrever um texto e sempre que ele se debate com a dúvida da preposição a aplicar, poderia consultar o guia e gerir de forma autónoma o seu processo de aprendizagem.
 
É mais um livro editado pela Lidel, uma editora que produz muito material para o ensino de Português como língua estrangeira.


publicado por Maria do Céu Gomes às 09:10
Quinta-feira, 05 de Novembro de 2009

A Associação de Formadores de Monitores Surdos, AFOMOS, com a colaboração da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto e da Associação de Surdos do Porto, comemora o Dia Nacional da Língua Gestual Portuguesa com a Conferência «Eis as Questões em LGP», no próximo dia 14 de Novembro, no Auditório da FPCEUP.

Com uma Comissão Científica que integra nomes conhecidos como os Professores Doutores Daniel Serrão e Rui Nunes, da António Vieira Ferreira, da UPortucalense, Rosa Bizarro, da FLUP, Carlos Afonso, da ESE Frassinetti, e José Alberto Correia, Orquídea Coelho, Henrique Vaz e Sofia Marques da Silva, da FPCEUP, é de esperar uma conferência da maior qualidade. Quatro painéis desenvolvem os temas da conferência, a LGP na saúde, na sociedade, na comunicação social e na educação. Presenças confirmadas nas mesas espelham a diversidade das temáticas: Carlinda Leite (FPCEUP), Alexandra Perry (AFOMOS), José Fraga (Ordem dos Médicos), João Alberto (APS), Vítor Sousa (APAIC), Daniel Serrão (FMUP), Armando Baltazar (ASP), Maria José Almeida (ESE Setúbal), Orquídea Coelho (FPCEUP), Paula Estanqueiro (APS), José Serôdio (INR), Carlos Afonso (ESE Frassinetti), Amílcar Morais (UCP), Luís Clara (AFAS), Maria José Salgado (APS), Joana Cottim (FPAS) e Ângelo Costa (ASP).
As inscrições acabam amanhã. No blogue da AFOMOS, http://afomos.blogspot.com/.


publicado por Eduardo Cabral às 19:14
Quarta-feira, 04 de Novembro de 2009

É uma sugestão para praticar a leitura partilhada de histórias. As aventuras poéticas de um gato feliz e inspirado são apresentadas num livro pensado para o acesso à leitura, numa combinação apurada de texto e imagem.

O livro é acompanhado de um DVD interactivo, com conteúdos pedagógicos e três versões da história do Gato Gatão, uma versão narrada oralmente sobre as imagens, uma versão adaptada, em símbolos pictográficos para a comunicação e outra, em língua gestual portuguesa. Há ainda uma versão do livro em Braille e com imagens em relevo.
 
Este livro faz parte de uma colecção que vem a ser editada pela CERCICA, chamada 4 Leituras, porque se trata de uma edição chamada de desenho para todos, isto é, sem limitações para ser fruída por crianças e adultos em conjunto. Quem não imagina o prazer de uma mãe cega a ler enfim uma história ao seu filho? Ou de um pai ouvinte que aprende a história em língua gestual no DVD e depois explora o livro e parte à descoberta da leitura com o filho surdo?
 

O Gato Gatão, poeta de profissão é um livro de Graça Breia e Raquel Pinheiro (ilustração), que tem um sítio (http://www.raquelpinheiro.net) e um blogue (http://raquel-pinheiro.blogspot.com/) que pedem a visita. Edição CERCICA (http://www.editoracercica.com/index.html).



publicado por Eduardo Cabral às 22:20
Terça-feira, 03 de Novembro de 2009

A investigação sugere que a leitura partilhada de histórias, diária, contribui para o desenvolvimento precoce da linguagem infantil e para o desenvolvimento da literacia. A partilha regular de livros de histórias na escola também parece compatível com o desempenho académico, a aprendizagem da linguagem e da literacia.

Com as crianças surdas, a exploração partilhada, em LGP, das histórias escritas dos livros faz a ponte entre a linguagem de acesso, a LGP e a linguagem do livro. As crianças que precisam de desenvolver a LGP, recebem um modelo de linguagem estimulante, num formato muito motivador. As crianças que começam a aprender a LGP têm oportunidade de ver uma história e o desenvolvimento da sua linguagem é estimulado pelo modelo do professor. Depois de uma base consolidada em LGP, as crianças começam a dirigir a sua atenção para o escrito, a fazer perguntas e estão receptivas à orientação do professor. É forçoso usar estratégias adequadas aos diferentes alunos para encorajar o interesse (atenção visual) e a participação no processo de exploração da história. Com os surdos mais pequeninos é preciso gestuar no foco de atenção, fazendo, por isso, gestos junto às imagens que ilustram o livro. Gestuar no corpo das crianças é especialmente eficaz para captar e manter a atenção e o interesse. Outras estratégias importantes são o role-playing e o uso desenvolvido de expressões faciais e corporais. É essencial manter grande proximidade, para que o professor possa realmente tocar as crianças. Os grupos de leitura devem também ser muito pequenos com alunos que são novos a gestuar.
Os livros devem ter figuras claras, ser bem coloridos e sobre temas próximos das experiências das crianças. O lugar de leitura também deve ser bem preparado. Há que criar um ambiente positivo e confortável, para a criança se sentir disponível para participar.
Competência em LGP por parte do adulto é da maior relevância, para que a linguagem possa ser tão simples ou tão complexa quanto o permitam os pequenos surdos. É necessário estar atento aos sinais de compreensão e fornecer informação contextual quando necessário. A leitura deve ser pois acompanhada de uma exploração activa, fazendo perguntas que exijam das crianças pensar e participar, dando apoio adequado e  guiando as crianças na compreensão da história.
Todas as crianças adoram as histórias infantis. Fazer da leitura partilhada uma parte integral do dia escolar antecipa uma atitude positiva para a leitura e a escrita do português. A emergência de uma consciência do escrito parece estar ligada com a repetição das leituras, quando as crianças já se sentem familiarizadas com a história propriamente dita. Da primeira vez focamos as ideias principais e os conceitos básicos, deixando os pormenores para posteriores explorações. Das vezes seguintes, as crianças começam a colocar questões sobre as imagens e depois sobre a própria escrita
Nas leituras subsequentes, o professor pode apontar palavras significativas no livro, pedir aos alunos que descubram palavras e deixar que isso também aconteça de modo espontâneo. Não há um número específico de releituras, mas a exposição repetida às histórias permite melhor e mais profunda compreensão das histórias e aumenta a consciência sobre as imagens e as palavras. Por exemplo, numa história onde se repete uma palavra de forma previsível, a partir de certo ponto, um aluno e outro apercebem-se e começam a antecipar a resposta, fazendo o gesto. Pode então apontar-se a palavra no texto e executar a sua forma dactilológica. E fazê-lo de novo nos momentos apropriados da história.
A palavra escrita é o elemento de maior correspondência termo a termo com a língua gestual. As crianças com 2 anos e meio / 3 anos podem aprender a reconhecer palavras simples como pai, cão, quando usadas em contexto significativo.
As crianças precisam de tempo para absorver e processar a história, reparar nos detalhes, para olhar e ler os livros e estabelecer relações entre a LGP e a escrita, para responder a perguntas sobre a história e fazer as suas próprias perguntas, para expandir a suas ideias e para clarificar as suas dúvidas e erros de compreensão.
Em síntese, alguns “truques”: repetir as histórias, usar livros «previsíveis», usar uma LGP ritmada, a exemplo das rimas infantis, usar a dactilologia para promover o desenvolvimento da literacia.


publicado por Eduardo Cabral às 18:22
Segunda-feira, 02 de Novembro de 2009

 

Ainda sobre o Regresso a Salamanca e o especial relevo que a Conferência concedeu à aplicação do artigo 24 (Educação) da Convenção da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiências (UNCRPD) e também porque no post sobre a Convenção nos referimos a uma tradução não oficial do documento, transcrevemos de seguida o texto oficial do artigo, retirado do Diário da República, 1.ª série — N.º 146 — 30 de Julho de 2009, que publica a Resolução da Assembleia da República n.º 56/2009, aprovada em 7 de Maio:

 
Artigo 24.º
Educação
1 — Os Estados Partes reconhecem o direito das pessoas com deficiência à educação. Com vista ao exercício deste direito sem discriminação e com base na igualdade de oportunidades, os Estados Partes asseguram um sistema de educação inclusiva a todos os níveis e uma aprendizagem ao longo da vida, direccionados para:
a) O pleno desenvolvimento do potencial humano e sentido de dignidade e auto-estima e ao fortalecimento do respeito pelos direitos humanos, liberdades fundamentais e diversidade humana;
b) O desenvolvimento pelas pessoas com deficiência da sua personalidade, talentos e criatividade, assim como das suas aptidões mentais e físicas, até ao seu potencial máximo;
c) Permitir às pessoas com deficiência participarem efectivamente numa sociedade livre.
2 — Para efeitos do exercício deste direito, os Estados Partes asseguram que:
a) As pessoas com deficiência não são excluídas do sistema geral de ensino com base na deficiência e que as crianças com deficiência não são excluídas do ensino primário gratuito e obrigatório ou do ensino secundário, com base na deficiência;
b) As pessoas com deficiência podem aceder a um ensino primário e secundário inclusivo, de qualidade e gratuito, em igualdade com as demais pessoas nas comunidades em que vivem;
c) São providenciadas adaptações razoáveis em função das necessidades individuais;
d) As pessoas com deficiência recebem o apoio necessário, dentro do sistema geral de ensino, para facilitar a sua educação efectiva;
e) São fornecidas medidas de apoio individualizadas eficazes em ambientes que maximizam o desenvolvimento académico e social, consistentes com o objectivo de plena inclusão.
3 — Os Estados Partes permitem às pessoas com deficiência a possibilidade de aprenderem competências de desenvolvimento prático e social de modo a facilitar a sua plena e igual participação na educação e enquanto membros da comunidade. Para este fim, os Estados Partes adoptam as medidas apropriadas, incluindo:
a) A facilitação da aprendizagem de braille, escrita alternativa, modos aumentativos e alternativos, meios e formatos de comunicação e orientação e aptidões de mobilidade, assim como o apoio e orientação dos seus pares;
b) A facilitação da aprendizagem de língua gestual e a promoção da identidade linguística da comunidade surda;
c) A garantia de que a educação das pessoas, e em particular das crianças, que são cegas, surdas ou surdas-cegas, é ministrada nas línguas, modo e meios de comunicação mais apropriados para o indivíduo e em ambientes que favoreçam o desenvolvimento académico e social.
4 — De modo a ajudar a garantir o exercício deste direito, os Estados Partes tomam todas as medidas apropriadas para empregar professores, incluindo professores com deficiência, com qualificações em língua gestual e/ou braille e a formar profissionais e pessoal técnico que trabalhem a todos os níveis de educação. Tal formação compreende a sensibilização para com a deficiência e a utilização de modos aumentativos e alternativos, meios e formatos de comunicação, técnicas educativas e materiais apropriados para apoiar as pessoas com deficiência.
5 — Os Estados Partes asseguram que as pessoas com deficiência podem aceder ao ensino superior geral, à formação vocacional, à educação de adultos e à aprendizagem ao longo da vida sem discriminação e em condições de igualdade com as demais. Para este efeito, os Estados Partes asseguram as adaptações razoáveis para as pessoas com deficiência.


publicado por Eduardo Cabral às 19:48
Domingo, 01 de Novembro de 2009

Arrancaram em Setembro e vão rolar até Janeiro ou Fevereiro do próximo ano. Quatro estudantes alemães, surdos e ouvintes, organizaram uma aventura para percorrer Brasil, Bolívia, Peru e Equador em tandem (e outros meios de transporte). No percurso, incorporam jovens surdos locais e com eles pretendem concretizar cerca de dez workshops em escolas, relacionados com a divulgação das línguas gestuais. O objectivo é acabar com os preconceitos ainda existentes em relação aos surdos e mostrar às crianças ouvintes que os surdos podem comunicar, compartilhar pensamentos e ideias, até com pessoas de outros continentes, através das línguas gestuais.

O grupo tem um site onde é possível conhecer os participantes, seguir a sua rota, conhecer as peripécias da viagem, interagir com eles e até apoiar a expedição.
Vale a visita, em http://www.globetreter.de/zyx/.


publicado por Eduardo Cabral às 12:01
Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Os participantes na Conferência Mundial sobre Educação Inclusiva, que reuniram na passada semana (21 a 23 de Outubro de 2009), em Salamanca, aprovaram uma resolução em três pontos, de que damos aqui conhecimento:

No primeiro, reafirma-se o compromisso com a Declaração de Salamanca (1994) e com o propósito de desenvolver a educação inclusiva em todos os países do mundo e saúda-se a Convenção da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos das Pessoas com Deficiências (UNCRPD). A resolução dá especial relevo ao artigo 24º, o reconhecimento do direito humano à educação inclusiva enquanto processo que apoia as crianças a atingir os seus potenciais académicos e sociais e que implica remover as barreiras do meio, das atitudes, da comunicação, do currículo, do ensino, da socialização e da avaliação a todos os níveis.
O segundo ponto é um apelo a todos os governos para que ratifiquem a Convenção da ONU e desenvolvam e instituam planos concretos a assegurar a educação inclusiva pra todos. A resolução apela ainda às principais agências internacionais, como a UNESCO, a UNICEF ou o Banco Mundial para encararem como prioritário e aumentarem o apoio à educação inclusiva.
A terceira resolução é o compromisso dos participantes na formação de uma aliança para transformar os esforços globais por uma Educação para Todos, criando uma melhor educação para todos pelo desenvolvimento da educação inclusiva e lançam a INICIATIVE 24, como veículo para atingir esse fim.
 
 
Estavam presentes 400 representantes de 57 países (África do Sul, Alemanha, Andorra, Argentina, Arménia, Áustria, Bélgica, Bolívia, Brasil, Bulgária, Canadá, Cabo Verde, Chile, Colômbia, Costa Rica, Croácia, Dinamarca, Egipto, Espanha, Equador, Estados Unidos da América, Filipinas, Finlândia, França, Geórgia, Holanda, Hong Kong, Honduras, Hungria, Índia, Irlanda, Israel, Itália, Líbano, Líbia, Lituânia, México, Malásia, Moçambique, Moldávia, Namíbia, Nicarágua, Noruega, Nova Zelândia, Panamá, Peru, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Roménia, Rússia, Sérvia, Suécia, Uruguai, Zâmbia e Zimbabué). A Conferência foi organizada pela Inclusion International, com a INICO (Universidade de Salamanca) e apoiada pela Fundación ONCE e pela Inclusion Europe.
 
Ver:
Sobre o artigo 24, ver o nosso post:
 


publicado por Eduardo Cabral às 13:24
Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Falando ainda de representações sociais, quero apresentar aqui um outro filme. Desta vez não é de surdos sobre ouvintes, mas de ouvintes sobre os intérpretes de língua gestual.

 
 
O que é que um cidadão comum que não tem contacto regular com surdos pensará da língua gestual e do papel dos intérpretes?
 
Será que reconhece a língua gestual como uma língua genuína ou como uma mera mímica sem significado?
 
Pegando nesta temática, humoristas portugueses (Os Contemporâneos) fizeram um sketch. O que é que o intérprete está na televisão a fazer? Será que aquilo é trabalho ou é só mexer os bracitos?
 
O humorista brinca com a situação e diz: “Vai mas é trabalhar…”
 
Isto é uma brincadeira, mas será que não há muitas pessoas que pensam do mesmo modo ?
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 00:03
Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

A escola pode esperar, a vontade de aprender é que não. O jardim-de-infância não é a escola e não deve descaracterizar-se nem organizar-se com os princípios que correspondem a outras fases, posteriores, do desenvolvimento. Até porque, enquanto a escola espera, não há tempo a perder, que o se deve viver aos dois, aos três, aos quatro e aos cinco anos tem que ser vivido na idade e plenamente. Ou seja, brincar, que é uma coisa muito séria nestas idades (e nas outras).

Tudo isto para falar de visita que fiz ao jardim-de-infância de referência da Escola Básica do Covelo, Porto. Era o princípio da tarde e não havia uma actividade comum dirigida; pelo contrário, a sala fervilhava de actividades.
A Catarina, que vai fazer cinco anos, vamos chamar-lhe assim porque é nome que ninguém tem lá na sala, levou-me à «loja da fruta» e, a brincar ao faz de conta, transaccionou comigo uma cesta de peras e maçãs, bananas, laranjas e já não lembro que mais, “ensinando-me”, competentemente, em língua gestual, toda a mercadoria. Noutra mesa pintavam-se em cores diferentes as camas da história dos três ursos e todos sabiam explicar que a cama azul e grande era do pai urso e de quem eram as restantes. E quando as pinturas foram a secar encostadas à parede, não apercebi como (estive na loja da fruta), mas era agora o escrito que atraía as atenções, o pai urso, a mãe ursa, o filho urso, em leitura gestual, em leitura oral, em escrita com maiúsculas de imprensa. No tapete, dois meninos mais pequenos, chamados pela colecção de miniaturas de animais, brincavam com a formadora de LGP, à procura de animais com riscas no meio daquela selva.
Já na «casinha», fui submetido a um pantagruélico jantar, que principiou com sopa quente imaginária. Mas, depois, o prato e os talheres foram dispostos à minha frente, enumerados em LGP e em português oral (ufa! É muito difícil dizer «garfo»!) Peixe não havia, mas serviram-me frango. Faltava também o arroz ou as batatas (e aqui, o meu gesto imperfeito para «batatas» foi prontamente corrigido por aquela mestra de palmo e meio), mas havia pão e queijo e fruta e bolachas de chocolate. Escapei ao gelado porque do cone tinha desaparecido a bolinha de gelado e a “dona de casa” de serviço recusou-se a servir-mo naquelas condições. São exigências! Terminei a vista, como dizer…, satisfeito como um abade.
 

As crianças surdas são muito diferentes umas das outras, mas têm todas as mesmas necessidades: precisam de desenvolver precocemente as competências de comunicação numa língua que lhes permita representar-se e representar o mundo e precisam de o fazer numa língua acessível e de aceder à segunda língua a partir da língua que conhecem melhor, desenvolvendo uma literacia do português escrito e uma expressão oral de acordo com as suas capacidades. Precocemente.



publicado por Eduardo Cabral às 19:38
Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

Um comercial produzido na Tailândia:

É a história de uma menina Surda que aprende a tocar violino  contra todos os reveses, principalmente de uma colega pianista e maldosa.

É um comercial de shampoo, da Pantene com a temática "lição de vida", mostrando *o que se pode fazer com o coração*.

Nenhuma referência é feita ao produto (shampoo) até o fim do comercial: "Você pode brilhar".


música: A música tema é "Canon in D", de Johann Pachelbel

publicado por David Fonseca às 18:23
Segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Os ouvintes têm representações sociais sobre os surdos e os surdos também as têm sobre os ouvintes. Inspirado em Monty Pyton, Charlie Swinbourne decidiu fazer um sketch em língua gestual, com um argumento centrado nas vivências das pessoas surdas. Estou a falar de “Four Deaf Yorkshiremen”. Este filme dá-nos a conhecer as dificuldades por que passaram quatro surdos irlandeses, desde a infância até à idade adulta, e deixa implícita uma certa visão sobre os ouvintes.

 
O filme começa com quatro idosos sentados a uma mesa de jogo, lembrando os velhos tempos. O primeiro conta que o pai trabalhava nas minas de carvão. Na escuridão, não conseguia comunicar e um dia cansou-se daquela situação. Abandonou o trabalho e a família começou a passar fome. Convencido de que ninguém tinha passado mais dificuldades do que ele, decide oferecer uma nota de dez libras a quem tenha tido uma história pior do que a sua.
O segundo afirma que embora o amigo tivesse tido uma vida difícil, tinha uma casa com telhado. Ele já não podia dizer o mesmo. O telhado da sua estava cheio de buracos, entrava o frio e a chuva, não havia electricidade. Punham-se todos à volta de uma vela para se poderem ver uns aos outros e comunicar. Aos poucos, as paredes começaram a rachar e a humidade acabou por estragar os tapetes e os móveis. Viviam sem quaisquer condições. Ninguém podia ter uma história pior do que a sua…
O terceiro vem provar que sim. Os pais surdos eram analfabetos, por isso não leram os avisos de pagamento da renda da casa. Foram acumulando dívidas e um dia foram postos na rua. Como não conseguiam comunicar com os ouvintes não puderam nem perceber o que se passava, não se puderam defender. Foram viver para a cave da associação de surdos que cheirava mal e estava cheia de ratazanas. O frio era tanto que os dedos das suas mãos congelavam, nem sequer conseguiam gestualizar. Este terceiro surdo pensa que é ele quem vai ganhar as dez libras, mas não.
Falta falar o quarto surdo. Enquanto os outros enumeraram várias razões para justificar que tinham a pior história de vida, este diz apenas uma frase: “Os meus pais eram ouvintes.” Os outros arregalam os olhos de espanto e perguntam: “Não sabiam língua gestual?” Não, é a resposta. Então todos em uníssono lhe entregam a nota de dez libras e não há mais discussão.
 
Todos sabemos que é bastante complicado para um surdo ter uma família ouvinte que não se esforça por comunicar com ele. Neste filme, essa ideia é bastante vincada: pior do que passar fome, pior do que ter um telhado por onde entra a chuva e o frio, pior do que não ter um tecto, é ter pais ouvintes que não sabem língua gestual.
 
Não vou tecer mais considerações sobre este sketch. Em vez disso, gostava de deixar algumas perguntas no ar:
 
Concordam com a decisão dos quatro surdos irlandeses? A última situação é mesmo a pior de todas? E que representações dos surdos sobre os ouvintes estão implícitas no filme?
 
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 19:14
Sábado, 24 de Outubro de 2009

Departure Lounge é uma curta-metragem realizada por Louis Neethling e produzida pela BSLBT (British Sign Language Broadcasting Trust), que conta com a participação de vários actores surdos.

O filme é uma celebração da amizade que se desenvolve entre Sid, um idoso que está internado num hospital e Matt, um jovem empregado de limpeza. Ambos são surdos.
Sid está angustiado, porque pressente que não irá escapar à morte. Matt anda nervoso porque a relação que mantém com uma jovem não está a correr muito bem. Tem uma filha, mas não consegue assumir as suas funções de pai. Pensa que não está à altura e por isso foge das suas responsabilidades. Os dois andam perdidos, à procura de alguém que os ajude.
É a surdez que os aproxima. Matt vê nele um companheiro para partilhar o seu Deaf Club, um clube de que só ele fazia parte. Agora tem alguém com quem conversar. Assim, decide tirar Sid do isolamento do seu quarto e levá-lo para o telhado do hospital. Aí, ambos podem contemplar a cidade e falar dos seus problemas.
Especialmente bonita é a cena em que Sid diz que vai morrer e Matt lhe sugere para imaginar um céu só com surdos, todos a falar língua gestual, mesmo os anjos. Um local onde os surdos se sintam bem e não tenham de andar sempre a explicar o que é a cultura surda e a consciência surda, um local onde eles se sintam pessoas “normais”, enfim o paraíso.
Sid também ajuda Matt, mostrando-lhe que a vida é curta e não pode ser desperdiçada. Ele tem que a viver. Sid não viverá muito mais tempo, mas Matt aprende a viver com ele.
 
É um filme bastante interessante que vale a pena ver e rever. Deixo aqui o link.
 
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 13:23
Sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Já pensaram em um mundo totalmente adaptado às pessoas "com incapacidade"? Um mundo em que não ter "incapacidade" fosse "fora do comum"? Este anúncio francês dá uma idéia de como seria.



publicado por David Fonseca às 15:26
Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

A votação electrónica tem revelado propensão para vulnerabilidades de segurança cuja resolução é complexa, como se verificou em experiências de votação electrónica noutros países, com particular destaque para as da Alemanha, EUA, Holanda e Irlanda, onde a votação electrónica foi suspensa ou substancialmente reformulada.

            O principal interesse em considerar um projecto de voto electrónico em Portugal seria a sua possível contribuição para permitir a votação de cidadãos que se encontrem longe do local da sua mesa de voto no Dia das Eleições, o chamado "voto em mobilidade". Na verdade, uma possível facilitação da contagem de votos por meios electrónicos tem pouco interesse em Portugal, já que a contagem dos votos tradicionais em papel termina em geral menos de 6 horas após encerradas as urnas, e a introdução generalizada de votação electrónica tem elevados custos, envolve uma organização logística complexa e levanta problemas de segurança informática e de garantia de secretismo do voto. Acontece que também é possível criar um sistema de “voto em mobilidade” em papel realizando-o uns dias antes do Dia das Eleições (ver sistema simples e económico de “votação em mobilidade” em papel), pelo que a introdução de voto electrónico só é necessária para o “voto em mobilidade” se for considerado que este se deve realizar também no Dia das Eleições. Contudo, mesmo neste caso, deverá ser cuidadosamente ponderado se essa possibilidade compensa os custos e problemas de um sistema de voto electrónico.

            Apesar da utilização de votação electrónica em eleições políticas ter sido iniciada há mais de 30 anos – na Holanda – e cerca de 25 países terem realizado experiências de votação electrónica de vários tipos, em quase metade deles iniciadas há mais de 10 anos, a sua utilização regular é presentemente muito restrita. Apenas 4 países (Brasil, Índia, Estónia, Venezuela) usam hoje em dia (em 2008) votação electrónica directa em todos os locais (na Estónia pela Internet), e só dois outros países a usam com razoável incidência (cerca de 50% na Bélgica em 2004 e 2007; 38% nos Estados Unidos da América, em 2006). Acontece que destes países, só na Estónia a votação pode ser feita pela Internet, exigindo os outros países a votação em máquinas instaladas em assembleias de voto sem ser possível o “voto em mobilidade”.

            Mesmo a disponibilização da votação pela Internet para cidadãos residentes no estrangeiro em países onde podem votar por correspondência tem sido rara: além obviamente da Estónia, e em parte dos 3 cantões Suíços onde foi iniciada a introdução da votação pela Internet, foi possível na Holanda em 2004 e na França em 2006.

            Os problemas de segurança que podem ocorrer levaram vários países a atrasar ou interromper a introdução de votação electrónica e, alguns, a abandoná-la, sendo o caso mais marcante a Holanda que, depois de um crescimento progressivo ao longo de mais de 30 anos ter levado em 2002 à disponibilização quase plena de votação electrónica em máquinas nas assembleias de voto, resolveu bani-la completamente em Maio de 2008 e regressar à votação em papel.

 



publicado por David Fonseca às 12:08

Deve o formador de Língua Gestual Portuguesa participar na aula da disciplina de Português como L2 para alunos surdos?

A pergunta tem andado no ar desde o início do ano lectivo e mantém uma discussão que vem de trás. Entendida assim a questão, em abstracto e de modo genérico, qual deverá ser a resposta?
Marta Morgado, no IV Congresso Nacional de Surdos, disse não, que o formador é responsável pela docência da LGP e que por aí se ficam as suas funções lectivas. Mesmo no 1º ciclo (sobre este nível, ver o meu post A parceria pedagógica). O argumento para rejeitar essa forma de trabalho conjunto assentou na experiência de que «os formadores surdos estariam a ser usados como intérpretes nas aulas dadas em conjunto com ouvintes» (ver o post de Maria do Céu Gomes, Intérpretes, formadores… Que papéis nas Escolas de Referência?).
É possível que sim, que o docente de Português sinta uma irreprimível necessidade de intérprete e assim pretenda tirar partido do formador de LGP. Estas práticas vêm de trás, do tempo em que havia uma hora aqui de formador, outra hora acolá de intérprete e se “distribuía o mal” pelos alunos surdos, dispersos em múltiplas turmas de alunos ouvintes e em que se misturavam as diferentes funções na amálgama do «apoio».
Leccionar a disciplina de Português como segunda língua em turmas de alunos surdos é abraçar uma realidade totalmente diferente e implica abandonar as estratégias que resultam na aula para os alunos ouvintes. O professor de Português pode sentir uma forte tentação para reproduzir a aula pensada para a turma de ouvintes, confortado pela presença do intérprete de LGP, que tudo traduz e pensar que tudo chega aos alunos naquele passe de mágica do intérprete. Não pode haver raciocínio mais errado. Porque, numa situação destas, poderíamos ainda dizer que os alunos estão mesmo na aula de Português? Se o intérprete traduz, onde está a decifração do texto, a apreensão do(s) sentido(s) e a apropriação progressiva da estrutura da língua? Sobre esta opção, em artigo acabado de publicar, Maria do Céu Gomes afirma: «Esta última alternativa [intérprete na aula de português] é a menos aconselhável, uma vez que uma das estratégias aconselhadas no ensino da segunda língua é a comparação e a reflexão metalinguística entre a estrutura das duas línguas. Esta reflexão nunca poderá ser feita pelo intérprete, pois não é essa a sua função» (Gomes, 2009, p. 13).
Mesmo o professor de Português competente em LGP, capaz de conduzir sozinho a sua aula, tem muito a ganhar com um trabalho de articulação e colaboração com o formador de LGP no trabalho de preparação das suas aulas, para adequação de conteúdos e estratégias. Mas o trabalho em equipa na sala de aula traz para este espaço a oportunidade de desenvolver aí um processo de linguística comparada que conduza ao crescimento progressivo da consciência metalinguística de cada um dos alunos. E isso, feito de modo consistente e sustentado em ambas as línguas, só é possível com os dois docentes na sala de aula.
O formador na aula de Português? Parece a melhor opção.
 
Referência:
GOMES, Maria do Céu (2009): «O Ensino do Português num Contexto de Educação Bilingue», Diversidades, n.º 25, Julho, Agosto, Setembro, pp. 10-14.


publicado por Eduardo Cabral às 11:13
Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

 

Existem alguns materiais de apoio para o ensino de Português enquanto Língua Estrangeira, que são bastante adequados para o trabalho com os nossos alunos surdos. Quero destacar aqui três livros da Editora LIDEL:
                            
Vamos lá começar!
Exercícios de Vocabulário
Nível Elementar
 
Vamos lá começar!
Explicações e Exercícios de Gramática
Nível Elementar
 
Vamos lá continuar!
Explicações e Exercícios de Gramática e de Vocabulário
Níveis Intermédio e Avançado
 
Estes livros têm como objectivo acompanhar e consolidar a aprendizagem feita na sala de aula com a ajuda de um professor. Não substituem os manuais de Língua Portuguesa, complementam-nos. Os exercícios de vocabulário têm a sequência dos conteúdos temáticos geralmente utilizados para a aprendizagem do Português Língua Estrangeira. O livro com exercícios de vocabulário deve ser utilizado em ligação com o livro que tem explicações e exercícios de gramática. Os dois livros foram concebidos como sendo um só, dividido em duas partes. É por isso indispensável trabalhar com os dois. O terceiro livro destina-se a um nível mais avançado.
 
Todos estes livros se regem por uma abordagem comunicativa da aprendizagem de línguas tendo em conta a necessidade de adquirir e aplicar as estruturas gramaticais e lexicais. Uma língua aprende-se comunicando, mas sempre com base na aquisição sólida e reflectida das estruturas da língua. Para uma aprendizagem correcta e equilibrada, os exercícios de gramática devem ser feitos de uma forma gradual e progressiva e sempre a partir de actividades comunicativas.
 
Deixo aqui imagens de duas páginas de um destes livros. Na primeira, introduz-se o verbo “estar” seguido de infinitivo. As acções estão ilustradas com desenhos, o que é muito útil para os alunos surdos. Na segunda página, os alunos têm que praticar o uso do pretérito perfeito e para isso é-lhes dada uma sequência de imagens. Têm que contar o que é que uma jovem fez no dia anterior, o que os obriga a aplicar vários verbos.
 
São livros bastante interessantes que poderão dar um contributo importante para o ensino do Português como Segunda Língua.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 20:14
Terça-feira, 20 de Outubro de 2009

Todos os professores que leccionam Língua Portuguesa como segunda língua aos alunos surdos se debatem com dois grandes problemas: por um lado a falta de programa e por outro a falta de manuais específicos. Surgem por isso dúvidas quanto ao caminho a percorrer.

  
Será que se deve seguir um manual de Língua Portuguesa como Língua Materna ou um manual de Língua Portuguesa como Língua Estrangeira?
 
Eu diria que se devem usar os dois, enquanto não tivermos manuais próprios. Os primeiros estão pensados para alunos ouvintes, que começaram a adquirir a Língua Portuguesa desde o primeiro momento de vida. Partem do pressuposto de que quando estes alunos chegam à escola, já possuem um grande domínio da língua em termos de estrutura gramatical e de vocabulário. Os segundos partem de um pressuposto contrário, ou seja, que a Língua Portuguesa não é a língua materna dos alunos e que estes iniciam a sua aprendizagem tardiamente, às vezes apenas no segundo ciclo, outras ainda mais tarde. Os primeiros seguem uma abordagem tradicional e os segundos, uma abordagem comunicativa.
 
A Língua Portuguesa como segunda língua para os surdos deve combinar as duas abordagens. Por um lado, não nos podemos esquecer que os alunos surdos começam a aprender Português logo no início do primeiro ciclo e às vezes já no pré-escolar. Têm uma grande carga horária desta língua, o que significa que quando chegam ao segundo ciclo, já passaram há muito tempo a fase de aprender o equivalente a “What’s your name?”. A abordagem comunicativa está correcta, no entanto é preciso saber situá-la no tempo. É importante perceber em que fase é que o aluno está, para podermos ir de encontro às suas necessidades e continuarmos a desenvolver as suas competências. Ao fim de alguns anos de começarmos a aprender Inglês ou Francês, os textos começam a tornar-se mais complexos, os exercícios de interpretação mais exigentes… Deixamos as noções básicas para evoluirmos cada vez mais.
 
Com o Português Segunda Língua o processo é idêntico. Em primeiro lugar, é importante perceber em que nível está o aluno. Há alunos que nos chegam ao terceiro ciclo sem saber ler nem escrever e outros que já dominam bem a língua. Cada caso é um caso. Se um aluno fez um percurso normal e possui os conhecimentos que se esperam para a sua idade, devemos exigir cada vez mais dele e dotá-lo de competências que lhe permitam prosseguir estudos e estar ao nível dos seus pares ouvintes. É aí que os livros de Português Língua Materna são importantes, pois geralmente situam-se num nível mais avançado. Por outro lado, existem  alunos com imensas lacunas e, nesse caso, os objectivos são outros. 
 
O docente de LP segunda língua tem que saber gerir bem o processo de ensino-aprendizagem. Este deve permitir que o aluno adquira todas as competências, seguindo no entanto uma metodologia adequada. É aí que o uso de dois tipos diferentes de manuais pode ser benéfico, pois complementam-se. Os alunos surdos necessitam de aprender vocabulário, que os ouvintes já sabiam mesmo antes de entrarem para a escola. O que para uns é óbvio, para outros é completamente desconhecido. Os livros de LP como Língua Estrangeira têm essa sensibilidade, pois partem do princípio que o aluno não sabe nada.  
 
É claro que não vamos pedir aos alunos para comprarem dois livros, mas podem comprar um deles e o professor pode fornecer à parte outros materiais que considere complementares. Há professores que preferem a não adopção de manuais e aí todo o material é produzido pelos próprios, tentando conciliar as duas abordagens. É uma opção. Isto acontece porque na maior parte dos manuais de Língua Portuguesa para ouvintes, os textos têm de ser adaptados para os surdos. No entanto, não podemos esquecer que existe uma grande oferta de manuais no mercado e alguns deles possuem uma linguagem e uma forma de organização mais acessíveis para os nossos alunos. É importante analisar todos os manuais existentes de modo a verificar se há algum que possa ser usado nas aulas de Português L2. 
 
Deixo imagens de um manual de Português Língua Não Materna. É a mesma metodologia das Línguas Estrangeiras. No primeiro exercício, os alunos têm que descrever o que vêem em cada imagem. No segundo, têm que fazer o retrato físíco de algumas pessoas, seguindo um texto que funciona como modelo.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 23:46
Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

No ano transacto, iniciou-se na Escola EB1/JI do Covelo, Agrupamento Eugénio de Andrade, um projecto de intervenção precoce para as crianças surdas, a partir dos 0 anos de idade. O apoio é prestado também às famílias, pois estas carecem de formação em LGP e de orientação quanto à forma como educar os seus filhos surdos. Como é uma iniciativa de crucial importância, consideramos que é necessária a sua divulgação. Pedimos por isso à equipa responsável por este projecto para falar um pouco sobre ele. É importante que todos saibam da sua existência para que cada vez mais crianças surdas possam beneficiar deste serviço. Os pais, os profissionais ligados à saúde e os profissionais ligados à educação, têm um papel fundamental no encaminhamento destas crianças. Desse encaminhamento precoce depende um percurso com menos barreiras e menos dificuldades no futuro.

 
“No desenvolvimento da criança surda ou ouvinte, a promoção das suas capacidades linguísticas é condição necessária para o seu desenvolvimento global enquanto pessoa. “A linguagem é essencial à vida em comunidade; Através dela partilhamos ideias, emoções, usufruímos das experiências dos outros, trabalhamos e divertimo-nos em grupo, transmitimos e recebemos informações, construímos significados e aprendemos.” (Sim-Sim, 2005:17).
As dificuldades de acesso à linguagem oral e os problemas comunicativos e cognitivos da criança com surdez “não têm origem na criança e sim no meio social em que ela está inserida, que frequentemente não utiliza uma língua à qual a criança possa aceder de forma espontânea, a língua gestual” (Goldfeld, 1997:53). O contexto social e linguístico onde a criança interage tem, nos casos da surdez, mais repercussões no desenvolvimento, sobretudo quanto ao facto de, na maioria das situações, os pais serem normo-ouvintes.
A linguagem desenvolve-se em interacção com o outro e os progenitores são os principais cuidadores. Os pais são o primeiro contacto social que a criança tem. Desta forma, existe uma grande necessidade de os orientar e informar sobre a situação do seu filho com surdez, capacitando-os, o que se consegue com o trabalho de todos os profissionais que lidam com a família (Coelho, 2007).  
A Intervenção Precoce (IP) define-se como uma medida de apoio integrado, centrado na criança, na família e nos contextos, mediante acções de natureza preventiva, designadamente no âmbito da educação, da saúde e da acção social com vista a: assegurar condições facilitadoras do desenvolvimento da criança potenciando a melhoria das interacções familiares e reforçar as competências familiares como suporte da sua progressiva habilitação e autonomia face à problemática da surdez. A I.P. tem como destinatários crianças até aos seis anos de idade, sendo prioritária dos 0 aos 3 anos (primeira infância) (Despacho-conjunto n.º 891/99).
No Jardim de Infância do Covelo, está em funcionamento o Projecto de IP Bilingue e Bicultural para crianças surdas e sua família, pertencente à Escola de Referência para a Educação Bilingue de alunos Surdos (EREBAS) do Agrupamento de Escolas de Eugénio de Andrade.
A resposta educativa organiza-se através de uma equipa especializada que inclui um formador surdo de Língua Gestual Portuguesa (LGP), uma terapeuta da fala e uma educadora especializada em Educação Especial, na área da Surdez.
Na escola de referência, estas crianças podem estar numa turma com outros amigos também surdos e os seus pais contactam com outras famílias com filhos surdos. Uma educação bilingue e bicultural é uma proposta que desenvolve competências linguísticas e sociais da comunidade surda e da comunidade ouvinte. O facto de estas crianças estarem inseridas numa escola de ensino regular, seja frequentando turmas de ouvintes ou turmas de surdos, proporciona-lhes a participação com grupos de crianças ouvintes, em actividades desenvolvidas na comunidade escolar.
A educadora especializada procura criar experiências de aprendizagem, seguindo as etapas normais de desenvolvimento, sendo utilizadas estratégias específicas para o ensino de crianças surdas, nomeadamente adaptação de materiais, uso de pistas visuais, leitura partilhada de histórias e sua dramatização, o que contribui para o desenvolvimento precoce da linguagem e para o desenvolvimento da literacia. Esta intervenção pode ser realizada quer em grupo quer através de um apoio individual.
Com o formador de LGP, as crianças têm um modelo adulto que usa esta língua para comunicar. Através deste profissional, adquirem e desenvolvem a LGP, o que ajuda a promover o desenvolvimento global da criança e contribui para a formação da sua identidade.
O terapeuta da fala realiza um acompanhamento individualizado de cada criança, procurando que os pais sejam participantes activos. Aqui é desenvolvida a comunicação, a linguagem e a fala, quer seja através da audição (no caso de as crianças terem competências auditivas), quer seja através da leitura de fala. O facto de os pais estarem na terapia da fala, permite-lhes a aprendizagem de estratégias de comunicação, bem como a partilha das vivências da criança no dia a dia familiar e escolar.
Na escola de referência, os pais podem participar em sessões de formação em LGP para pais, para que a família consiga ter uma comunicação efectiva com a criança, e promova o seu desenvolvimento global de forma harmoniosa.
Acreditamos que “de pequenino, se torce o pepino”, por isso, é de crucial importância que esta intervenção tenha início o mais precocemente possível para que as crianças surdas possam adquirir competências linguísticas e sociais que lhes permitam “ascender ao infinito e mais além…” (Bispo, 2009: 14).
                                                                            Carolina Ribeiro e Regina Silva
 

É importante que o encaminhamento se faça. O espaço é bonito e acolhedor. Deixo aqui imagens da sala e o contacto:

 

Sala de Intervenção Precoce para Crianças Surdas

Escola EB1/JI n.º28 do Covelo                          

R. Dr. Adriano de Paiva                                      

4200-014 Porto

 

Telefone/ Fax: 225511936

E-mail: info@eb1-porto-n28.rcts.pt

 
 
 



publicado por Maria do Céu Gomes às 01:01
Domingo, 18 de Outubro de 2009

Susana Capitão é uma jovem terapeuta da fala que, contudo, tem já uma considerável experiência de trabalho com crianças surdas e, o que é mais, uma prática construída quotidianamente na escola inclusiva. Acaba de publicar, na revista Diversidades, «Terapia da Fala no Mundo da Surdez», um artigo que dá exactamente conta desse saber vivido e da uma profunda reflexão sobre a aquisição da língua oral no contexto do desenvolvimento global das crianças surdas. Tem, por isso um discurso que se distancia da visão dominantemente clínica que persiste ainda no discurso de uma parte considerável destes técnicos que, não por acaso, são formados a partir das estruturas da saúde (ou deveria dizer da doença?).

Por isso, e sempre chamando a atenção para a «heterogeneidade de características dos alunos surdos» (Capitão, 2009, p. 20), o seu artigo conclui com uma defesa clara da proposta bilingue para a educação das crianças surdas: «Consideramos que deve ser possibilitado à criança e à sua família adquirir a língua gestual e a língua oral, convivendo quer com a comunidade surda, como com a comunidade ouvinte» (idem, p. 21). Tendo previamente colocado a questão de «como prever o potencial de desenvolvimento de uma criança pequena e qual a língua que irá utilizar ao longo da vida» (ibidem), critica, por limitativas, tanto a «crença» (ibidem) de que as crianças que usem gestos não conseguem desenvolver a fala quanto a perspectiva de que deva aprender a língua oral só depois de dominar a gestual, encontra a resposta numa citação de Graney: «Ter contacto desde uma idade precoce com duas línguas oferecerá à criança muito mais recursos do que tendo apenas uma língua, qualquer que seja o seu futuro e qualquer que seja o mundo em que escolherá viver».
Haverá, neste artigo, um ou outro aspecto ou opinião a merecer ser discutido e fica aqui aberto espaço para debate. A ele voltaremos, se for caso disso. Mas, de momento, fica a chamada de atenção para o que parece essencial e é exposto de forma cristalina pela jovem autora. Que nos faz desejar pela sua colaboração neste blogue, mais rico a partir desse dia.
 
 
Referência:
CAPITÃO, Susana (2009), «Terapia da Fala no Mundo da Surdez», Diversidades, n.º 25, Ano 7, Julho, Agosto e Setembro, pp. 18-21.
 
Notas:
Sobre este assunto, pode ler o post de Maria do Céu Gomes, O Papel da Terapia da Fala numa Abordagem Bilingue da Educação de Surdos.
Sobre a revista Diversidades, ver, também de Maria do Céu Gomes, o post Gestos Que Falam…


publicado por Eduardo Cabral às 11:46
Sexta-feira, 16 de Outubro de 2009

Temos falado aqui de bibliotecas escolares e de bibliotecas online e sobre a importância de promover o interesse pela leitura. Daí o destaque de alguns livros destinados a diferentes idades, que contêm em termos temáticos referências à cultura e identidade surdas.

Existem outros livros que não se debruçam especificamente sobre a surdez, mas que fazem parte do património cultural de cada um de nós, sejamos surdos ou ouvintes: histórias infantis, histórias juvenis e outras.
Cada vez se fazem mais DVDs com histórias contadas em língua gestual. São edições bilingues, em que a história surge contada em dois registos, na língua escrita e na língua gestual, o que ajuda bastante à compreensão do texto. Este tipo de produções também é bom para os ouvintes, nomeadamente para os pais, porque desse modo conseguem aprender a língua gestual em contexto e não em listas de vocabulário, onde as palavras aparecem de forma isolada. Para além disso, permite aos pais acompanhar os filhos no visionamento de histórias e partilhar com eles o significado das mesmas. Esta proximidade ajuda a relação familiar e faz a criança sentir-se valorizada na sua língua.
Mas melhor do que ter alguns DVDs em casa é ter a possibilidade de consultar um site na internet, onde existam muitas histórias disponíveis em registo bilingue. Aqui em Portugal não conheço nenhum, mas em Inglaterra existe o site da ITV, Signed Stories, produzido pela SignPost, uma agência de acessibilidade sem fins lucrativos, que assegura serviços em BSL (British Sign Language) em várias plataformas: televisão, vídeo, DVD, filmes, internet, etc. O objectivo da SignPost é tornar a informação e a cultura acessíveis a todos os surdos e nesse sentido apoia vários projectos que lhe são propostos. Este é um deles, onde conta com o apoio de várias editoras.
Este site pretende constituir-se como a maior biblioteca online do mundo, em termos de livros infantis, tornando-os acessíveis através de várias valências: som, texto, animação e língua gestual. Todos podem visitar este site, não só as crianças surdas mas também as suas famílias e amigos ouvintes. O objectivo é garantir o acesso e a partilha. No futuro, pretende-se que o site ainda se torne mais interactivo com a criação de um fórum para os miúdos surdos e com a possibilidade de os jovens puderem comunicar uns com os outros através de língua gestual usando câmaras web.
Este espaço contém ainda recursos e orientações para os pais, profissionais e professores de crianças surdas, em termos de actividades que podem ser realizadas a propósito das histórias.
 
É um projecto inovador, bastante importante para as crianças surdas. Deixo o link da página de entrada do site www.signedstories.com/page/index.cfm  e também de uma das histórias:
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 00:05
Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009

No seguimento do post anterior, e continuando a falar dos alunos da professora Neiva de Aquino Albres, há um outro aluno que também concorreu ao Bibliofilmes 2008 e que, embora não tenha sido o vencedor do primeiro prémio, também merece o nosso destaque.

Este aluno conduz-nos numa visita guiada pela biblioteca da sua escola e mostra-nos um dicionário trilingue em Português, Inglês e Libras. Aproveita para nos dizer que existem poucos materiais em língua gestual. Aqui em Portugal acontece o mesmo. Depois diz-nos como gosta de fazer desenhos a propósito dos livros que lê…
Esta é uma outra actividade possível a propósito da leitura. Permite-nos ver até que ponto o aluno percebeu a história e quais foram as ideias que o marcaram mais. Dá também ao aluno a possibilidade de expressar a sua criatividade e mostrar o seu talento em outras áreas, que não a escrita.
Para além da questão dos desenhos, há a filmagem em si mesma. Esta actividade é bastante motivadora para os alunos e ao mesmo tempo exigente, pois obriga-os a pensar num guião para o vídeo a produzir. Por outro lado, a posterior legendagem permite-lhes treinar a escrita e fazer um exercício de tradução do próprio discurso. É uma escrita significativa, elaborada em contexto. Por fim, o filme permite aos alunos reverem o seu desempenho e fazerem uma auto-avaliação do seu trabalho.
 
Deixo aqui o vídeo, que considero muito interessante.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 00:02
Quarta-feira, 14 de Outubro de 2009

Existem muitas formas de motivar os alunos para a leitura. Tanto os pais como os professores são elementos fundamentais nesse processo, ao se constituírem como mediadores entre a criança e o livro. 

Quero deixar aqui o testemunho de uma professora de Língua Portuguesa (L2), do Instituto Santa Teresinha, de São Paulo, no Brasil. Ela partilha connosco a metodologia que usa para promover o gosto pelos livros junto dos seus alunos:

 
 “Alguns textos ou livros eu leio para os alunos, fazendo a interpretação para Libras, o que chamo de leitura compartilhada. Outros livros, eles mesmos lêem. Acontece assim: Vamos à biblioteca e eles escolhem os livros. Nessa etapa o professor deve ficar atento, pois se o aluno pegar um livro muito difícil para seu nível pode se sentir frustrado. Geralmente é dado um tempo de 3 semanas ou mais e marcamos as datas de apresentações. Eles devem trazer o livro e apresentar o que compreenderam da história, podem passar página por página, ou apenas contar a história. (…)
No período em que estão com o livro em casa, podem tirar dúvidas com o professor e pedir para que os pais leiam com eles. (…) Depois de cada aluno ter lido o seu livro, entramos no processo de apresentação. Geralmente, cada aluno lê um livro por semestre e essa avaliação compõe uma das notas de actividade do diário de classe de Português.
Tenho a prática de filmar as apresentações. Isso serve como um feedback para o aluno, eles gostam muito de se ver…”
                                                                              Neiva de Aquino Albres
                                http://ensinodeportuguesparasurdos.blogspot.com/
 
Alguns alunos da professora Neiva Albres concorreram ao Bibliofilmes 2008, um concurso para países da CPLP (Comunidade Portuguesa de Língua Portuguesa), onde os participantes tinham que contar a sua história e provar o quanto gostavam de ler. Um deles, o Clayton, ganhou o primeiro prémio. Vejam o vídeo:
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 09:24

Dois projectos desenvolvidos por estudantes surdos do ensino secundário de uma escola brasileira foram seleccionados pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica Júnior (BIC-Jr) do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG). Os projectos são inovadores porque, segundo a nossa fonte (Ministério da Educação do Brasil), é a primeira vez que o programa atribui bolsas a surdos.

Mas os projectos são inovadores em si mesmos e de uma pertinência urgente, pois visam a criação de um dicionário técnico e de um manual de estudo para que os alunos surdos possam bem acompanhar as aulas de desenho arquitectónico.
O primeiro objectivo é publicar um glossário para esta área, sistematizando os gestos em LIBRAS correspondentes à terminologia específica do desenho técnico, possibilitando assim a capacitação dos alunos surdos na leitura e realização de projectos de arquitectura. Utilizando as definições criadas no glossário, o segundo projecto pretende então desenvolver um manual bilingue para o ensino e aprendizagem da disciplina.
Não é nenhum ovo de Colombo, a ideia. A necessidade já há muito se faz sentir. E, em esforços isolados, mas consequentes, remando contra a maré da inércia, há quem desenvolva projectos da mesma índole. Veja-se, neste blogue, os textos de Paulo Vaz de Carvalho, Unidade de Investigação do Instituto Jacob R. Pereira, ou de Maria do Céu Gomes, O Projecto Spread the Sign nas Escolas de Referência, que dão conta de trabalho feito e de muita vontade de fazer mais.
Eu digo, como o último Nobel da Paz, nós podemos. E, agora, só para aguçar o apetite, deixo cair aqui a inconfidência de que está em preparação um encontro para organizar uma resposta competente. Fiquem atentos…
 
Fonte da notícia:


publicado por Eduardo Cabral às 09:13
Terça-feira, 13 de Outubro de 2009

Hoje o destaque não vai para um livro, mas para o último número da Revista Diversidades. A Revista da Direcção Regional de Educação Especial e Reabilitação da Madeira (DREER) contempla desta vez a surdez em todas as suas vertentes, numa abordagem bastante completa desta temática.

Entre os colaboradores deste número estão alguns dos autores deste blogue. Agradecemos o convite que nos foi endereçado e louvamos a iniciativa. Passo a referir os artigos incluídos na revista:
 
Surdez: Uma Definição, Várias Perspectivas
Sónia Spínola e Susana Spínola 
 

Língua Gestual Portuguesa e Bilinguismo

Marta Morgado e Mariana Martins

 

O Ensino do Português num Contexto de Educação Bilingue

Maria do Céu Gomes

 

Português como Segunda Língua

Eduardo Cabral

 

Terapia da Fala no Mundo da Surdez

Susana Capitão
 

Direitos Linguísticos, Acessibilidade e Cidadania. Spread the Sign e Profacity.

Orquídea Coelho
 

A Educação de Surdos na RAM (Região Autónoma da Madeira)

Vanda Oliveira
 

APADAM: Um Sonho em Construção!

Alberto Nunes
 

Convivendo com a Surdez…

Rui Pinheiro

 

Surdez: Outra Dimensão da Psicologia

Susana Spínola

 

Aprender… Nunca é demais!

Luís Miguel Moura Costa

 
O desafio que a DREER se coloca é comunicar através de gestos que falam, rumo à descoberta de circunstâncias propiciadoras nas quais todos se tornem protagonistas e interlocutores de um diálogo universal. Penso que esse é um objectivo de todos nós. Deixo aqui a publicação online. Boa leitura!

 

www.madeira-edu.pt/LinkClick.aspx 



publicado por Maria do Céu Gomes às 07:20
Segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

Nestes meus destaques de livros, não poderia deixar de mencionar aquele que marcou de forma determinante o meu envolvimento profissional com a educação de surdos. Estou a falar de “O Grito da Gaivota”, de Emmanuelle Laborit.

Este livro é a biografia de uma surda profunda, desde o berço até à idade adulta. Através do seu testemunho, ficamos a conhecer as experiências que viveu, as barreiras com que se defrontou e o modo como se conseguiu libertar da incomunicabilidade e da falta de expectativas em relação ao futuro. Já muitas pessoas leram este livro e todos sabem as suas passagens de cor. Vou no entanto lembrar algumas:
 
A infância:
 
“Entre os zero e os sete anos, a minha vida está cheia de lacunas. Só tenho recordações visuais. (…) Creio que não havia rigorosamente nada no meu cérebro durante esse período. Futuro, passado, tudo estava na mesma linha de espaço-tempo. A mãe dizia ontem… e eu não sabia onde era ontem. (…) E amanhã também não. (…) O tempo era o momento presente.” (p.19)
 
“Por vezes os meus pais explicam-me que vão sair. Mas compreenderia eu realmente o que significava aquela história de sair? Para mim eles desapareciam, abandonavam-me. Os meus pais saíam e voltavam. Mas iriam regressar? Quando? Eu não tinha a noção do quando. Não tinha palavras para o dizer, não tinha língua, não podia exprimir a minha angústia. Era horrível.” (p. 25)
 
“Quando há visitas olho muito para as suas caras. Observo todos os tiques, todas as manias. Há pessoas que não encaram os interlocutores quando estão à mesa a conversar. Mexem nos talheres. Enrolam o cabelo nos dedos. (…) Não sei exprimir o que sinto. Vejo. Vejo se estão contentes ou se não estão. (…) Tenho olhos para ouvir, mas há um limite. Apercebo-me de que comunicam uns com os outros através da boca e é aí que eu sou diferente.” (p. 28)
 
“Eu havia de “partir”. Tal como o gato. Não me imaginava como adulta, via-me sempre criança (…) E sobretudo achava que era única, só no mundo. Só a Emmanuelle é que é surda, mais ninguém.” (p.36)
 
A ida para o infantário. Integrada com ouvintes.
 
“Um dia fui buscar-te, a professora estava a contar histórias às crianças para elas aprenderem a falar. Tu estavas a um canto, sozinha, sentada a uma mesa sem prestar a menor atenção, a desenhar. Não parecias lá muito feliz.” (p.41)
 
“Quanto àquele infantário, com a sua aula supostamente destinada à integração, esqueci-o por completo. Ou prefiro esquecer”. (p.41)
 
O 1º ciclo. Turma de surdos, mas metodologia oralista.
 
“Na escola ensinaram-me a dizer o meu nome. Emmanuelle. Mas Emmanuelle é de algum modo uma pessoa exterior a mim. Como um duplo.” (p. 49)  
 
“No meu próximo regresso à escola vou fazer sete anos e estou ao nível de um infantário. Mas a minha existência, o universo restrito no qual me movimento, a maior parte do tempo em silêncio, estão prestes a estoirar de uma só vez.” (p. 50)
 
A primeira vez que vai a uma associação de surdos, que vê adultos surdos e que toma contacto com a língua gestual.
 
“Aquilo que eu compreendi de imediato é que não estava só no mundo (…) Eu, que me julgava única e destinada a morrer criança, (…), descubro que tenho um futuro possível, uma vez que Alfredo é adulto e surdo.” (p.53)
 
“Pela primeira vez ensinam-me que se pode dar um nome às pessoas. (…) Percebi enfim que tinha identidade. (…) A Emmanuelle surda não sabia que era “eu” ou “mim”. Compreendeu-o com a língua gestual.” (p.55)
 
A ida a Gallaudet. A consciência da pertença a uma comunidade.
 
“Sou surda não quer dizer: “Não ouço.” Quer dizer: “Compreendi que sou surda.” É uma frase positiva e determinante. Na minha mente, admito que sou surda, compreendo-o, analiso-o, porque me deram uma língua que me permite fazê-lo. Compreendo que os meus pais têm a sua própria língua, a sua maneira de comunicar e que eu tenho a minha. Pertenço a uma comunidade, tenho uma verdadeira identidade.” (p.71)
 
"Agora sei o que fazer. Faço como eles, uma vez que sou surda como eles. Vou estudar, trabalhar, viver, falar, pois eles fazem-no também! Vou ser feliz, pois eles também o são. Porque só vejo pessoas felizes à minha volta, pessoas com futuro. São adultos, têm um emprego; também eu um dia hei-de trabalhar. Tenho pois dons subitamente revelados, capacidades, possibilidades, esperança." (p.72)
 
Mais citações para quê? Este livro é de facto uma bandeira da comunidade surda, indispensável em qualquer biblioteca escolar. Aliás, este livro faz parte das obras recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura para o 8º ano.
 
Bibliografia:
Laborit, Emmanuelle (2000) O Grito da Gaivota. Lisboa: Editorial Caminho.


publicado por Maria do Céu Gomes às 07:07
Domingo, 11 de Outubro de 2009

Este é um outro livro de referência para a comunidade surda. A autora é Marta Morgado, que com esta história pretendeu prestar uma homenagem a todas as crianças surdas, oriundas de países africanos, que deixaram as suas famílias para vir estudar para Portugal.

A acompanhar o livro existe um DVD com a história de Mamadu em LGP e ainda com testemunhos reais de antigos alunos do CED Jacob Rodrigues Pereira, que também passaram por esta experiência: Amílcar Furtado, Abubacar Turé, Jorge Benge, Benvinda Kissanga, Gracelindo Pereira, Helder Duarte e Nelson Sereno, Iruénia Oliveira e Jonas Timas.
 
A história de Mamadu é muito bonita. Ele era um menino surdo que vivia na Guiné-Bissau. Os pais queriam o melhor para ele e procuraram ajuda, mas a ajuda naquele país era muito difícil, pois ninguém sabia o que era ser surdo. Então os pais pediram ajuda ao governo para enviar o filho para Portugal, para que ele tivesse escola. Tudo era difícil, não podiam emigrar juntos. Mamadu só tinha cinco anos, era demasiado novo para se afastar da família, mas alguma coisa tinha de se fazer. Mamadu precisava de aprender coisas, aprender a escrever, mas no país dele não havia uma escola para surdos. Um dia, o presidente daquele país, ofereceu-lhe uma viagem de avião. Os pais ficaram felizes, havia esperança para o seu filho e mais tarde ele poderia voltar para o seu país. Também ficaram tristes, porque o filho ia partir para longe deles. Mamadu ficou triste por se afastar da família, queria o colo da mãe. Mas logo recuperou a felicidade quando chegou à escola de meninos surdos. Sempre que chegava um menino ou uma menina nova, todos os meninos surdos reuniam-se à sua volta, faziam muitas perguntas e depois convidavam-no a brincar. E foi assim que aconteceu com Mamadu. Viveu naquela escola com outras crianças surdas que também, ou não tinham pais, ou cujas famílias estavam longe. Ele tinha um sonho, voltar para a sua terra natal e ser professor de surdos, para que as outras crianças não fossem obrigadas a ficar longe dos seus pais e dos seus irmãos. E assim aconteceu… 
 
Este é apenas um resumo. Leiam a história na íntegra e façam-na chegar aos alunos surdos.
 
Bibliografia:
Morgado, Marta (2007) Mamadu, O Heroi Surdo. Lisboa: Surd'Universo. 
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 08:36
Sábado, 10 de Outubro de 2009

«-Nos surdos, há os surdos que falam e os surdos que não falam. Nos surdos que falam, há os surdos que falam e gestuam e os surdos que falam mas não gestuam. Nos surdos que não falam, há os surdos que não falam mas gestuam e os surdos que não falam nem gestuam. e depois, nos surdos que falam, há os surdos que falam e que escrevem e o surdos que falam mas que não escrevem. E nos surdos que não falam, há os surdos que não falam mas que escrevem e os surdos que não falam nem escrevem. Portanto, nos surdos que falam mas que não gestuam, há os surdos que falam mas não gestuam e os surdos que falam mas não gestuam e escrevem e os surdos que falam mas não gestuam nem escrevem. E portanto, nos surdos que falam e gestuam, há os surdos que falam, gestuam e escrevem e os surdos que falam, gestuam mas não escrevem. E ainda, nos surdos, há os surdos que ouvem alguma coisa e os surdos que não ouvem nada. E portanto, como consequência, nos surdos...

-Bolas, onde é que eu estava?
-Amanhã volto para os indígenas!
- Credo! Que tribo!» 
 
É este o nosso olhar sobre o mundo deles. Particularmente interessado, mas ainda tão distante. Que a surdez não é um drama, diz-nos a capacidade que têm de rir de si mesmos – e não é esse o verdadeiro sentido de humor?
Também riem de nós, nem pensem que escapamos, se não leiam esta: «Os ouvintes esquecem facilmente que os surdos não ouvem. A estes negligentes chamamos ouvintes profundos.». Leiam o livro todo.
 
Eu ia a correr comprar (se não o tivesse já):
RENARD, Marc & LAPALU, Yves: Surdos, 100 Piadas, Lisboa, Surd’Universo, 2009.

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publicado por Eduardo Cabral às 11:44

No seguimento do post anterior, quero falar hoje de um dos livros mais usados pelos docentes de LGP nas suas aulas. Estou a referir-me à banda desenhada, “Léo, o Puto Surdo”, um dos livros que, na minha opinião, devia fazer parte das bibliotecas escolares das Escolas de Referência.

Nesta banda desenhada, o autor, que nasceu surdo, dá a conhecer, com uma terna ironia, a vida real de uma criança surda. Léo é um herói positivo que resolve todos os seus problemas com humor, ensinando-nos que o melhor remédio para a surdez é sorrir dela. O livro ilustra uma série de dificuldades vivenciadas pelos surdos em geral. Destacamos aqui algumas:
 
Barulhos
O isolamento dos ruídos é um dos raros privilégios dos surdos, especialmente quando estão a dormir. No entanto, há outras situações em que isso se torna perigoso, nomeadamente o facto de eles não conseguirem percepcionar os perigos da rua. Léo vê-se envolvido em situações caricatas e tenta arranjar soluções para o problema.
 
Ajudas Técnicas
Para acordar, um surdo pode ter um despertador que vibra ou luz intermitente. Léo prefere dormir sossegado e destrói o seu despertador que é um dos que vibra. Às vezes, o silêncio faz jeito. Também as campainhas luminosas o irritam. Podia estar sossegado a brincar e com o sistema luminoso tem que estar sempre a interromper as suas brincadeiras para ir abrir a porta. Decide desligar a campainha. Consequência: o pai tem que entrar pelo telhado.
 
Audição
É retratado o sentimento contraditório que muitos surdos desenvolvem em relação aos aparelhos auditivos. Por um lado, compreendem a sua utilidade e por outro, desejam rebentá-los, por serem desconfortáveis, cansativos e incomodativos.
 
Casa de Banho
Esta situação leva-nos a um problema mais íntimo: como falar com um surdo fechado na casa de banho? Muitos, sobretudo os que têm crianças pequenas, não põem fechaduras nas portas, dando azo por vezes a surpresas desagradáveis.
 
Cegos e Surdos
Os cegos, que vivem num mundo onde o som é a principal ligação com o mundo, possuem uma forma de estar oposta à dos surdos. Falam depressa, baixinho, sem olhar para o interlocutor, articulam pouco e ignoram as expressões faciais. É uma atitude compreensível em virtude da sua cegueira, fazendo com que a comunicação entre surdos e cegos seja muito difícil.
 
Comunicação à distância
A internet foi uma revolução para os surdos, tal como os telemóveis. A ânsia de comunicação eterniza os diálogos e os chats.
  
Desportos
Os surdos têm algumas dificuldades em participar em competições com ouvintes, quando estas incluem avisos sonoros, estando sempre a esbarrar na barreira comunicativa. Por este motivo, a comunidade surda desenvolveu os seus próprios Surdolímpicos.
 
Língua Gestual
A comunicação em língua gestual exige uma grande atenção visual, que por vezes pode colocar os interlocutores, inconscientemente, em situações de perigo iminente. Isso pode acontecer quando dois surdos vão a atravessar a rua a gestualizar. Vão tão concentrados na sua comunicação que, muitas vezes, nem se apercebem dos perigos.
Os surdos são das pessoas mais tagarelas que existem, precisando para tal das duas mãos e de luz. Um amigo de Léo vai dormir em sua casa e os dois fazem trinta por uma linha para continuarem a conversar pela noite fora. A mãe de Léo acha que são horas de dormir, mas eles têm outros planos…
 
Muitas mais aventuras haveria para contar, mas o post já vai longo. O melhor é ler o livro. Ele mostra como as crianças surdas possuem características diferentes das ouvintes e como isso as faz ter uma identidade própria. As suas vivências no dia-a-dia, em família e na escola, são marcadas por uma forma particular de apreender o mundo e de comunicar.
 
Bibliografia:
Lapalu, Yves (2006) Léo, o Puto Surdo. Lisboa: Surd'Universo. 
 
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 11:23
Sexta-feira, 09 de Outubro de 2009

Outubro é o Mês Internacional da Biblioteca Escolar, este ano subordinado ao tema “School Libraries: The Big Picture”. Durante este mês, as bibliotecas escolares têm por norma organizar um conjunto de actividades, envolvendo toda a escola e a comunidade em que esta se insere, de modo a motivar todos para a importância da leitura.

As bibliotecas estão cada vez mais bem organizadas e mais dinâmicas. Este ano, houve pela primeira vez em Portugal, um concurso para bibliotecários. É objectivo das escolas assegurar um serviço com cada vez mais qualidade para os seus alunos, daí o investimento na compra de novos livros e na dinamização de vários projectos.
O professor de Língua Portuguesa tem um papel bastante importante na promoção do interesse pela leitura, nomeadamente na domiciliária, pois esse é um serviço prestado por todas as bibliotecas escolares. É bom que os alunos se habituem a levar livros para casa, de modo a adquirirem o gosto e o interesse pelo texto escrito. Também existem sites na internet com histórias www.historiadodia.pt/pt/index.aspx  e livros digitais e-livros.clube-de-leituras.pt/. Existem ainda as bibliotecas online domínio público http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/PesquisaObraForm.jsp  e a biblioteca digital mundial da Unesco http://www.wdl.org/pt/, que nos permitem fazer download de várias obras. Todas as formas de acesso à leitura devem ser incentivadas pelo professor de Língua Portuguesa. É aconselhável que os alunos leiam livros por prazer e não apenas porque fazem parte do programa escolar.
Em toda esta dinâmica não podem ser esquecidos os alunos surdos, especialmente nas escolas consideradas de referência para a educação bilingue destes alunos. Existem já bastantes livros em Língua Portuguesa que versam sobre as vivências das crianças, jovens e adultos surdos. É importante que as bibliotecas escolares os adquiram e os divulguem, quer aos alunos surdos, quer aos alunos ouvintes. Inerente ao bilinguismo está o biculturalismo, e os livros são um dos artefactos culturais mais expressivos da identidade e cultura de uma comunidade.
Também é importante a dinamização de actividades envolvendo alunos surdos e ouvintes. Uns podem contar histórias aos outros, com a presença de um intérprete servindo de mediador. Os docentes de LGP podem imaginar jogos e passatempos a propósito de um determinado livro que caracterize bem o que é “Ser Surdo”. Há muitas iniciativas que se podem desenvolver. Só é preciso ter um pouco de imaginação.
É crucial lembrar aos coordenadores das bibliotecas que existem alunos surdos dentro das respectivas escolas e que estes não podem ser esquecidos nestas comemorações. A escola inclusiva é isso, é abranger todos sem excluir ninguém. É valorizar a expressão cultural de todas as comunidades.
 
A Rede de Bibliotecas Escolares decidiu que a última segunda-feira do mês de Outubro será o dia em que as actividades a realizar encontrarão a sua principal expressão. O dia 26 de Outubro será, por excelência, o Dia das Bibliotecas Escolares em Portugal. Esperamos que seja um grande dia, comemorado por todos e envolvendo todos, sem excepção!

 



publicado por Maria do Céu Gomes às 19:35
Quinta-feira, 08 de Outubro de 2009
Nas eleições do próximo Domingo, 11 de Outubro, o CERTIC juntamente com a colaboração do NAERA pretende testar duas novas soluções para pessoas com deficiência. Para esse efeito iremos convidar os eleitores a simular o acto de voto em situação de incapacidade, depois de já terem exercido o seu voto. Em princípio a experiência será na freguesia de Nossa Senhora da Conceição, na Escola EB1 N.º 2 de Vila Real (Bairro S. Vicente de Paula). 
 

A primeira solução destina-se principalmente a pessoas com deficiência motora ou com pouca destreza que não consigam marcar o voto manualmente. Para esse efeito desenvolvermos uma aplicação informática algo semelhante à utilizada na Eslovénia nas passadas eleições europeias - o TOPVOT (http://www.topvoter.com/ ). Neste caso o voto será impresso numa vulgar impressora, com uma cruz desenhada manualmente e posteriormente digitalizada. O sistema também pode ser usado por pessoas cegas, com baixa visão ou analfabetos pois possui voz e a interacção é feita tocando em apenas dois botões ou teclas (uma tecla/botão vai avançando na lista dos partidos e a outra selecciona).

 

A segunda solução, muito simples, destina-se a pessoas com deficiência visual e inspira-se numa experiência realizada nos EUA com material não electrónico. Trata-se do Vote-PAD: Voting-on-Paper Assistive Device (http://www.vote-pad.us). Neste caso teremos uma matriz transparente que é colocada por cima do boletim de voto e que possui apenas uns pinos ou bolas ao lado de recortes coincidentes com as quadrículas do boletim de voto. A informação sobre a ordem dos partidos no boletim (que será contada tacteando os pinos ou bolas) pode ser fornecida com um vulgar gravador de áudio ou leitor de CDs, com texto ampliado ou em Braille.

 

Junto em anexo fotografias dos dois sistemas.

 

 



publicado por David Fonseca às 14:24
Quarta-feira, 07 de Outubro de 2009

 

O meu nome é David Fonseca, sou finalista do pioneiro Curso a nível Europeu de Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade Humana, na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, assim como sou também fundador e actual Presidente do NAERA – Núcleo de Alunos de Engenharia e Reabilitação e Acessibilidade Humana da mesma Universidade.

 

O meu percurso académico iniciou-se através da frequência do Curso de Engenharia Informática, onde encontrei diversos entraves e barreiras de aprendizagem como pessoa Surda. A falha de comunicação, falta de intérpretes de Língua Gestual, professores mal preparados para as pessoas Surdas foram alguns dos meus problemas. Estes factos, conjugados com o real interesse pela área em que estou inserido, fizeram-me optar pelo curso que actualmente frequento.

 

A Engenharia de Reabilitação é a profissão ou actividade orientada para aplicação da ciência e da tecnologia na melhoria da qualidade de vida de populações com necessidades especiais, nomeadamente, pessoas com deficiência, idosos e acamados em áreas abrangentes como o acesso a tecnologias e serviços conexos, educação, emprego, saúde e reabilitação funcional, transportes, vida independente e recreação.

 

É neste contexto que, no ano de 2003, começam a surgir as primeiras linhas orientadoras que viriam a dar lugar à formação da primeira Licenciatura Europeia em Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade Humanas. Esta iniciativa pioneira vem de encontro ao que já havia sido desenvolvido noutras partes do mundo, mas que ainda não havia sido concretizada numa Licenciatura.

 

Concluído o Curso, os futuros Engenheiros de Reabilitação têm como principal objectivo demonstrar o impacto de mudar a sociedade, tal como: encontrar e desenhar soluções específicas e à medida para os mais diversos problemas funcionais de pessoas com deficiência; promover a acessibilidade integral na sociedade a todos, incluindo aqueles que têm necessidades especiais; contribuir para a criação e desenvolvimento de instrumentos e tecnologias que facilitem, optimizem e prolonguem a funcionalidade de pessoas com deficiência, estimulando também a criatividade na área tecnológica e de design; fomentar a partilha de conhecimento especializado e de experiências entre profissionais e pessoas com necessidades especiais.

 

As Pessoas Surdas viram-se constrangidas a viver à margem no quotidiano. Tinham a barreira da comunicação e não lhes era permitido visitar museus, consultar o médico ou serem recebidas nos serviços públicos. As barreiras que se interpunham entre elas e estes serviços e bens eram de tal forma condicionadoras do seu estatuto de cidadania.

 

O recurso às novas tecnologias para os Surdos é fundamental. Recuando no tempo, a tecnologia utilizada para o auxílio do Surdo não há muitos anos, resumia-se ao”pager”, um dispositivo no qual o surdo podia receber uma determinada mensagem escrita no seu receptor. O Telefone de Texto, que ainda hoje se encontra actual, permitia que quem possuísse dois desses equipamentos pudesse comunicar, tal e qual como através de um chat na internet. Nos dias de hoje, existe um maior leque de opções para o Surdo, bem como a preocupação de promover o aparecimento de tecnologias de apoio economicamente mais acessíveis a todos, assim como avaliar proactivamente o impacto de tecnologias emergentes.

 

Actualmente existe já uma ampla rede de novas tecnologias de apoio ao Surdo que já são utilizadas um pouco por todo o mundo, através da tecnologia 3G, que possibilita juntar num só aparelho texto, voz, internet, Messenger, e-mail, vídeo-conferência e SMS. Esta tecnologia permite que os surdos possam comunicar através da LG (Língua Gestual).

 

Agora é possível que em qualquer parte do país ou do mundo, dois surdos possam comunicar sem ter que pedir ajuda a ninguém, o que por vezes nem sempre é possível…

 

De facto, até mesmo quem mais deveria dar o exemplo, demonstra falhas inconcebíveis, uma vez que o governo e as entidades reguladoras deixam passar em claro situações como a falta de tradução de LGP (Língua Gestual Portuguesa) nos telejornais da estação pública e legendas em todos os programas. Não nos podemos limitar a tentar ler nos lábios…

 

É por isso de extrema importância influenciar os serviços do Estado e o sector económico para a necessidade de criar produtos, tecnologias, serviços e ambientes sem barreiras para pessoas com actividade limitada.

 

Os obstáculos e barreiras que encontramos diariamente são uma constante, por isso, devemos sensibilizar todos os seres-humanos para pensarem um pouco, porque, como muita gente diz, “mais vale prevenir do que remediar…” e não podemos voltar atrás pois a vida só tem um sentido! Por isso a acessibilidade deve ser OBRIGATORIA em todas as áreas.

 

Obrigado pela vossa atenção,

 

 

David Fonseca

 

Em baixo estão os videos da Comunicação:

 

 

 

 

 



publicado por David Fonseca às 15:23
Terça-feira, 06 de Outubro de 2009

 
No IV Congresso Nacional de Surdos, foi lembrada a proeza de alguns atletas portugueses que ganharam medalhas nos Surdolímpicos. É de facto importante valorizar estas conquistas, por isso aqui estamos a divulgar este feito.
 
Tal como já referimos num post anterior, os Surdolímpicos realizaram-se em Taipé, de 5 a 15 de Setembro. Nestes jogos participaram 15 atletas portugueses, em oito modalidades diferentes. Foram obtidas quatro medalhas para o nosso país.
 
Hugo Passos
É de Lisboa e tem 30 anos. Conquistou uma medalha de ouro, ao vencer a prova de luta greco-romana na categoria de 66 kg. Com esta vitória sagrou-se tricampeão nesta modalidade. Ganhou também uma medalha de bronze na modalidade de luta livre.
 
Joana Santos
É de Faro e tem 19 anos. Conquistou uma medalha de ouro, ao vencer a prova de judo na categoria de 57-63 kg. Com esta vitória, sagrou-se campeã mundial.
 
Hélder Gomes
É da Marinha Grande, tem 27 anos e é vice-campeão mundial de taekwondo. Conquistou a medalha de bronze na categoria de 68-80 kg, ao derrotar o russo Kirill Alexandrovich Rapetov.
 
Em Taipé, Portugal superou as antigas participações em Surdolímpicos, pois em edições anteriores tinha conseguido apenas uma medalha. Os nossos atletas surdos estão de parabéns. Viva Portugal!
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 22:13
Segunda-feira, 05 de Outubro de 2009

Ninguém tem dúvidas de que uma das principais premissas para o sucesso de um projecto bilingue é o domínio da língua gestual, quer por parte dos pais das crianças surdas, quer por parte dos docentes que trabalham nas escolas. Sem esta base, todas as medidas anunciadas, por mais bem intencionadas que sejam, acabam por cair por terra.

O desenvolvimento linguístico começa em casa, no seio da família. É através da comunicação que se dá o primeiro contacto com o mundo, atribuindo-lhe significado. Se não existir um código linguístico comum com as pessoas mais próximas, a criança surda inicia um percurso de alheamento em relação à realidade existente, a aquisição da linguagem fica comprometida e o desenvolvimento cognitivo acaba por ser também afectado. A intervenção precoce junto da família é pois crucial.

Mais tarde, ao entrar para a escola, a criança surda precisa do apoio de profissionais competentes em língua gestual para que o desenvolvimento linguístico se processe de forma adequada. Na maior parte das vezes, é nesse contexto, que ela vai contactar pela primeira vez com a LGP e tentar recuperar o tempo perdido.
 
Que condições são dadas aos pais e aos professores para aprender a LGP?
 
Muitos pais ainda continuam votados ao abandono, perdidos na procura de orientação e respostas. A intervenção precoce junto das crianças e suas famílias já está a dar os primeiros passos, mas devagar. Os professores necessitam de formação contínua e aprofundada em LGP, mas às vezes  também não a encontram, nem nas escolas nem nos Centros de Formação.
 
Assim, o que se constata é que, um grande número de pais e de professores, se quiserem obter formação em LGP, ainda têm que a pagar do próprio bolso junto das associações de surdos.
 
Quanto custa tirar um Curso de LGP na Associação de Surdos do Porto?
                                                   Nível Inicial
                              Iniciação                          Elementar
                             160 euros                           170 euros                                                                
                                                   Nível Intermédio 
                              Limiar                                      Vantagem
                              330 euros                                    350 euros
 
Para nos inscrevermos nestes cursos temos de pagar uma taxa de 50 euros (1ª inscrição) e de 25 euros, sempre que passarmos para os níveis seguintes. Se o pagamento não for efectuado a pronto e optarmos pelo pagamento em 3 meses, o curso sofre um agravamento de mais 30 euros.
 
Quem já tiver conhecimentos de LGP poderá solicitar uma avaliação e de acordo com os conhecimentos demonstrados, ingressar directamente no nível considerado adequado, mas para isso terá de pagar uma outra taxa de 50 euros!
 
No caso de um professor só desejar uma avaliação das suas competências, terá que pagar diferentes taxas pelo certificado, consoante o nível em que se encontre:
 
Sub-nível A1 – 50 euros
Sub-nível A2 – 75 euros
Sub-nível B1 – 100 euros
Sub-nível B2 – 150 euros
 
Os certificados para os níveis mais avançados custam quase tanto como um curso de 60 horas, do nível inicial.
 
Quanto custa tirar um Curso de LGP na Associação Portuguesa de Surdos?
 
No site desta associação, não há informação quanto aos custos de uma certificação de competências para os professores ouvintes. A forma como estão organizados os cursos de LGP é diferente. Há uma divisão entre preços para sócios e não sócios. Estes últimos pagam 50 euros de taxa de inscrição, enquanto os outros estão isentos.
 
A ASP cobra 25 euros para avaliar o nível em que nos encontramos e nos colocar no curso adequado, metade do valor da ASP. Não sabemos os preços dos cursos mais avançados. Os outros aparecem concentrados em dois grandes grupos e os valores são os seguintes:
 
                              Estudos Básicos      Estudos Intermédios
Sócio                         440 euros                  560 euros
Não Sócio                 480 euros                  600 euros
 
As condições de pagamento e de reembolso são diferentes nas duas associações, mas em ambas, os cursos de LGP são bastante caros. Eu sei que as associações de surdos se debatem com a falta de subsídios governamentais e precisam de fontes de rendimento para sobreviver. Mas então, alguma coisa tem que ser feita. Na Suécia, o Estado oferece aos pais um curso de língua gestual de 250 horas, porque considera que esse é um direito que lhes assiste. Porque é que não é feito o mesmo em Portugal? Se o Estado comparticipasse estes cursos a 100%, os pais poderiam frequentá-los a custo zero.
 
A formação em Língua Gestual nas escolas também deve ser um direito dos professores. Algumas escolas fazem essa formação, outras não. Se queremos bons profissionais, devemos dar-lhes condições para tal, garantir que tenham acesso a conhecimentos que são essenciais. Também aqui deviam existir protocolos com as associações de surdos.
 
A vantagem de uma formação presencial é que há o contacto directo com adultos surdos, existindo interacção comunicativa permanente. Mas com estes preços e sem apoios é difícil para muitos pais e professores. Acabam por optar por formas mais acessíveis de formação, através de DVDs www.linguagestual.com/ ou então através de dicionários on-line de acesso gratuito http://www.spreadthesign.com/country/pt/.
 
A ida às associações de surdos é bastante importante, especialmente para os pais, que necessitam de modelos surdos, de alguém que lhes explique o que é a surdez e a identidade surda. O contacto com adultos surdos permite-lhes encarar com mais optimismo o futuro dos seus filhos.
 
É responsabilidade do Estado, das escolas e das próprias associações de surdos favorecer esta aproximação. Todos devem trabalhar em articulação e com um mesmo objectivo.
 
Há cursos da ASP  d91601.tinf28.tuganet.info/artigo.asp e da Associação Portuguesa de Surdos www.apsurdos.pt/ a começar agora em Outubro. Consultem os sites.

 



publicado por Maria do Céu Gomes às 20:14
Domingo, 04 de Outubro de 2009

“Temos que levantar os Surdos e defender a nossa língua”

 

Há pessoas que marcam a diferença e que conseguem, através da força do seu discurso, mobilizar esforços e sinergias e levar projectos para a frente. É sem dúvida o caso de Helder Duarte, uma figura carismática, que marcou e continua a marcar o percurso e as conquistas da comunidade surda.

 

 
Quando o Helder começa a discursar é impossível ficar indiferente à sua mensagem. Foi o que aconteceu mais uma vez neste IV Congresso Nacional de Surdos. Entre disputas de poder e querelas que só dividem a comunidade surda e não levam a lado nenhum, surgiu uma voz que pediu a unidade, a defesa dos valores essenciais, a valorização dos esforços e das conquistas alcançadas pelos surdos.
 
Helder Duarte lembrou a necessidade de todos se unirem em prol de um objectivo comum, a defesa da língua gestual. Segundo ele, não faz sentido o discurso de alguns, de desvalorização da sua própria língua em favor da língua nacional. Porque é que a alguns surdos incomoda o facto de se considerar a LGP a 1ª língua dos Surdos? É uma língua genuína, com uma gramática própria, a língua por cujo reconhecimento as associações de surdos tanto lutaram. E agora, que importantes passos foram dados, só se fala na importância do Português, no medo das crianças surdas passarem a escrever pior só porque esta língua tem o estatuto de segunda. Na mesma linha de pensamento de Paula Estanqueiro, Helder Duarte, diz que não faz sentido olhar para trás. Há várias comunidades, com a sua própria língua e a sua própria cultura. Todas têm valor, ninguém se deve considerar inferior a outras culturas, só porque as outras são maioritárias. É preciso ser consistente e coerente com aquilo que se quer. Caso contrário, em vez de levantarmos a comunidade surda, estamos a levá-la à extinção, como referiu Marta Morgado. Se não são os surdos a defender o valor da sua língua, quem o fará?
 
O Helder sugeriu a criação de um Conselho Nacional, o qual funcionaria como a voz da comunidade surda na luta pelos interesses dos surdos junto do governo. Seria uma só voz e não várias vozes, o que daria mais força às suas reivindicações. Sugeriu ainda a criação de uma Fundação que apoiasse unidades de investigação sobre a Língua Gestual e a cultura surda, que desse apoio aos atletas surdos… E a este propósito lembrou os atletas surdos portugueses que foram aos Surdolímpicos (Deaflympics), que obtiveram bons resultados e que ninguém valorizou. Se a comunidade surda não os valoriza, quem o fará? Os ouvintes? A comunidade surda tem de estar atenta ao que de bom se faz, às conquistas alcançadas, premiar aqueles que se destacam, tomá-los como modelos…
 
Foi uma mensagem de alerta, apelando à acção e à mudança de atitudes. E ninguém melhor do que o Helder para o fazer. Foi devido ao seu empenho que os surdos conseguiram o reconhecimento oficial da LGP em 1997, que em 1998 se publicou o Despacho 7520 (primeira legislação a referir a importância da educação bilingue) e que se reconheceu a profissão de intérprete de LGP em 1999. Foi também ele o grande defensor do sistema de teletexto e legendagem para as televisões generalistas e do aparecimento de intérpretes na TV em Portugal. Foi o líder do desporto da comunidade surda portuguesa e quem, pela primeira vez, levou a equipa portuguesa aos Surdolímpicos na Bulgária em 1993.
 
Aos 27 anos, já era presidente da Associação Portuguesa de Surdos, cargo que manteve durante 5 anos. Mais tarde, foi presidente da Liga Portuguesa de Desporto para Surdos e Secretário-Geral da European Deaf Sports Organization (Organização Europeia de Desporto para Surdos.
 
O Helder esteve presente em todos os momentos importantes, congregando esforços e apelando à luta e à união entre todos. Depois afastou-se. Ontem, no Congresso, alguém disse: “O Helder voltou!” É bom que volte e que os outros surdos compreendam a importância e a urgência da sua mensagem.


publicado por Maria do Céu Gomes às 10:42

Acabo de perceber que vlogging é vídeo blogging e que um vlog é um blogue de vídeo. É assim o vlog de Charles Katz, Travels with ChaRly.

Não é mais um blogue com filmes das férias. Não, o americano veio em 1992 à Europa de câmara super 8 em punho e registou a passagem por lugares «sagrados dos surdos».
O autor, que vive na Califórnia e é professor de estudos surdos e artista de ASL, leva-nos aos centros da polémica que sustentaram Heinike e L’Épée no século XVIII, as Escolas de Leipzig e de Paris.
Num dos posts, Katz introduz Guy Bouchauveau, surdo francês, que, em frente à escola da Rue de Saint Jacques, nos fala de L’Épée, Sicard e Bébien, dos professores surdos Clerc, Massieu e Bérthier, dos banquetes dos surdos, do congresso de Milão…
O melhor é verem o vídeo. É muito acessível, é apresentado em três línguas visuais: ASL, LSF e inglês… escrito.
 
 
O autor tem outra página, onde desenvolve uma gigantesca saga, «The Deaf Child, A Mythology of the Deaf Experience»: http://blog.deafread.com/thedeafchild/. A pedir a visita dos mais curiosos.
 


publicado por Eduardo Cabral às 10:07
Sábado, 03 de Outubro de 2009

Marta Morgado, outra das vozes surdas com o discurso mais articulado no presente, abriu a primeira mesa da tarde.

A identidade surda não existe sozinha, precisa de uma comunidade e da transmissão de uma língua e uma cultura, um modo diferente de viver a vida, disse. Só é possível construir uma identidade surda quando há participação de uma comunidade, um contexto de transmissão. É o que faz a influência da escola, o lugar onde há maior acesso à língua, onde os surdos podem estar juntos, desde que a língua foi reconhecida e reconhecida a importância de aprendê-la. «Assim cresce a nossa identidade.»
Os surdos são todos diferentes e a identidade surda está a enfraquecer na nova geração. Teoricamente, o bilinguismo, com a LGP como L1 e o Português como L2, é a resposta perfeita. Mas agora há muitos surdos em integração ou em grupos muito pequenos nas escolas regulares e, por isso, os modelos de identificação cultural e linguísticos estão menos disponíveis.
O estudo que Marta Morgado fez comparou duas escolas, a escola alfa, com duzentos surdos, vinte adultos surdos, dos quais dez são docentes, e a escola beta, com 30 alunos, muitos deles em turmas de ouvintes e três adultos surdos. Considerando o orgulho surdo o máximo da identidade surda e o mínimo a vergonha de ser surdo («Eu ouço bem, eu falo bem!»), não é difícil perceber as diferenças nos resultados do inquérito efectuado aos alunos de alfa e beta. A exposição impunha gráficos polares e de barras, como é próprio de estudos sérios como este, mas que não cabem aqui no blogue. Deixo-vos as conclusões. Para a criança surda ser feliz é importante que tenha contacto com muitos surdos, da sua idade e adultos, modelos de linguagem e de cultura. O ouvinte pode interiorizar a língua e a cultura, mas nunca a identidade.
Infelizmente, as perspectivas da Marta Morgado são pessimistas e, antevendo o futuro, prometeu para Novembro uma comunicação sobre a comunidade surda em extinção. Oxalá a comunidade possa dizer, como disse Mark Twain, «as notícias sobre a minha morte foram claramente exageradas». Por muitos anos. Porquê?
 
Porque depois falou o Hélder Duarte. Foi quando o projecto de escrever este post até ao fim se desmoronou. Simplesmente não era mais possível ficar a escutar a tradução oral da intérprete (muito boa, diga-se) e escrever. É que a performance comunicativa do Hélder não deixa ninguém baixar os olhos para o papel, tomar notas. De que falou o Hélder? De orgulho e futuro. O Hélder já lá está! Disseram que o Hélder voltou, eu vejo que ele está em tudo o que mexe. Mexe, Hélder, mexe, que a comunidade não fenece.
 
Nota:
A segunda mesa da tarde, «A FPAS como centro do movimento associativo», teve um cariz que não coincide nos assuntos que mais interessam ao blogue. Mas o debate foi animado. Da última mesa do dia, «Pessoa Surda e as Novas Tecnologias», esperamos o contributo de outro autor para vir a dar conta do ali dito. Noutro dia, que supomos próximo. Agora, que é noite, decorre o Espectáculo da Grupo de Teatro Amador de Surdos da ASPorto, «Nascemos da Água e à Água Voltaremos». Amanhã o blogue não vai, mas pediu relato a mão amiga.


publicado por Eduardo Cabral às 21:55

A segunda mesa do Congresso debruçou-se sobre a questão do Ensino Superior. A primeira oradora, Cláudia Gil, aluna da Licenciatura em LGP da ESE de Coimbra, deu conta de um inquérito realizado a nível nacional a alunos do ensino secundário e do ensino superior. Um dado relevante deste inquérito é o facto de mostrar que a maioria dos alunos surdos termina o secundário muito tarde, por volta dos 23 anos. Segundo Cláudia Gil, este atraso em termos etários deve-se ao facto de muitos surdos já entrarem tardiamente para o primeiro ciclo e na maior parte das vezes, sem uma língua adquirida. Por vezes a escola em que ingressam também não é facilitadora da aquisição dessa  aprendizagem. E o aluno surdo vai acumulando dificuldades, vai fazendo um ano em dois anos. Depois é o que se vê. Com 23 anos, os alunos ouvintes já estão há imenso tempo na faculdade e os surdos ainda andam no secundário.

Seguidamente, esta oradora fez referência à actual situação nas universidades portuguesas. E aqui foi esquecida a mudança ocorrida na Universidade do Porto. Segunda a oradora, os surdos não têm direito a intérprete em nenhuma universidade do país, excepto em Coimbra. Lembrei, já no espaço de debate, que actualmente os surdos já podem usufruir deste serviço na UP, bem como outras condições de apoio.
Foi referida a falta de apoios, materiais e tutorias nas universidades em geral e ainda o facto de os professores exigirem apenas trabalhos escritos, esquecendo que os surdos apresentam bastantes dificuldades no português. Outro problema é o facto de, muitas vezes, os professores anunciarem as datas dos exames oralmente e essa informação escapar aos surdos, que acabam por ser apanhados de surpresa e ficar prejudicados.
Foi ainda feita referência a Gallaudet, a única universidade do mundo para alunos surdos e onde aparentemente tudo funciona bem. Existem variados cursos e uma grande possibilidade de escolha para os estudantes surdos. Os professores e os funcionários dominam a língua gestual, sem necessidade de intérprete. E aqui surgiu a questão do papel dos intérpretes no ensino superior. Será que é importante a sua existência ou será que o ideal é o que se passa na América? O professor tem a obrigatoriedade de aprender língua gestual porque assim a comunicação com os alunos é mais directa. O intérprete é útil enquanto o professor não efectua essa aprendizagem.No espaço de debate, foi referido que os intérpretes que exercem funções no ensino superior são importantes, mas que deviam especializar-se em diferentes áreas, para que o seu trabalho tivesse uma maior qualidade.
O segundo orador, Telmo Fernandes, reforçou as ideias anteriores, ou seja, a necessidade de todas as universidades portuguesas criarem condições promotoras do sucesso dos alunos surdos.


publicado por Maria do Céu Gomes às 15:06

Mais de duzentos participantes assistiram no início da manhã à abertura do IV Congresso Nacional de Surdos. Armando Baltazar, presidente do Congresso abriu a sessão e abriu as questões que se colocam para o futuro da comunidade. Os discursos das entidades oficiais convidadas antecederam a primeira mesa do dia, dedicada à reflexão sobre as escolas de referência.

 

Ângelo Costa, presidente da direcção da Associação de Surdos do Porto, e a falar nessa qualidade, começou a sua comunicação caracterizando os objectivos definidos para a educação dos surdos no Decreto-Lei n.º 3/2008. No seu entender, a Lei é positiva no papel, mas a ASP tem dúvidas se, na prática, as coisas correm como deviam.
Onde está o direito de escolha dos surdos? Se no Porto há escola de referência, como é com os surdos de Bragança? A igualdade não existe. O surdos têm que ir para a escola de referência, porque na escola normal não têm direitos. Os seus programas educativos individuais procuram que os alunos atinjam uma educação igual? Para a ASP o que existe é facilitismo.
Criticou também esta forma de bilinguismo, por supor que ocasionará o desleixo pelo português, entendido como segunda língua. Os surdos continuam a não saber português.
Os professores das escolas de referência estarão preparados? - perguntou, estranhando que nenhum professor se tenha apresentado na ASP para avaliação de competências.
As escolas possuem materiais e equipamentos? Na sua opinião, eles são poucos ou inexistentes. Referiu também a falta de colaboração e desenvolvimento de acções com a ASP. Por fim, criticou os critérios dos concursos de escola para colocação dos técnicos especializados, lamentando que não considerem os estágios feitos na associação.
Terminou lembrando que o seu objectivo é a procura da efectiva melhoria das escolas de referência e que a polémica inclusão/exclusão vai continuar presente.
 
Paula Estanqueiro, da ULGP da Associação Portuguesa de Surdos, assim o disse, partiu de um ponto de vista diferente.
Questionou o que se entende por inclusão. Neste congresso, há surdos e ouvintes e há inclusão porque todos temos acesso à comunicação. A sociedade é dos ouvintes? Não, a sociedade somos todos nós.
O que é importante para o futuro, aquilo por que vale a pena lutar, em vez de ficarmos a olhar para o que está mal, a olhar para o passado?
O que queremos? Inclusão, inclusão verdadeira. As escolas de referência são uma luz bem acesa, a brilhar. As escolas de referência têm que estar em consonância com a comunidade surda, têm que lutar por uma educação de qualidade, ao mesmo nível dos outros alunos. Porque a criança surda tem esse direito. Tem direito a ter comunicação acessível na família, modelos surdos à sua volta. Na escola, precisa de uma turma de surdos. Isso é que é a verdadeira inclusão. Em escolas com alunos ouvintes, mas sem que a educação dos surdos, a sua aprendizagem, seja prejudicada. O respeito pela Língua Gestual precisa de ser visível na escola, havendo aqui muito a fazer para que as escolas sejam bilingues. Os professores surdos têm que trabalhar em conjunto com os professores ouvintes, sentindo que a sua língua é valorizada. E se os professores ouvintes tiverem boa comunicação, os intérpretes vão deixar de fazer falta. É preciso que os professores ouvintes desenvolvam as suas capacidades de comunicação.
Uma educação bilingue de qualidade implica que a LGP seja ensinada como uma disciplina e os professores precisam de formação nas estratégias e metodologias do português como segunda língua para alunos surdos. E as outras disciplinas têm que ter o mesmo currículo dos ouvintes, ou melhor, mais ainda, porque os surdos precisam também de aprender a cultura e a história da sua comunidade.
Disse Paula Estanqueiro que as escolas de referência são uma luz a brilhar, mas a luz mais forte é a da comunidade surda. São as nossas mãos que vão dar o futuro às crianças surdas.


publicado por Eduardo Cabral às 12:26
Sexta-feira, 02 de Outubro de 2009

Os surdos não ouvem os cegos e estes não vêem gestos? A tecnologia está mesmo aqui à mão. Melhor, mão-na-mão. Já é assim que as crianças surdocegas aprendem a representar o mundo, mas esse é o mundo muito específico da surdocegueira.

Dione Monteiro, intérprete de LIBRAS, muito solicitada a mediar a comunicação entre pessoas destes dois grupos, idealizou: «Por que não ensinar a linguagem de sinais para que os cegos possam se comunicar diretamente com os surdos?»
É por essa razão que no Centro de Apoio ao Surdo do Recife funciona um curso de LIBRAS para cegos às terças-feiras de manhã. O professor é surdo e trabalha com intérprete ouvinte. «Embora seja um pouco difícil de imaginar, é possível, sim, um cego se comunicar com um surdo e vice-e-versa. Mas essa conversa se dá de uma forma diferente, mão a mão», explica Romoaldo, aluno da primeira turma do curso de LIBRAS para cegos.
Mão-na-mão, conhecem forma mais romântica de comunicar? Surdas e cegos, cegas e surdos, outras combinações? Hum… anda magia no ar lá pelo Recife. Literalmente.
 
Fonte:
«Cegos aprendem Libras no Recife em curso inédito», de Fabiana Maranhão, autora de foto do topo e do vídeo, especial para JC Online. Ver artigo em


publicado por Eduardo Cabral às 09:58
Quinta-feira, 01 de Outubro de 2009

“Era uma vez uma casa onde qualquer pessoa se podia declarar seu legítimo habitante. Onde cada um podia construir o seu espaço para se relacionar com a música. Onde todos tinham voz na descoberta e invenção de um infindável universo de melodias, ritmos e sons – uns muito antigos, outros a despontar. E a casa foi-se construindo numa diversidade de diálogos feitos na linguagem universal da Música…”

                                                                            Casa da Música
 
Comemora-se hoje o Dia Mundial da Música e não posso deixar de assinalar a data. Há um ano atrás, a Escola EB2,3 de Paranhos associava-se a um projecto feito em parceria com a Associação de Surdos do Porto e a Casa da Música. Estou a falar do Projecto de Gamelão.
Este projecto proporcionou aos alunos surdos da nossa escola uma experiência musical até aí inexistente. Foram momentos de descoberta da música através dos sentidos e das vibrações, momentos marcantes que os alunos não se cansam de lembrar. Toda a experiência foi enriquecedora, até o facto de os workshops terem tido lugar na Casa da Música, um espaço diferente da escola, com outros atractivos e outras potencialidades. Todas as quartas-feiras eram dias de entusiasmo e de festa. Este projecto demonstrou que os surdos também podem ter acesso à música e de uma forma gratificante. Em Abril, o projecto chegou ao seu término com o espectáculo “Bayang - Sombras do Som”, incluído no “Ao Alcance de Todos 2009”.
 
Este ano, a Casa da Música mantêm antigos projectos e inicia outros. Deixo aqui para consulta um livro digital com o Serviço Educativo desta Fundação. Um olhar atento pode dar-nos ideias para iniciar novos projectos com os alunos, alunos com as mais diversas características e necessidades.
 
Deixo também um vídeo que reafirma a ideia de que toda a gente merece usufruir do prazer de ouvir/ sentir a música, até os surdos.
 
 
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 13:12

«Pensar no Presente, Perspectivando o Futuro».

Começa no sábado, em Aveiro, o Congresso Nacional de Surdos, organizado pela Federação Portuguesa das Associações de Surdos. O Programa de sábado preenche um longo dia de trabalhos. A manhã, após a abertura com as entidades oficiais, é dedicada à educação. Comunicações e debate analisam as escolas de referência e o ensino superior. À tarde, os trabalhos do Congresso centram-se na Língua Gestual enquanto base da identidade surda, no papel da Federação no movimento associativo surdo e nas tecnologias para as pessoas surdas. A noite é de Teatro.
Os trabalhos recomeçam às 10 horas de domingo, para abrir o debate ao futuro e aprovar a carta social, encerrando ao fim da manhã, após homenagem à organização do I Congresso, que ocorreu em 1993.
O blogue vai estar lá no sábado, para partilhar com os ausentes as linhas de força do Congresso.


publicado por Eduardo Cabral às 10:35
Quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

Já aqui abordamos muitos temas, mas nunca a terapia da fala. Assim, decidi fazê-lo hoje. Mas, melhor do que eu para falar desta temática, é alguém ligado à área. Das muitas coisas que já li, há um texto que me interessou especialmente. Estou a referir-me ao artigo “Educação Bilingue para Surdos” de Ana Cláudia Lodi (2000), que está inserido num livro, todo ele dedicado ao papel da terapia da fala dentro de um contexto de educação bilingue.

 
Este artigo reporta-se ao fim dos anos 90, altura em que começaram a ser implementados no Brasil os primeiros projectos bilingues. A autora questionava na altura se continuava a haver lugar para os terapeutas da fala dentro desta nova abordagem. Conclui que sim, se as suas bases e concepções forem revistas. Vale a pena ler. Deixo aqui algumas das ideias principais:
 
“Neste momento de debates e de transições que estamos vivendo, ainda temos um papel importante e determinante num reposicionamento teórico quanto à forma de conceber os surdos, já que somos profissionais procurados logo após o diagnóstico da surdez. A postura que o fonoaudiólogo assume frente aos pais será decisiva para uma aceitação precoce da Língua de Sinais e de uma escolarização que a tenha como base linguística.
(…) Concebo a Língua de Sinais como uma língua completa e única capaz de propiciar a entrada dos indivíduos surdos na linguagem, de constituí-los como sujeitos linguísticos. Assim sendo, ela deve ser adquirida o mais cedo possível e de forma natural, no contato com adultos surdos usuários e fluentes nesta língua.
A família deve fazer parte desse processo, aprendendo a Língua de Sinais e utilizando-a na relação com os seus filhos. Este fato propicia que as crianças, tendo esta língua valorizada pela família, sintam-se à vontade e confortáveis em sua aquisição. Entretanto, por serem, em sua maior parte, filhos de ouvintes que não conhecem e não dominam esta língua, o contato destas crianças e, consequentemente de sua família, com adultos surdos da Comunidade Surda, deve ser estimulado.
As crianças, por outro lado, à medida que se relacionam com modelos adultos surdos, iguais em sua diferença, podem identificar-se positivamente com eles, construindo assim, uma identidade íntegra e preservada.
(…) O lugar privilegiado para que este processo ocorra é a escola e, para tal, esta deve ter concepções bem alicerçadas para permitir e possibilitar este desenvolvimento. Além disso, torna-se um espaço fundamental para que estas crianças possam ter acesso à sua cultura e à sua história, assim como desenvolver todo o seu potencial intelectual, cognitivo e linguístico.
Tendo seu direito de aquisição de uma primeira língua garantido, as crianças poderão, por meio dela, realizar sua leitura de mundo de forma reflexiva e interrogativa, adquirindo bases para o desenvolvimento de uma segunda língua, no caso, o português.
 
Como posicionar, então, a clínica fonoaudiológica frente a estes princípios?
 
Quando os pais procuram a clínica fonoaudiológica, geralmente vêm buscar um trabalho de desenvolvimento de fala e indicação de aparelhos de amplificação sonora, tidos como os instrumentos que possibilitarão o desenvolvimento oral do seu filho. É neste momento inicial que a postura e as concepções do fonoaudiólogo a respeito da surdez e do desenvolvimento da criança surda marcam as orientações e os esclarecimentos necessários a esta família. A escuta e o respeito ao que os pais têm a nos dizer, é o primeiro passo no desenvolvimento de nosso trabalho, e já neste momento, torna-se necessário discutir com eles sobre o que é a Língua de Sinais e a necessidade desta para o desenvolvimento da sua criança, enfocando-a como aquela língua que será a base para todo o desenvolvimento da criança (…).
Entretanto, o fato desta criança vir ou não a falar, é algo que não pode ser determinado à priori; este desenvolvimento faz parte de um processo maior e anterior, que é o da aquisição da linguagem. Possibilitar a esta criança a aquisição de uma primeira língua (…) faz com que a oralidade seja colocada, inicialmente, em segundo plano, pois o desenvolvimento do português como segunda língua será influenciado e determinado pelo processo de desenvolvimento da primeira. Mais do que o desenvolvimento oral da criança, devemos estar preocupados com o fato desta não possuir nem estar em processo de aquisição de nenhuma língua.
É importante que os pais percebam que os sinais não irão impedir o desenvolvimento oral de seu filho e, muito menos, são um apoio ou mero instrumento para que este desenvolvimento ocorra. São, sim, as peças fundamentais deste processo. (…)
O fonoaudiólogo para trabalhar numa escola que assuma as concepções e ideologias do modelo sócio-antropológico de educação, deve também compartilhar destas, sendo parceiro neste processo de mudanças, desenvolvendo seu trabalho a partir da primeira língua das crianças, ou seja, a Língua de Sinais.”
 
Bibliografia:
 
LODI, Ana Cláudia (2000) “Educação Bilingue para Surdos”, in Cristina Lacerda, Helenice Nakamura e Maria Cecília Lima (Orgs.) Fonoaudiologia: Surdez e Abordagem Bilingue. São Paulo: Plexus.


publicado por Maria do Céu Gomes às 14:57
Terça-feira, 29 de Setembro de 2009

 

Do Brasil, chegou-me a simpática informação de que o núcleo de concursos da Universidade Federal do Paraná (UFPR) disponibiliza em LIBRAS as instruções para o vestibular de 2010. Na página de entrada, um link dá acesso à página onde, em seis clips de vídeo, explicam o processo na língua dos surdos brasileiros (ver http://www.nc.ufpr.br/).

A professora Sueli Fernandes, investigadora que colabora com a equipe do Núcleo de Apoio às Pessoas com Necessidades Especiais da universidade, afirma que dentro da política de inclusão de alunos surdos, é preciso dar prioridade à diferença linguística. "Desde antes do seu acesso, um candidato surdo, quando vê esse tipo de iniciativa, já se sente acolhido pela universidade", disse na nota de imprensa da UFPR.
A notícia despertou a minha curiosidade e fui ver o panorama no ensino superior em Portugal. Visitei primeiro as Escolas Superiores de Educação que oferecem formação na área da Língua Gestual Portuguesa. Comecei pelas mais antigas. Na ESE de Setúbal (http://www.si.ips.pt/ese_si/web_base.gera_pagina?P_pagina=24706), a primeira instituição do ensino superior a a acolher a LGP na sua oferta formativa, não encontrei nada nesta língua. Terei procurado mal? Na ESE do Porto (http://www.ese.ipp.pt/), também nada encontrei. Falha minha?
Na ESE de Coimbra encontro, enfim, informação em LGP. A página do curso de LGP contém um vídeo de produção da esectv*. A Dra. Fátima Neves, responsável do curso de Língua Gestual Portuguesa, com Rafaela Silva e Mónica Henriques, licenciadas pela ESEC em, respectivamente, Interpretação e Leccionação da Língua Gestual Portuguesa, todas ouvintes, analisam a formação e as profissões na área. Em entrevista oral. Sem legendas. No canto inferior direito, ocupando 6,5 % da área do ecrã, a tradução para língua gestual:
Foi tudo o que se encontrou. Viva. Um viva pequenino, em sussurro. Procurámos depois na página da FPCEUP e no sítio da UCP. Só informação escrita relativa a cursos, actividades ou notícias na área da LGP. Ainda fui espreitar como a UTAD atraía os estudantes surdos…
 * Da esectv, seguir o link do post O que significa ser Surdo?, de Maria do Céu Gomes, para apreciar um vídeo quase sempre bilingue e em que os surdos também falam.

ADENDA

As comentadoras de serviço (obrigado, Margarida Santos, obrigado, Isabel Correia) enriqueceram o post acima, com a pertinência da opinião e alguns links. Como não funcionam nos comentários, vou acrescentá-los aqui, para que todos os consigam ver:

 

o sítio do Curso de Engenharia de Reabilitação da UTAD

http://www.engenhariadereabilitacao.net/supera/supera.php

 

o Poema em Língua Gestual Portuguesa, do Amílcar Furtado, divulgado neste blogue no Dia Mundial da Poesia, num post de Maria do Céu Gomes, em 21 de Março, claro.

 

o vídeo do Natal em LGP... vai esperar pela época própria, que não tarda, pode ser?

 



publicado por Eduardo Cabral às 18:37

 

“Nós pertencemos ao “mundo do silêncio”. O nosso sonho, o nosso desafio é o de permitir aos surdos viver normalmente e com a mesma intensidade e emoção, a descoberta ou a exploração de terrenos extremos. A nossa prioridade e a nossa urgência são sensibilizar a opinião pública e a sociedade em geral para a situação real dos surdos hoje e no futuro. Nesta aproximação aos cumes e aos desertos selvagens, nós, os surdos, não procuramos a performance, nem os resultados desportivos, mas o privilégio de partilhar com os ouvintes a emoção da descoberta e as sensações da exploração.”

 
                              Daniel Buffard-Moret, “Les Montagnes du Silence”
 
A associação “Les Montagnes du Silence” foi criada em França, em 2002, por dois surdos, Daniel e Françoise Buffard-Moret, com base numa única e simples finalidade: surdos e ouvintes juntos na montanha.
A necessidade de partilha e de solidariedade são premissas básicas para a prática de qualquer desporto de aventura. Todos estão dependentes uns dos outros. O sucesso de uma expedição e/ou exploração depende de uma boa articulação da equipa. Sendo o grupo constituído por surdos e ouvintes, a experiência promove a entreajuda entre todos e o crescimento de uma confiança mútua.
Existem actividades pouco praticadas pelos surdos, como o alpinismo, a escalada e a exploração de terras longínquas. Isto deve-se por um lado, à falta de informação e por outro, porque muitos surdos pensam que estas actividades lhes são inacessíveis. A existência de ouvintes numa equipa pode funcionar como uma forma de abrir caminhos, esclarecer dúvidas e dar orientações.
O escalar montanhas e enfrentar condições atmosféricas adversas, constitui um desafio para qualquer pessoa e, nesse sentido põe à prova a capacidade de cada um se transcender a si próprio e vencer barreiras. Assim, acaba por ser uma forma de os surdos elevarem a sua auto-estima e perceberem que podem fazer exactamente as mesmas coisas dos ouvintes. A língua gestual acaba por se adaptar bem ao desporto de aventura, tendo em conta que muitas vezes os elementos do grupo têm que comunicar a uma certa distância uns dos outros. Todos saem beneficiados com o uso da língua gestual, até os ouvintes.
Esta associação já fez várias expedições, nomeadamente à Geórgia do Sul, uma ilha sub-antártica. O entusiasmo é cada vez maior e novos rumos estão a ser preparados.
 
Soube desta associação através de um dos trabalhos finais realizados no âmbito da Pós- Graduação em Educação Especial/ Surdez “Formação para a Educação Bilingue da Criança Surda”, que teve lugar na FPCEUP, no ano transacto. O autor, Helder do Carmo Sousa, estabeleceu contactos com a Associação de Surdos do Porto, indagou sobre as práticas desportivas dos seus membros e sobre expectativas quanto a realizações futuras. Actualmente, não há nenhum projecto deste género em Portugal, mas o Helder quer avançar com ele no nosso país e a ASP está receptiva à proposta. Será sem dúvida uma iniciativa que atrairá muitos adeptos e enriquecerá as vivências de todos.  
 
 

 



publicado por Maria do Céu Gomes às 08:43
Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

A nossa tendência é para, quando falamos de surdos, pensarmos principalmente naqueles que têm a Língua Gestual como primeira língua, mas como refere Misal, uma das comentadoras habituais deste blogue, convém não esquecer os surdos que utilizam a Língua Portuguesa no seu dia-a-dia, quer por opção própria, quer por opção dos pais. Muitos destes surdos são pós-linguísticos, ou seja, perderam a audição já depois de terem adquirido uma língua, na sua vertente oral e muitas vezes também escrita.

 
É uma experiência marcante possuir audição e depois perdê-la. O sofrimento é grande. A este propósito, tomo a liberdade de citar o testemunho de Armando Baltazar, também ele surdo pós-linguístico:
 
“O que senti eu? Agora já passaram muitos anos, já eu próprio me sinto um bocadinho mais neutral. Mas o que sentimos com treze anos, na força da vida? Um dia corria e saltava, era um dos melhores estudantes do antigo Liceu D. Manuel II, hoje Rodrigues de Freitas, recebia até com outros quatro alunos, uma bolsa de estudos. O que é que eu sentia? Hoje ouvia, no dia seguinte estava surdo. Eu não conhecia nenhuma pessoa surda, não sabia nada sobre a surdez e de um dia para o outro estava surdo. Nesse dia fiquei com muitos problemas naturais, familiares. Nos primeiros tempos esses problemas foram maiores que a própria surdez. Fiquei desanimado, perdi o interesse por muitas coisas, perdi a alegria de viver, afastei-me dos amigos.”
 
O seu desânimo levou-o a querer desistir da escola e até da vida:
 
“Fiquei surdo quase no fim do segundo período escolar, continuei até ao fim do ano sem problemas. Os professores também ficaram sensibilizados. No ano seguinte desisti. Andei dois anos, mais ou menos a vegetar, desiludido comigo, desiludido com o mundo. Tentei suicidar-me até”
 
Até que um dia conheceu um surdo adulto que o levou para o antigo Grupo Desportivo dos Surdos-Mudos do Porto.Foi aí que entrou em contacto com a comunidade surda e aprendeu a LGP. Sobre a importância de ter adquirido esta língua, diz:
 
“A LGP teve um papel primordial na minha afirmação como cidadão. Ao contactar com adultos surdos que utilizavam essa forma de comunicação e ao ver o que eles tinham conseguido na vida pensei para comigo: se eles conseguiram isto, eu posso atingir o mesmo ou mesmo mais.”
 
E assim a sua vida mudou. Passou a ter objectivos e alegria de viver.
 
Mas nem todos os surdos fazem esta opção e esse é um direito que lhes assiste. As barreiras são inúmeras, porque nem sempre as próteses auditivas ou os implantes cocleares têm os resultados esperados. Em grandes espaços, tais como salas de aulas, auditórios e salas de espectáculo, a capacidade de audição é ainda menor.
 
Existem equipamentos que têm como objectivo aumentar os ganhos auditivos. Num post antigo, já aqui falamos do sistema FM, que permite que a fala seja recebida por um microfone colocado muito perto da boca do falante, a uma intensidade sonora muito maior do que se estivesse a uma distância de alguns metros como acontece quando a recepção é feita pelo microfone dos aparelhos auditivos, sejam eles próteses auditivas convencionais ou implantes cocleares. Este sistema, usado em algumas das nossas salas de aula, tem a vantagem de diminuir o efeito de reverberação sonora, uma vez que o som é recebido directamente pelo microfone, sem ser influenciado pelos ruídos exteriores. Deste modo, os alunos compreendem muito melhor a mensagem transmitida pelo professor.
 
No que diz respeito ao acesso à informação e à cultura e, falando mais precisamente de grandes auditórios, existem sistemas próprios para tornar os espectáculos e conferências acessíveis aos surdos que não usam a Língua Gestual. Segundo Misal, são sistemas de amplificação sonora (através do anel de indução magnética) que permitem a utilizadores de próteses auditivas e implantados, receberem directamente nas suas próteses o som. Por serem pouco conhecidos, são pouco implementados. Penso que em Portugal nenhum auditório ou teatro o tem. Esta é mais uma lacuna em termos de acessibilidades a que importa dar visibilidade, daí a importância da divulgação destes casos. 
 
Deixo aqui o link dos SULP (Surdos Usuários da Língua Portuguesa). A forma como encaram a surdez é diferente da dos surdos que usam a Língua Gestual. Para os surdos usuários da Língua Portuguesa, a surdez é apenas um défice que importa combater e até eliminar se possível, para os outros é uma questão identitária e até cultural, sendo a Língua Gestual considerada a sua primeira língua, uma língua que é necessário reconhecer e valorizar. A Língua Portuguesa não é rejeitada, é apenas considerada a segunda língua dos surdos. A primeira visão traduz uma perspectiva médica, a segunda uma perspectiva antropológica e cultural.
 
Neste blogue, situamo-nos dentro da segunda visão, daí a tendência para falarmos mais dos surdos que usam a Língua Gestual. No entanto, estamos abertos a outras formas de sentir a surdez e aceitamos a existência de diferentes opções. Sempre existiram estes dois posicionamentos e sempre existirão.
 
Nesse sentido, divulgo também um vídeo sobre o Troyes, um sistema de amplificação do som, especialmente útil para grandes auditórios.
 

http://sulp-surdosusuariosdalinguaportuguesa.blogspot.com/ 

 

 



publicado por Maria do Céu Gomes às 00:24
Domingo, 27 de Setembro de 2009

 

Há um ano foram no Porto as comememorações nacionais do Dia Mundial dos Surdos. Organizada pela FPAS e pela ASP, uma marcha de surdos e não só percorreu as ruas da Invicta com as suas palavras de ordem.

 

               



publicado por Eduardo Cabral às 12:59

 

Em Setembro de 1951, em Roma, a Federação Mundial dos Surdos (WFD) realizou o seu primeiro congresso mundial.

A semana e o dia internacional do surdo assinalam esse evento histórico na quarta semana do mês de Setembro, por decisão do Congresso de 1957, e têm por finalidade captar a atenção da sociedade (políticos, autoridades, grande público) para as realizações das pessoas surdas.
Durante uma semana, as associações de surdos desenvolvem campanhas de informação sobre o seu trabalho, propósitos e reivindicações pelos direitos das pessoas surdas do mundo inteiro.
 
Onde marcham os surdos? Por todo o lado, mas, a lista abaixo, confirmei eu:
 
12 de Setembro
Em Brest, França, Marche Silencieuse (Colectivo das Associações de Surdos da Bretanha).
 
20 de Setembro
Em Niterói, Brasil, Passeata do Orgulho Surdo.
 
24 de Setembro
Em Porto Velho, Rondónia, Brasil, Manifestação dos surdos locais.
Em São Luís do Maranhão, Brasil, Passeata de Surdos pela Inclusão Social (Associação de Surdos do Maranhão).
 
25 de Setembro
Em Bogotá, Colômbia, Marcha Dia Internacional del Sordo (FENASCOL e SSB).
Em Fortaleza, Brasil, Caminhada em comemoração pelo Dia Nacional dos Surdos, (ICES).
Em Ibagué, Colômbia, Marcha Día Internacional de la Persona Sorda, (Asociación de Sordos del Tolima).
Em Juazeiro, Brasil, Passeata do Orgulho Surdo (APAE de Juazeiro).
Em Manágua, Nicarágua, Día Internacional de las Personas Sordas (ANSNIC).
Em Tegucigalpa, Honduras, Marcha de Esperanza (ANSH).
 
26 de Setembro

Em Balneário Camboriu - SC, Brasil, Passeata do Dia do Surdo (ASBAC, Associação dos Surdos de Balneário Camboriu).
Em Belo Horizonte, Brasil, IX Passeata de Surdos (FENEIS de Minas Gerais).
Em Fortaleza, Brasil, Passeata do Dia Mundial dos Surdos (Associação de Surdos de Iguatu).
Em Ciudad de México, México, Marcha del Día Internacional de la Lengua de Señas (unión de Sordos de México e CPSDF).
Em Concepción, Chile, Día Internacional de las Personas Sordas (Colectivo de associações de surdos.
Na Guarda, Portugal, Caminhada Natura (associação Despertar do Silêncio).
Em Hautte-Ville de Québec, Canadá, primeira marcha de surdos do Quebeque (Associação de Surdos do Leste do Quebeque e Fundação dos Surdos do Quebeque).
Em Ipatinga, Brasil, Passeata do Dia Mundial do Surdo.
Em Jalisco, México, Marcha Silenciosa (Colectivo de associações de surdos).
Em Múrcia, Espanha, No más Esperas! Derechos ya (FESORMU).
Em Neiva, Colômbia, Día Internacional del Sordo, roupa negra (ASORHUIL).
Em Paris, França, Journée Mondiale des Sourds, marcha nacional, vestuário negro (Associação M.A.I.N.S. e FNSF).
Em San José, Costa Rica, Marcha de la Comunidad Sorda, vestuário branco e preto (ADEINSOR, ANATRASCOR e PASE).
Em São Paulo, Passeata pelo Direito do Surdo de Estudar em Escolas de Surdos (FENEIS de São Paulo).
Em Tournai, Bélgica. Cortejo da Jornada Mundial dos Surdos. Luvas brancas, como símbolo da existência dos surdos (Federação Francófona dos Surdos da Bélgica).
Em Turim, Itália, Marcha nacional dos surdos italianos. T-shirt preta d emanga comprida e candeia acesa (Ente Nazional Sordomuti).
Em Xalapa, México Marcha del Silencio (Sordos del Estado de Vera Cruz).
 
27 de Setembro
Em Langreo, Espanha, Día Internacional de las Personas Sordas (FESOPRAS).
Em Maceió, Brasil, Caminhada de Bem com a Vida (AAPPE).
Em Portugal, cancelada a IV Marcha Nacional da Comunidade Surda, por coincidência de datas com as Eleições Legislativas.
Em Rio Branco, Brasil, Passeata do Dia Mundial do Surdo (Centro Estadual de Educação de Surdos-SEES).
 
28 de Setembro
Na Bahia, Brasil, V Caminhada dos Surdos: luta de apoio à comunidade surda; participantes com blusas pretas e fita azul (Centro de Surdos da Bahia).
No Recife, Brasil, Grande Caminhada dos Surdos (FENEIS de Pernambuco)
 
29 de Setembro
Em Angers, França, Marcha Silenciosa (associações ASML, CSSA, SER LSF et IRIS PL).
 
30 de Setembro
Em Assunción, Paraguai, Gran marcha de los sordos, fumo negro no braço (Centro de Sordos del Paragay).
 
3 de Outubro
Em Sabadell, Espanha (ou é melhor dizer Catalunha?), Avançant cap a la Igualtat (FESOCA e APANSE)


publicado por Eduardo Cabral às 11:15
Sábado, 26 de Setembro de 2009

Nas eleições legislativas de 27 de Setembro o CERTIC vai realizar uma experiência piloto com uma interface áudio-táctil capaz de proporcionar independência e privacidade de voto a pessoas com deficiência visual, idosos e pessoas analfabetas. Essa experiência terá lugar na Escola Secundária S.Pedro em Vila Real durante a manhã, convidando os eleitores que já exerceram o seu direito de voto a simular o acto numa situação de incapacidade (por ex. com uma venda nos olhos) com a referida interface. Serão também convidados a participar nesta experiência os candidatos a deputados pelo círculo eleitoral de Vila Real.

Esta iniciativa conta com a colaboração do NAERA - Núcleo de Alunos de Engenharia de Reabilitação e Acessibilidade e pretende dar um contributo para as preocupações manifestadas na petição n.º 559/X/4.ª e a resultante Resolução da Assembleia da República n.º 72/2009 sobre soluções de acessibilidade institucionais e legais adequadas ao exercício pleno do direito de voto, aprovada no passado mês de Julho.



publicado por David Fonseca às 22:28

É verdade que existem muitas (in) acessibilidades para os surdos e para outras pessoas, portadoras de necessidades especiais. Muito se debate e legisla, mas as obras públicas e os acessos continuam a ser o que são…

 
Mas no meio de tanta inoperância, há conquistas que se alcançam, instituições que se destacam pela diferença. É o caso do Teatro São Luiz, em Lisboa.
 
Neste teatro, todos os espaços são acessíveis a pessoas em cadeiras de rodas, existindo casas de banho adaptadas para esta população. A programação da temporada é ampliada e imprimida em Braille para as pessoas cegas e com baixa visão. O mesmo é feito às folhas de sala dos espectáculos, desde que o teatro seja contactado com 8 dias de antecedência.

E os surdos também não são esquecidos. Todas as peças de teatro que são produção própria do São Luiz têm uma sessão com interpretação em Língua Gestual Portuguesa. Estas sessões existem já desde Janeiro de 2007, em colaboração com a Federação Portuguesa das Associações de Surdos. O intérprete de Língua Gestual Portuguesa fica instalado numa das frisas ao lado do palco e o público que acompanha a sua narração é colocado junto a ele, para se estabelecer um bom contacto visual.
 
As datas destas sessões são anunciadas nos materiais de divulgação dos espectáculos e no site do São Luiz. Actualmente, está em exibição a peça “Seis personagens à procura de autor”. A sessão com interpretação em LGP terá lugar no último dia do espectáculo, dia 18 de Outubro, pelas 17h30. É necessária uma marcação prévia.
 
O Teatro Municipal São Luiz considera que tem a responsabilidade de prestar todos os serviços aos seus munícipes, incluindo os que têm necessidades especiais. Para além destas iniciativas, tem ainda uma política de bilheteira que prevê um desconto de 50 por cento para pessoas com deficiência e para um acompanhante, para os espectáculos de produção própria. Os serviços prestados por este teatro tentam garantir a todos o acesso à cultura. É um exemplo de boas práticas para outras instituições. Que outras tomem iniciativas semelhantes, para que a acessibilidade passe a ser a regra e não a excepção.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 00:05
Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

O Correio do Minho publicou, eu li uma cópia na SurdoTV e fui em busca da fonte. É uma entrevista da jornalista Marlene Cerqueira a João Dantas, Director do Agrupamento de Escolas de Lamaçães, Braga, editada a 31 de Agosto e disponível no sítio deste jornal.

Lamaçães é o agrupamento de referência para a educação bilingue de alunos surdos mais a norte de Portugal e, depois, vale sempre a pena ler o testemunho de quem acredita na escola pública e prova que a qualidade é possível e tem resultados.
«Construir uma escola pública, democrática e de qualidade, capaz de dar resposta diferenciada a todos os alunos. Tem sido este o desafio de João Luís Dantas e da equipa que o acompanha no Agrupamento de Escola de Lamaçães.
Há 11 anos a trabalhar na EB 2,3 de Lamaçães, o director considera que conseguiu “constituir uma equipa de docentes de alta qualidade que tem conseguido que esta comunidade escolar obtenha excelentes resultados”
Sendo defensor da escola pública, João Luís Dantas considera que toda a comunidade se deve empenhar no sentido de dar uma resposta que leve os alunos ao sucesso educativo e que promova a igualdade entre as diferentes subculturas existentes na escola e no agrupamento.
“Cada vez mais, a escola é um puzzle de culturas e é esse desafio que nos leva a tentar dar uma resposta de qualidade.”»
Abordando as questões do novo modelo de gestão escolar, João Dantas relativiza o peso das alterações, antes acentua que «o que faz realmente a diferença são as pessoas e o modo como se relacionam». E garante: «O sucesso de uma escola e de um agrupamento depende do modo como são geridas as relações no seio da comunidade educativa, ou seja entre docentes, alunos, auxiliares, pais e encarregados de educação, sem esquecer a ligação à comunidade em que está inserida».
A necessidade de organizar respostas diferenciadas há muito que é enfrentada em Lamaçães:
«No projecto educativo salta à vista a resposta diferenciada que se procura dar face à heterogeneidade social e cultural que caracteriza esta comunidade escolar.
“Temos muitos alunos imigrantes — brasileiros, ucranianos, russos, venezuelanos e outros — e também um número significativo de alunos que requerem uma resposta diferenciada”, adianta o director.
É neste agrupamento que está sediada uma Unidade de Intervenção Precoce, constituída por seis educadoras e que presta apoio directamente a crianças com menos de cinco anos em que foram detectadas dificuldades de aprendizagem ou mesmo algum tipo de deficiência.
Este apoio estende-se por toda a zona Norte.
“Aqui está patente uma mudança de filosofia. Estamos a tentar resolver os problemas antes que eles surjam”, explica o director, enunciando o apoio que os centros de saúde e outras instituições tem dado ao projecto no sentido de elucidar as famílias sobre a sua existência e os apoios de que podem usufruir.
Este agrupamento é também uma unidade EREBAS, ou seja, Escolas de Referência de Educação Bilingue para Alunos Surdos. Os alunos com problemas de audição têm aqui uma resposta desde o pré-escolar até ao 9.º ano.
No Jardim-de-infância Bracara Augusta vai ficar sediada uma turma de alunos bilingue.
Na EB 1 Duarte Pacheco funcionam também duas turmas de ensino bilingue — ensino em que o português é a segunda língua e a língua gestual é a primeira língua.
Já na EB 2,3 de Lamaçães funcionam quatro turmas de ensino bilingue.
“Estamos a falar de ensino para alunos com surdez profunda”, explica João Luís Dantas, explicando que esta unidade EREBAS recebe alunos de todo o Norte do país — “Tivemos por exemplo alunos da Ponte da Barca, da Póvoa do Varzim. Neste ano, vamos ter uma da Trofa. São transportados para a escola diariamente de táxi. As pessoas não fazem ideia dos custos que isto tem”.
A resposta aos alunos surdos também é diversificada, de acordo com o grau de surdez.
O agrupamento conta com quatro intérpretes, quatro terapeutas da fala e formadores (jovens também surdos e que servem de modelo para os miúdos). A esta equipa juntam-se ainda os professores de ensino especial na área da surdez.
No passado ano lectivo, foram 57 os alunos surdos que frequentaram o agrupamento.
»
 


publicado por Eduardo Cabral às 00:28
Quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

«Os surdos são os menos favorecidos nas intervenções de acessibilidade realizadas pelos gestores públicos para pessoas com deficiência. Como enxergam e caminham, acabam não sendo atendidos com obras físicas na cidade.»

 
O texto do Diário de Pernambuco já é de Agosto, época em que o blogue preguiçou e o texto ficou esquecido. Até hoje. Não perdeu actualidade e, deste lado do Equador, a situação não difere tanto assim:
 
«A linguagem aproxima, rompe barreiras, revoluciona. Línguas diferentes são barreiras em qualquer lugar. Pior ainda no mesmo lugar, na mesma cidade, no bairro, na rua, na própria casa. Os surdos alfabetizados têm uma língua própria e são perfeitamente capazes de se comunicar com quem conhece a linguagem dos sinais. Não admitem o estigma da mudez. Falam com as mãos e em geral entre eles mesmos. Por isso, é comum saírem em grupos. Como minoria linguística, não têm acessibilidade plena aos serviços que exigem a condição da audição e da voz. A falta de comunicação visual, por exemplo, é um dos obstáculos que trazem problemas no acesso ao transporte público, bancos, hospitais e até no comércio. Se não há a informação visual ou alguém capaz de interagir, a comunicação não ocorre e ele se isola, se limita, se marginaliza todos os dias.
Os surdos, aliás, são os menos favorecidos nas intervenções de acessibilidade para a pessoa com deficiência realizadas pelos gestores públicos. Uma das razões apontadas é o desconhecimento da realidade dessas pessoas. […] Um simples passeio pelas ruas do centro da cidade também exige um esforço do surdo para tentar se localizar. De acordo com Patrícia Cardoso, as placas de sinalização do tráfego nem sempre são claras. A professora explica que a linguagem dos surdos não tem a tradução literal do português escrito, por isso é importante o uso de símbolos para facilitar a comunicação até para o surdo não-alfabetizado. Na Rua da Concórdia, ela apontou como exemplo uma placa que indica a estação do metrô do Recife e a Casa da Cultura. Em sua opinião, os sinais não são claros e o surdo que não for capaz de ler não tem como compreender o que está sendo dito.
Mas é na estação do metrô onde aponta dificuldades que passam despercebidas pela maioria das pessoas. Quem iria imaginar que o surdo teria dificuldade de saber o destino dos trens? Ele tem. Patrícia explica uma situação bastante recorrente: ao chegar à estação de embarque, se o trem já estiver no local com as portas abertas prestes a sair, o surdo só tem um jeito de saber o destino dele: precisa correr até a frente para ler o letreiro. Com esse deslocamento, corre o risco de perder a condução. Mesmo assim, ela conta que é mais seguro esperar o próximo transporte (se não for possível correr e voltar a tempo de entrar no trem) do que pegar o destino errado.»
 
A jornalista, citando fonte da FENEIS, enumera barreiras no quotidiano dos surdos:
«- Um surdo passa mal e é levado para uma emergência de um hospital público do Recife. Não há profissionais preparados para atendê-lo e ele não consegue dizer o que está sentindo.
- Em um caixa eletrônico, o cartão é engolido pela máquina e há apenas um telefone para o cliente informar a situação ao banco. O surdo não tem como fazê-lo.
- Um surdo tem os seus cartões roubados e não consegue fazer o bloqueio ou desbloqueio por telefone.
- Um surdo é acusado de um crime e não tem como se defender. As delegacias também não dispõem de profissionais para ajudar em casos desse tipo.
- A campainha toca informando um incêndio em um prédio. O surdo ignora o aviso. A campainha do surdo é a luz e a maioria dos prédios não adota o procedimento.
- O surdo também não pode pedir comida ou remédio por telefone.»
 
Texto integral em:


publicado por Eduardo Cabral às 13:29
Quarta-feira, 23 de Setembro de 2009

Temos divulgado aqui muitos projectos e hoje quero falar de mais um, os PalhaSurdos. Tal como o nome indica, este é um grupo de animação constituído por palhaços surdos, de várias idades. São os elementos mais velhos e mais experientes do grupo que ensinam aos mais novos as várias habilidades que compõem os seus espectáculos, bastante diversificados.
Formado por Alda Padeiro em 1998, este grupo tem vindo a conquistar o pequeno e o grande público através de várias actuações em eventos relacionados com a Comunidade Surda e não só. Actuam em espectáculos de rua e vão às escolas, às associações de surdos, a conferências e a outros eventos para os quais sejam convidados.É um projecto bastante interessante, mais uma afirmação da cultura surda.
Lembrei-me de falar dos PalhaSurdos, porque começa hoje em Kiev, na Ucránia, o 5º Festival Internacional de Palhaços Surdos. O Festival terá a duração de 5 dias e contará com a presença de inúmeros profissionais de vários países. É mais um grande evento organizado pela comunidade surda internacional. Será sem dúvida um festival onde não faltará a boa disposição.
O objectivo destes palhaços é o mesmo de todos os outros, ou seja, animar os mais novos e os mais crescidos, fazendo-os rir. Têm a vantagem de comunicar em língua gestual, o que é bastante bom para as crianças surdas, que assim os podem compreender melhor. E possuem um humor especial, próprio dos surdos.
Os PalhaSurdos são nossos, são portugueses. Constituem mais um exemplo de dinamismo e de uma postura activa na sociedade. Mais um projecto que vale a pena divulgar.


publicado por Maria do Céu Gomes às 15:21
Terça-feira, 22 de Setembro de 2009

 

A Conferência Internacional Sign Languages Around The World que se realizou em Portugal no dias 8  e o Workshop de Signwritting, 9 e 10 deste mês na Universidade Católica e na Faculdade de Letras de Lisboa trouxe a Portugal alguns dos maiores vultos da investigação em Linguística das Línguas Gestuais, como Wendy Sandler da Universidade de Haifa- Israel, Ronice Muller Quadros da Universidade de Santa Catarina, Diane Lillo Martin, Débora Chen Pichler da Universidade de Gallaudet, Sandra Faria da Universidade de Brasília e Adam Frost, um dos coordenadores do projecto Signwritting. A nível nacional destacou-se a presença do Professor Alexandre Castro Caldas e da Professora Ana Mineiro.

Os palestrantes apresentaram as suas últimas investigações na área da ´Linguística das Línguas Gestuais das quais se destaca a investigação de Wendy Sandler acerca da ABSL, uma língua gestual quase familiar de uma família de surdos que vivem no deserto. O nascimento e evolução desta língua tem sido acompanhada científicamente como aconteceu com a Língua Gestual da Nicarágua. Destacou-se, também, a apresentação da Ronice Quadros da licenciatura em Língua Gestual Brasileira (LIBRAS) em sistema E-Learning que já cobre todo o território brasileiro. Este sistema de licenciatura em E-Learning será aplicado em Portugal pela Universidade Católica ainda no presente ano lectivo.

Os restantes palestrantes apresentaram investigações sobre a ASL e LIBRAS, na área dos componentes não manuais das línguas gestuais e aspectos da aquisição da língua gestual como segunda língua.

Nos dias 9 e 10, Adam Frost realizou um workshop sobre o Signwriting.

Em suma, penso que a conferência correu bastante bem, no entanto, gostaria de ter visto mais pessoas ouvintes a assistir, já que os surdos compareceram em grande número, por outro lado, gostaria de ter visto como palestrantes, investigadores surdos e existem tantos como Paddy Ladd, os irmãos Supalla ou Tom Humphries e carol Padden... talvez para a próxima conferência...

Gostaria, também, e fazendo de advogado do diabo, que estas investigações se reflectissem mais na melhoria da educação de surdos...

Até breve,

Paulo Vaz de Carvalho. 



publicado por Paulo Vaz de Carvalho às 10:30

É de 2004 o artigo assinado em conjunto por Orquídea Coelho, Maria do Céu Gomes e Eduardo Cabral, intitulado «Formação de Surdos: ao Encontro da Legitimidade Perdida.

Começa assim:
«Neste artigo abordamos um pouco da história da educação dos surdos e da sua luta de emancipação pela igualdade de direitos, pelo pleno reconhecimento das suas línguas maternas, as Línguas Gestuais, pelo direito a seres portadores e produtores de uma cultura própria, a construírem uma identidade surda e a assumirem, entre outros, o papel de professores/educadores surdos e de agentes transformadores da escola. Ao longo do texto, estas ideias são ilustradas através do recurso a vários testemunhos encontrados dispersos na literatura académica e não-académica e, com eles, emerge o facto de (à excepção de pequenos focos), a sociedade maioritária não ter vindo a reconhecer a urgência de uma mudança de paradigma nesta área, promovendo atitudes segregacionistas e educando os surdos numa perspectiva de auto-regulação e de construção de uma identidade ouvinte.»
É interessante apreciar o que se alterou em cinco anos e se a mudança de paradigma, ali advogada, se concretiza e se consolida.
 
O artigo integra o n.º 22 da Revista Educação, Sociedade & Cultura, do Centro de Investigação e Intervenção Educativa da FPCEUP. Trata-se de um número temático, dedicado à Formação, Identidades e Práticas Profissionais.
O leitor interessado poderá ler, na íntegra, este e mais algumas centenas de artigos publicados até ao número 23 da revista, em livre acesso, a partir de agora, em http://www.fpce.up.pt/ciie/revistaesc. Pode ainda consultar resumos dos artigos e os editoriais dos números mais recentes.


publicado por Eduardo Cabral às 08:12
Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

O Secretário de Política Social anunciou, no passado dia 16, que, no próximo mês, o governo aprovará a criação de um centro de normalização linguística da língua gestual nacional. Eis como se faz uma manchete espantosa se fosse verdade.

Só que é mesmo verdade, em Espanha. Foi anunciada na abertura do III Congreso de la Lengua de Signos Española, que divulgámos na nossa agenda. Francisco Moza, em representação do governo do país vizinho, assegurou que «se habilitarán fórmulas para que funcione» aquela que é «una de las principales reivindicaciones de los colectivos de discapacitados auditivos».
É certo que é a terceira vez que trago para aqui a Espanha, mas não pensem que quero tomar posição na polémica entre portuguesismo e iberismo que de repente deu em discussão (diversão) de campanha eleitoral. Não é nada disso, é só porque lá coisas acontecem, pronto, como ignorar?
É cada vez mais premente resolver este problema. Uma normalização linguística da LGP é essencial para credibilizar a aposta na produção de documentação de apoio ao ensino da LGP nas escolas. Validando, por exemplo, as variantes das expressões regionais, que não empobrecem o sistema da língua…
 
De resto, não surpreendem os avanços vindos de um país mais desenvolvido que o nosso. Poderíamos até, com propriedade, perguntar porquê só agora. E veja-se, o mesmo governante admitiu que o executivo espanhol iria trabalhar, com urgência, nas questões da certificação profissional de intérpretes e professores de língua gestual.
 
Fonte


publicado por Eduardo Cabral às 14:07
Domingo, 20 de Setembro de 2009

A Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular (DGIDC) publicou um manual de apoio à prática para a educação bilingue de alunos surdos. O livro lembra que não basta legislar, é necessário concretizar na prática as orientações dadas, o que implica adequações a diferentes níveis organizacionais e no plano pedagógico.

 
 
Salientamos aqui algumas orientações que, no nosso entender, não deveriam ser esquecidas. Uma escola verdadeiramente bilingue:
 
  • Oferece a possibilidade de descobrir e aprender a Língua Gestual Portuguesa aos outros participantes da comunidade educativa. Os diferentes profissionais da escola, as famílias das crianças surdas e os outros alunos da escola devem poder encontrar respostas formativas que passam pela oferta da disciplina ao nível das opções de escola, como segunda língua estrangeira, cursos de formação, certificados ou não, oficinas ou clubes de língua, actividades de enriquecimento curricular;
  • Tem uma equipa pedagógica multidisciplinar especializada que desenvolve um trabalho cooperativo e de parceria entre os diferentes elementos. A escola constitui-se como um espaço de partilha e de reflexão e também como um centro de produção de meios e recursos para o processo do ensino e da aprendizagem dos seus alunos;
  • Promove a colaboração com outras escolas, num trabalho em rede, promotor das boas práticas e articula o trabalho desenvolvido com as associações nacionais e locais representativas dos surdos e dos encarregados de educação dos alunos surdos, na defesa de direitos e objectivos comuns.  
São também dadas orientações para uma pedagogia da diferença, nomeadamente, a importância da imagem, dos suportes visuais e também do registo sistemático dos conteúdos em Língua Portuguesa; a disposição das mesas em U ou em meia-lua, de modo a permitir uma interacção visual entre todos os alunos e o professor; a eliminação de ruídos visuais que possam dispersar a atenção; a elaboração de cadernos temáticos, pequenos diários e portefólios; a consciência de que os alunos surdos não conseguem olhar ao mesmo tempo para o quadro e para o professor ou para o intérprete de LGP; o respeito pelo seu ritmo de aprendizagem e a compreensão da forma como percepcionam a realidade.
 
Há uma outra questão que considero importante e que não é abordada neste manual. Estou a falar da avaliação das aprendizagens. Se nas disciplinas de línguas, o aluno é avaliado em termos da sua proficiência na expressão escrita, nas outras (Ciências, História, Geografia, etc.) é avaliado quanto aos conhecimentos que revela ter dos conteúdos leccionados. Assim, não é correcto que a avaliação do aluno seja feita unicamente através de trabalhos escritos. Estes devem continuar a ser realizados, mas não devem constituir os únicos elementos de avaliação. No meu entender, deve ser dada ao aluno a oportunidade de demonstrar o que sabe através da sua primeira língua, a língua gestual. Só assim estarão garantidas condições para uma igualdade de oportunidades em termos de avaliação.


publicado por Maria do Céu Gomes às 18:02
Sexta-feira, 18 de Setembro de 2009

Invocámos aqui L’Épée, na abertura deste blogue, a escola pública para os surdos, a língua gestual como língua de ensino e de aprendizagem. O seu método, dito francês, alastrou e influenciou, na Europa e na América do Norte, as escolas que surgiram nos fins do séc. XVIII e inícios do séc. XIX e Per Aron Borg (1776-1839) é um duplo herói nesta história.

Uma peça teatral em que um rapaz surdo comunicava por gestos inspirou-o na invenção de uma língua gestual. O professor sueco dedicou-se então à educação destas crianças e fundou em 1809 o Allmänna institutet for Blinda och Döfstumma (o Instituto Público para os Cegos e os Surdos). Na sua escola, lá estavam os professores surdos e a educação era ministrada em língua gestual.
Em 1823, o Rei Dom João VI, a solicitação da Princesa D. Isabel Maria, chamou Borg a Portugal, para dirigir o primeiro instituto de surdos nacional. Ficaram de então as semelhanças entre os alfabetos gestuais dos dois países (ver www.spreadthesign.com) e, por certo também no léxico, como uma visita a este site poderá confirmar.
O instituto funcionou inicialmente na Luz, no Palácio Conde de Mesquita, com uma dotação real, passando mais tarde para a tutela da Casa Pia, onde se manteve até hoje, conhecido ainda como Instituto Jacob Rodrigues Pereira, embora agora tenha caído o ‘instituto’ e seja um CED. Pronto, é o Jacob.
Para informações complementares, ler Breve História dos Surdos no Mundo e em Portugal, de Paulo Vaz de Carvalho
 
A que propósito, pese a importância do acima dito, nos lembrámos de aqui evocar Borg? Simples papel do blogue escola de referência. É que está net, disponível no sítio da SURDOTV, um magnífico clip em LGP sobre o pedagogo sueco que Portugal não esquece. Feito por uma juventude maravilhosa que não pára de mexer, este clip, realizado em Estocolmo, é um útil documento para que os nossos alunos conheçam e valorizem a sua e a nossa História. Vamos ver e explorar com os alunos surdos:
   

A SURDOTV também não dispensa a visita: http://surdotv.com/tv/.

 



publicado por Eduardo Cabral às 14:06
Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Investigadores do Grupo de Tecnologia da Fala da Universidade Politécnica de Madrid e da Fundação CNSE (Confederación Estatal de Personas Sordas) desenvolveram o primeiro sistema de tradução da voz para LSE (Lengua de Signos Española).

Um avatar (modelo virtual) traduz as expressões pronunciadas pelos funcionários que atendem os utentes surdos que, nos serviços públicos, pretendem renovar a carta de condução ou o documento de identidade nacional (DNI).
O processo de tradução desenrola-se em três fases. Primeiro, o sistema reconhece a fala do funcionário e adquire a sequência das palavras pronunciadas. O segundo passo é a tradução da frase em castelhano para glosa da LSE. Finalmente, o agente animado realiza a glosa numa representação em espaço tridimensional para visualização do utente. Os investigadores testaram o sistema na direcção de trânsito de Toledo e avaliaram os resultados como prometedores. O desenvolvimento do sistema tem em vista oferecer ferramentas informáticas que facilitem uma comunicação fluida entre pessoas surdas e ouvintes nos serviços de atendimento ao público.
Trabalhos anteriores tinham já criado um sistema de tradução de voz para LSE para a renovação do DNI e o desenho de uma ferramenta para a aprendizagem da LSE. Este último sistema permite reconhecer gestos e avaliar da sua correcta execução.
Veja a página do projecto em http://www.traduccionvozlse.es/ .
 

 



publicado por Eduardo Cabral às 19:15
Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009

Espanha já tem um serviço de vídeo-interpretação em LSE, disponível e gratuito para as pessoas surdas ou com perdas auditivas.

Tem o apoio dos ministérios da educação, políticas sociais e desporto e da indústria, turismo e comércio. E da Telefónica, a ‘PT’ de nuestros hermanos.
A iniciativa, da Fundación CNSE para la Supresión de las Barreras de Comunicación em colaboração com a Confederação Nacional de Surdos de Espanha, garante o acesso à comunicação e à informação em igualdade de condições, aspecto contemplado na lei que reconhece as línguas gestuais de Espanha.
Os utentes podem comunicar à distância e em tempo real com outras pessoas surdas e ouvintes, usando a LSE, a língua oral, com recurso à leitura labial, ou à língua escrita, por sistema de chat. O acesso pode ser estabelecido por computador fixo ou móvel, equipado com webcam, por telefone de vídeo ou telemóvel com tecnologia 3G.
www.svisual.org liga surdos e ouvintes. Em Espanha.
 

 

 



publicado por Eduardo Cabral às 18:50
Terça-feira, 15 de Setembro de 2009

Estamos em pleno regresso às aulas, mais um ano pela frente em que a educação de surdos constituirá um desafio, desafio para fazer melhor e para concretizar objectivos que, muitas vezes, só se conseguem a médio e longo prazo. Um ano também para algumas escolas se afirmarem como verdadeiras referências. Cabe a cada uma delas essa responsabilidade.

 
Quanto aos princípios ninguém tem dúvidas. A educação bilingue é uma questão de respeito pelos Direitos Humanos, tal como referido no relatório da Federação Mundial de Surdos “Deaf Persons and Human Rights” (citado num post anterior) e essa abordagem só se consegue concentrando os alunos em comunidades linguísticas de referência.
 
No início de mais um ano escolar, o segundo das Escolas de Referência, quero transcrever aqui um pequeno texto, retirado de um dos muitos estudos que concluiu dessa necessidade e apontou esse caminho. Trata-se da tese de doutoramento de José Afonso Baptista, “Os surdos na escola. A exclusão pela inclusão”, concluída em 2007, um ano antes da saída do Decreto-lei 3/2008. Vale a pena ler aquilo que muita gente sabe, mas muita gente esquece.
 
“Os surdos filhos de pais ouvintes não nascem imersos num ambiente linguístico acessível. Para poderem construir a sua língua de forma natural e implícita, sem esforço e sem consciência dos processos de aprendizagem, como acontece com as crianças ouvintes, têm de viver numa comunidade onde se utilize naturalmente a língua gestual. Essa comunidade não pode ser criada em cada escola, pela simples razão de que não existem surdos em número suficiente. A esta razão fundamental, a mais determinante, acresce que não existem recursos humanos, técnicos e materiais para apetrechar todas as escolas. Daqui decorrem apenas duas soluções: a primeira é criar comunidades de surdos em locais estratégicos, onde possam comunicar espontaneamente em língua gestual, quer com os colegas, quer com os professores e funcionários da escola, sendo a língua gestual a primeira língua, nomeadamente língua de ensino; a segunda é dispersar os alunos pelas escolas de residência, onde ficarão isolados, expostos a uma língua falada a que não têm acesso, condenados a serem sempre o “patinho feio” que não aprende e que vive à margem da comunidade. Exemplificando, a primeira solução corresponde ao modelo sueco (…); a segunda (era) o modelo português com os resultados conhecidos.”
 
Bibliografia:
Baptista, José Afonso Nunes (2008) Os surdos na escola. A exclusão pela inclusão. Vila Nova de Gaia: Fundação Manuel Leão.


publicado por Maria do Céu Gomes às 00:01
Segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

Saying “yes” to sign language, is saying “yes” to Deaf people, while saying “no” is the same as to say no to Deaf people and their opportunity to enjoy equal citizenship. Recognition of sign language also implies a “yes” to the linguistic and cultural identity of Deaf communities, as culture and identity are part of language”(WFD report "Deaf people and Human Rights", 2009)

 
Em Janeiro de 2009, a Federação Mundial de Surdos (World Federation of the Deaf - WFD) publicou um relatório elaborado com base na análise de inquéritos distribuídos por 93 países do mundo inteiro. Ficaram de fora desta análise os países da América do Norte e da Europa Ocidental. Os inquiridos foram membros das associações nacionais de surdos de cada país, membros da WFD ou não. O relatório intitulado “Deaf people and Human rights” procura dar uma visão geral de como se encontra a situação dos surdos em termos de direitos humanos nos países em desenvolvimento.
 
Este relatório reconhece que uma larga maioria, talvez 90% das crianças e adultos surdos nunca foram à escola, sendo por isso analfabetos. Os resultados dos inquéritos deram conta de que a língua gestual é reprimida em muitos países, não sendo permitido o seu uso na educação. Em consequência disso, as pessoas surdas não têm sequer consciência dos seus direitos e vivem à margem da sociedade. O acesso à informação é pouco ou nenhum, o que significa que muitas pessoas surdas não sabem sequer o que se passa no seu próprio país.
 
Dos 93 países inquiridos, apenas vinte e três afirmam ter uma abordagem bilingue e só em algumas escolas. A confiança no método oral ainda é forte, o que significa que uma grande parte das crianças surdas continua a não aceder à educação através da língua gestual. A Comunicação Total é a abordagem educacional mais usada (66 países).
 
Os investigadores que desenvolveram este estudo consideram que muitas das escolas que foram referidas como tendo uma educação bilingue, têm apenas a Comunicação Total. Eles verificaram que muitos dos inquiridos tinham dificuldade em distinguir os métodos de ensino e em saber exactamente em que é que consiste o bilinguismo para surdos. Segundo estes investigadores, essa dificuldade existe no seio das próprias associações de surdos.
 
Para a equipa que elaborou este relatório existem 4 condições básicas para que se possam garantir os direitos humanos das pessoas surdas:
 
  • Reconhecimento e uso da língua gestual, incluindo reconhecimento e respeito pela cultura e identidade surdas;
  • Educação bilingue (língua gestual e língua nacional);
  • Acesso a todas as áreas da sociedade e da vida, incluindo legislação que assegure direitos iguais em termos de cidadania;
  • Interpretação em língua gestual.
O relatório considera que não podemos afirmar que os direitos humanos das pessoas surdas são respeitados, se falhar alguma destas condições. Todas são cruciais para que elas possam viver com dignidade.
 
Embora o relatório não cubra os países da Europa ocidental, sabemos que em muitos deles a situação não será muito diferente. Ainda constituem excepções os países em que todas as condições acima referidas são respeitadas. E não é fácil nomeá-los. Países nórdicos e mais?
 
Este é sem dúvida um documento a ler e a reler. Deixo-o por isso aqui para consulta e reflexão.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 00:09
Quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

Os Deaflympics, são o equivalente aos Jogos Olímpicos, mas só para atletas surdos.

Os primeiros jogos tiveram lugar em Paris em 1924. Houve um interregno durante a 2ª Guerra Mundial e depois recomeçaram em 1949. Inicialmente eram denominados “International Games for the Deaf” ou “International Silent Games”. De 1966 a 1999, passaram a designar-se “World Games for the Deaf” e a partir de 2000, adoptaram a designação de “Deaflympics” (Surdolímpicos). Têm lugar de 4 em 4 anos, no Verão ou no Inverno.
 
Para participar neste evento desportivo, os atletas têm de ter uma perda auditiva de, pelo menos, 55 decibéis no seu melhor ouvido. Durante a competição, os atletas não podem usar próteses auditivas ou implantes cocleares. O objectivo é que ninguém esteja em vantagem sobre os outros. Todos têm de participar nas mesmas condições. 
 
Os Surdolímpicos têm regras diferentes dos Jogos Olímpicos ou dos Jogos Paraolímpicos. Como os atletas não conseguem ouvir não se usam apitos, nem campainhas, nem alto-falantes. No futebol, por exemplo, o árbitro acena com uma bandeira e nas corridas o sinal de partida é dado através de um flash de luz em vez de um disparo. Estas características são uma das razões da separação dos jogos e também o facto de a língua de comunicação entre os participantes ser a língua gestual. Foram dados vários cursos de Língua Gestual Internacional aos participantes e organizadores do evento, assim como a todos os voluntários que se ofereceram para ajudar no Surdolímpicos.
 
Este não é apenas um mero encontro desportivo, vai muito para além disso. É também um momento de celebração da cultura surda. Simultaneamente à realização dos jogos, há eventos culturais da comunidade surda por toda a cidade de Taipé. 
 
Estes jogos são organizados pelo Comité Internacional dos Desportos dos Surdos (CISS), com a aprovação do Comité Olímpico Internacional (IOC). São várias as modalidades que entram na competição. Nos jogos de Verão temos: atletismo, badmington, basquetebol, voleibol de praia, bowling, ciclismo, futebol, andebol, judo, karaté, orientação, tiro, natação, ténis de mesa, Taekwondo, ténis, voleibol, pólo aquático, luta livre e luta greco-romana. Nos jogos de Inverno, temos os desportos ligados à neve, tais como o esqui, o hóquei no gelo e o snowboard.
 
Nos primeiros jogos em Paris participaram 145 atletas surdos de nove países europeus e o número de participantes nunca mais parou de crescer. Em 2005, na Austrália, estiveram presentes mais de 3200 atletas surdos de 67 países, nos jogos de Verão. O país que recebeu os Deaflympics este ano foi Taiwan. E mais uma vez, foi batido o recorde: 4262 atletas surdos de 85 países. Os Surdolímpicos terminam no dia 15 de Setembro e até lá podem ser acompanhados através do site oficial, que aqui deixamos:
 
 

 

Deixo também o vídeo da cerimónia de abertura, para quem quiser ver como foi:

 

 



publicado por Maria do Céu Gomes às 23:12
Quarta-feira, 09 de Setembro de 2009

Soube há dias de uma iniciativa interessante para quem quiser sentir na pele como é o dia-a-dia de uma pessoa com determinadas limitações, a nível sensorial ou motor. É mais uma vez a questão das acessibilidades. Este é um projecto, entre muitos outros, que visa sensibilizar a sociedade para esta problemática.

 
Estou a falar do Labirinto “em construção”, um teatro sensorial, produzido pelo grupo de performers Oz & Fancy Creatures, que é constituído por Osvaldo Couto (Oz) e um grupo de voluntários, maioritariamente estudantes da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto (FPCEUP). Esta iniciativa será desenvolvida nos dias 11, 12, 14 e 15 de Setembro, das 19h às 23h, no pátio interior da FPCEUP.
 
Consistirá num percurso, onde os actores (habitantes do labirinto) irão interagir com o público (visitantes), proporcionando-lhes momentos e experiências sensoriais. É um percurso labiríntico, onde os visitantes entram individualmente, de 10 em 10 minutos e experimentam vivências do quotidiano de pessoas com algum grau de incapacidade, bem como sensações e emoções de variada ordem (prazer, angústia, paz, contacto interpessoal, etc.)
 
É um projecto com o apoio da FPCEUP, da APPC e da Porto Lazer, cuja entrada é gratuita.
 
Seria interessante conhecer o testemunho de pessoas que entrassem neste labirinto. Que sensações e emoções teriam para contar? Fico à espera de comentários.
 
Como a marcação é obrigatória, deixo aqui o contacto:
 
Osvaldo Couto
Telemóvel: 964707995
e-mail: oz.dedalo@gmail.com


publicado por Maria do Céu Gomes às 23:23
Segunda-feira, 07 de Setembro de 2009

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca
Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.
 
    Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos
 
 
 
Temos falado muito aqui da importância de se tomarem iniciativas, de fazer acontecer…
Existe um projecto que considero bastante interessante e que gostaria de divulgar. Estou a falar do Núcleo de Inclusão pela Arte (NIA), que foi criado na Madeira, em 1989, por sugestão do então Director Regional de Educação Especial, o Professor Elentério de Aguiar. Inicialmente denominado Oficina Versus, este projecto tem-se afirmado como um espaço paradigmático de promoção da arte para crianças, jovens e adultos com Necessidades Educativas Especiais. Reconhecido publicamente pela qualidade das suas apresentações, o NIA abarca várias áreas artísticas, das quais destacamos a dança, o teatro, a música e as artes plásticas. Graças a este projecto, muitos foram aqueles que experimentaram sensações até aí nunca sentidas, de prazer, alegria e realização pessoal. Mesmo aqueles que eram considerados casos mais difíceis e profundos, puderam testar e desenvolver competências criativas e tomar consciência de potencialidades até aí desconhecidas. A arte permite isso mesmo, a descoberta de si através do sentir de todo o corpo. É o derrubar de barreiras.
A Revista Diversidades da Direcção Regional de Educação Especial e Reabilitação da Madeira dedicou o seu último número às expressões artísticas e ao projecto do Núcleo de Inclusão pela Arte. Como se afirma num dos artigos da revista, a arte desenvolve a mente e cria novos modos, respostas, situações e meios para promover competências sociais e afectivas, de forma a enriquecer a personalidade e experiências pessoais.
 
Este tipo de iniciativas pode ser desenvolvido por direcções regionais de educação, por escolas, por associações, por grupos de pessoas que queiram simplesmente desenvolver um projecto deste tipo. O objectivo é esquecer as limitações e centrar a intervenção naquilo que cada um tem de melhor para dar.
 
Deixo aqui o link da Revista Diversidades, para que as boas práticas nela divulgadas possam chegar a todos.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 19:57
Sábado, 05 de Setembro de 2009

Realiza-se já na próxima semana, no dia 8 de Setembro, a Conferência Internacional "Sign Languages around the world". Esta conferência terá lugar em Lisboa, no Auditório 1 da Universidade Católica Portuguesa. Terá entrada livre e contará com a presença de nomes de referência, tais como Alexandre Castro Caldas, Wendy Sandler, Ronice Muller de Quadros, Diane Lillo Martin, Deborah Chen Pichler, Sandra de Faria, Ana Mineiro, Maria Vânia Nunes e Paulo V. de Carvalho. Serão abordadas várias questões relacionadas com a investigação em Língua Gestual, nomeadamente os mecanismos cerebrais para a LG, projectos de e-learning e o ensino da língua gestual como segunda língua.

Nos dias 9 e 10 de Setembro, há um workshop sobre "Signwriting" (9-18h), para quem quiser aprofundar os seus conhecimentos sobre este sistema de escrita, que está a ganhar cada vez mais impacto.   

 

Para ambos os programas é necessária uma inscrição prévia. Está assegurada tradução simultânea em Língua Gestual Portuguesa.

 

O programa da conferência e o formulário de inscrição estão disponíveis no site da Universidade Católica Portuguesa, Instituto de Ciências da Saúde:

 

www.ucp.pt/site/custom/template/ucptplfac.asp 



publicado por Maria do Céu Gomes às 12:51
Quinta-feira, 03 de Setembro de 2009

Continuando a falar de acessibilidades, gostaria de me centrar na surdez e mais especificamente na questão do acesso à informação. Esta é uma das muitas reivindicações das Comunidades Surdas, nomeadamente da portuguesa. Num artigo publicado em 2006, Helder Duarte e Maria José Almeida falam desta temática e do que tem sido feito no nosso país relativamente às televisões:

 
“Após uma larga ausência de programas informativos acessíveis às pessoas surdas, por volta de 1995, e por pressão da comunidade surda, foi criada a Informação Gestual, programa emitido no Canal 2 da RTP, que resumia as principais notícias do Jornal da Tarde do Canal 1 da RTP, bem como o programa Acontece da véspera. Este programa apesar de constituir um marco importante no que diz respeito ao acesso à informação por parte das pessoas surdas era, em parte, contestado porque era apresentado num horário de fraca audiência, de difícil acesso sobretudo a estudantes e trabalhadores.
A Informação Gestual terminou em Fevereiro de 2003 devido a uma remodelação da programação. Só em finais de Março de 2003 foi retomada a tradução do noticiário da noite do canal 2, da RTP, mas desta vez em directo. Este facto constituiu uma melhoria em termos de horário mas, infelizmente, piorou em termos de visibilidade, pois as dimensões da janela do intérprete de LGP foram drasticamente reduzidas, dificultando aos espectadores o acompanhamento dos gestos e da expressão facial (2006: 235).”
 
Este tipo de tradução simultânea (com o intérprete inserido numa janelinha) é cada vez mais frequente em todos os canais de televisão, sobretudo nos programas da manhã, resultado em parte do Programa Nacional para a Participação dos Cidadãos com Necessidades Especiais na Sociedade de Informação (2003) e do PAIPDI (2006). No entanto, é de ressaltar que este serviço não existe no horário nobre, em nenhum dos três canais (RTP1, SIC e TVI). Apenas o Jornal 2 ( RTP2, 22h) apresenta tradução para LGP. Actualmente, estamos em plena campanha eleitoral para as eleições legislativas e ninguém se lembrou de colocar este serviço nos debates televisivos entre os candidatos!!! Será que os surdos não têm o mesmo direito de estar informados?
 
Voltemos à questão das janelas nos programas de televisão. Os surdos queixam-se do seu tamanho reduzido, da dificuldade em seguir o intérprete, principalmente quando surgem simultaneamente notas de rodapé ou legendas. Segundo eles, este método exige um grande esforço visual e ao fim de pouco tempo já têm os olhos cansados. Apesar das críticas, consideram importante a existência desta opção. Gostariam no entanto de ter simultaneamente legendagem nos programas transmitidos em português, em diferido e em directo (tal como existe já em alguns países). Esta é uma reivindicação que até à data ainda não foi conseguida. Existe o teletexto, mas este serviço não satisfaz completamente a população surda. Gostariam de ter as duas opções, quem quisesse lia, quem tivesse dificuldade na leitura seguiria o intérprete.
 
No meu entender, a solução ainda poderia ser outra, isto é, a existência de um canal dirigido por surdos, com profissionais surdos, em que os programas fossem todos transmitidos em Língua Gestual e com legendagem para os ouvintes/surdos que quisessem acompanhar a informação através do português escrito. Neste contexto, os profissionais de televisão surdos apareceriam em primeiro plano e não numa janelinha minúscula, que mal se vê. Este projecto poderia nascer também de uma parceria com ouvintes. Já existem estes canais no estrangeiro. Porque não em Portugal? É uma questão de pôr mãos à obra, tomar a iniciativa, procurar parcerias e ajudas financeiras…
 
Deixo aqui dois exemplos, vindos da América do Norte. Vejam com atenção:
 
 
 
 Bibliografia:
 
Duarte, Hélder e Almeida, Maria José Freire Almeida (2006) “Derrubar as barreiras da comunicação e do acesso à informação”, in Maria Bispo, André Couto, Maria do Céu Clara e Luís Clara (Coord.) O gesto e a palavra. Antologia de textos sobre a surdez. Lisboa: Editorial Caminho.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 21:48
Quarta-feira, 02 de Setembro de 2009

Por vezes, nas nossas vidas, deparamo-nos com obstáculos que nos parecem insignificantes, e muitas vezes basta um pequeno gesto, um pouco de cimento para construir a rampa que poderá fazer toda a diferença…

Todos nós, como cidadãos do mundo, devíamos parar para pensar que nos pode acontecer algo de repente: ficar paralisado, cego, surdo, e depois… onde estão as condições acessíveis? Só depois do acontecimento é que a pessoa acidentada sente as verdadeiras barreiras, os derradeiros obstáculos, que por muito pequenos que sejam tornam-se num verdadeiro inferno!

Nesse sentido, devemos sensibilizar todos os seres-humanos para pensarem um pouco, porque, como muita gente diz, “mais vale prevenir do que remediar…” e não podemos voltar atrás pois a vida só tem um sentido! Por isso a acessibilidade deve ser OBRIGATORIA em todas as áreas. Nalguns casos a lei já prevê este tipo de situações, mas factores externos levam ao não cumprimento desta.

Urge pois moldar as mentalidades das pessoas, tentar lutar, demonstrar cada vez mais que a população mundial está a ficar envelhecida e, por isso, devemos ajudar a melhorar a qualidade de vida destas pessoas, tentando não impor barreiras. Penso que temos que tornar viável todo o tipo de projectos, não podendo estes ser considerados como um mero complemento. A questão não pode ser avaliada apenas porque alguns julgam “não ser necessário”. Basta pensar em nós próprios… De repente acontece qualquer coisa, e ficamos a pensar…. Porque é que não construí aquele complemento que falta?!



David Fonseca
 



publicado por David Fonseca às 16:45

Estamos de regresso ao trabalho e a este blogue para continuarmos a divulgar, a debater, a trocar ideias e experiências sobre a surdez.

Eu, pessoalmente, quero começar, falando de Agosto. Mês de férias, de descanso, de festivais e porque não da divulgação da língua gestual e da cultura surda? Que o diga David Fonseca, o coordenador da equipa de produção do Projecto Spread the Sign, que é imparável, mesmo estando de férias. Frequentador assíduo dos festivais de Verão, o David lembrou-se de levar o teatro surdo a um destes festivais, e também workshops de Língua Gestual, bem como conversas/debates sobre o que é “Ser Surdo”.
Estou a falar do 14.º Festival Andanças, que se realizou em Carvalhais (S. Pedro do Sul), de 3 a 9 de Agosto. Este ano, este festival de música e dança foi dedicado ao silêncio, no sentido em que às vezes temos de parar para prestar atenção ao que ouvimos, ao que fazemos, àquilo que vamos dizer. Às vezes, temos de parar o excesso de ruído, de stress e de consumo. Parar e simplesmente ouvir e ver o silêncio.
Foi essa experiência que o Festival tentou promover e foi nesse contexto que se realizaram as diversas actividades relacionadas com a surdez e com a língua gestual, já referidas anteriormente. A Joana Cottim dinamizou os workshops, o David as conversas, um grupo de surdos fez o teatro (Ricardo Cottim, Liliana Gomes, Cristina Silva, Sofia Quintas, Inês Tomás, Joana Cottim) cujo encenador foi o Zé Luís Rebel.
Sobre esta sua iniciativa, David Fonseca comentou:
 
“É muito importante mostrar à sociedade que existem varias comunidades Surdas no mundo, várias formas de comunicação. Através do teatro, eventos, workshops, mostramos que tudo é superável, bastando um pequeno esforço de cada um de nós. No combate à exclusão social existente é preciso criar pontes de comunicação, laços entres as várias comunidades. O Festival Andanças foi mais uma grande iniciativa com grandes expectativas futuras ao nível da comunicação. As pessoas mostraram muito interesse, fizeram imensas perguntas, debateram ideias. A sociedade aos poucos torna-se mais inclusiva, aceitando todos os seres-humanos”.
 
Foi sem dúvida uma forma diferente de divulgar o Projecto Spread the Sign e a Língua Gestual. Estão todos de parabéns - o David, toda a equipa que o acompanhou, bem como a Isabel Amaral e a Cláudia Rubim que asseguraram a interpretação em LGP durante todo o festival.
 
Deixo-vos com fotografias do evento e com o vídeo da peça de teatro.
 
 

 



publicado por Maria do Céu Gomes às 08:55

Em 2005 alguns docentes surdos e ouvintes do IJRP (infelizmente, hoje, CEDJRP- enfim, modernices...) sentiram a necessidade de criar uma unidade de investigação com o grande objectivo de dar resposta a alguns problemas que existiam e existem na educação das crianças e jovens surdos. As principais linhas de investigação têm sido a criação de glossários em LGP, materiais didácticos para todas as dísciplinas curriculares desde o 1ºciclo até ao ensino secundário e o projecto de acessibilidade da pessoa surda aos serviços públicos.

Embora a falta de apoio financeiro e logístico tenha sido uma realidade, teimosamente, esta unidade tem subsistido ao longo destes anos graças à persistência dos docentes surdos e ouvintes e graças aos alunos surdos do Instituto que muito nos têm apoiado e incentivado no desenvolvimento destes projectos.

A partir de 2008 a direcção da Casa Pia de Lisboa decidiu (e bem) investir  mais no desenvolvimento destes projectos. Assim, no ano transacto concluímos um dos projectos- a realização de um DVD interactivo com visita virtual em LGP ao museu do Centro Cultural Casapiano, projecto apresentado à Sra. Secretária de Estado da Cultura que nos assegurou que este projecto não seria esquecido e que poderia ser alargado a vários serviços públicos (a ver...).

Presentemente, temos como prioridade a conclusão dos glossários em LGP para todas as dísciplinas curriculares para o 5º ano e a criação de um manual em LGP para a dísciplina de Estudo do Meio.

Em vários seminários e congressos nacionais tenho vindo a sugerir uma maior articulação a nível nacional entre as escolas de surdos para que estes glossários, materiais didácticos e outros materiais que são desenvolvidos nas escolas não fiquem reduzidos a uma utilização local, no entanto, não temos vindo a conseguir criar um espaço nacional onde possamos partilhar as nossas investigações e preocupações (que são muitas...) relativamente ao ensino de surdos, talvez este blog seja um começo...

 

Até Breve,

Paulo Vaz de Carvalho

 

 

 

 



publicado por Paulo Vaz de Carvalho às 08:14
Terça-feira, 01 de Setembro de 2009

Pois é, meus caros, foi o céu enquanto durou, mas acabou-se o descanso, o remanso, o ripanço...

Apresentados ao serviço, não faltam por aí motivos de interesse relacionados com a educação dos surdos. Aqui vai uma chamada de atenção para dois:

No fim-de-semana (4 e 5 de Setembro) decorre em Lisboa, no CCB, a Conferência Internacional Educação Inclusiva - Impacto dos Referenciais Internacionais nas Políticas, nas Práticas e na Formação, organizada pela DGIDC, que tem interpretação em LGP. Nela será entregue aos participantes a brochura Educação Bilingue de Alunos Surdos - Manual de apoio à prática, uma edição DGIDC/DSEEASE, da autoria de Dina Almeida, Inês Filipe, Marta Morgado e deste vosso escriba.

Gripe A - Com a colaboração essencial da Associação de Surdos do Porto (obrigado, Alexandra Perry; obrigado, Ângelo Costa), a DREN produziu um vídeo em LGP com a informação e recomendações oficiais da Direcção-Geral de Saúde para as escolas. Para que os surdos (docentes, alunos, familiares) possam ter acesso, em igualdade de circunstâncias, à informação sobre a epidemia que preocupa a todos. Já está disponível no sítio da DREN, em http://w3.dren.min-edu.pt/.

 

 



publicado por Eduardo Cabral às 11:06
Segunda-feira, 20 de Julho de 2009

É o chavão costumeiro, encerramos para férias do pessoal, que já vai sendo tempo.

Vivemos aqui dias intensos, envolvemo-nos em discussões acaloradas, interrogámos os fundamentos das nossas opções, discutimos, partilhámos ideias e opiniões.
A todos, aos autores, mesmo àqueles que intervieram menos, aos comentadores, que nos deram a honra de contrapor ideias diferentes e/ou de aprofundar as nossas e, ainda, aos muitos assíduos visitantes, que nos deram a percepção de estarmos a promover uma discussão importante e a cumprir um papel necessário, a todos, todos, todos, o meu muito obrigado.
É tempo de partirmos de férias, agora, um tempo de abrir tempo à reflexão e à incubação de novos projectos. Bons projectos para todos!
 

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publicado por Eduardo Cabral às 19:53
Domingo, 19 de Julho de 2009

A Associação de Surdos da Alta Estremadura (ASAE) é uma associação sem fins lucrativos, que apesar de ter a sua sede em Leiria, abrange também áreas como a Batalha, Porto de Mós, Ourém, Marinha Grande e Pombal.

Entre 1990 e 1993, os surdos desta região não tinham uma associação onde se encontrar e trabalhar, pelo que os convívios tinham lugar num café. Foi nesses convívios que se sentiu como era importante existir um local de encontro. Assim, num primeiro momento, foi pedida à Associação Portuguesa de Surdos, autorização para a criação de uma Delegação em Leiria, o que foi autorizado em 1993.
No ano de 2004, este grupo começou a pensar que seria melhor ter uma associação independente e autónoma. Foi nessa altura que a Direcção informou a APS que durante mais um ano iria ser Delegação, para se tornar independente no ano seguinte. E foi assim que surgiu a ASAE, que conta neste momento com cerca de 200 sócios, surdos e ouvintes.
 
Decidi dedicar este post à ASAE, devido ao seu site. Conheço sites de outras associações de surdos (ASP, APS) e até da Federação Portuguesa de Surdos (FPAS) e em nenhum deles aparecem informações em LGP. Usa-se apenas o Português escrito.
 
Foi uma agradável surpresa o site da ASAE, onde existe a preocupação de dar aos surdos informações também em língua gestual. Se a LGP é a primeira língua dos surdos, este é sem dúvida o caminho a seguir.
 
Divulga-se e valoriza-se a LGP, ao mesmo tempo que se permite a todos os surdos o acesso à informação. A ASAE está de parabéns!
 
Deixo aqui o Link para o site:
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 23:04
Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Há alguns dias, quando li que Nigel Howard, o dinamizador da “Deafhood workshop”, era um intérprete surdo, fiquei intrigada. No início ainda me questionei se não seria um engano ele ser intérprete, ou se, sendo ele intérprete não seria ouvinte. 

 
Aqui em Portugal, conheço apenas intérpretes ouvintes, daí a minha confusão. Decidi então saber mais sobre os “Deaf interpreters”, como trabalham e quais as suas funções…
 
Pelo que li, há já bastantes intérpretes surdos, tanto na América como na Europa. São profissionais que, para além de terem que ter excelentes capacidades comunicativas em diferentes línguas gestuais, tem treino especializado no uso de gestos não estruturados, mímica, desenhos e outros instrumentos que permitam melhorar a comunicação. Têm ainda um conhecimento profundo do que é a Surdez, a Comunidade Surda e a Cultura Surda.
 
Em que situações é necessária a presença de um intérprete surdo?
 
É importante a presença deste profissional quando o indivíduo surdo que se está a traduzir não usa uma língua gestual estruturada, mas “home signs”, isto é, sinais domésticos que são específicos de uma determinada família. Nesta situação, o intérprete ouvinte não o consegue compreender e fazer a respectiva tradução. Há ainda outras situações, nomeadamente, quando o indivíduo surdo:
 
  • Usa uma língua gestual estrangeira;
  • Tem pouca capacidade comunicativa;
  • É surdo-cego ou tem baixa visão;
  • Usa gestos característicos de uma dada região, etnia ou faixa etária. 
Como trabalham estes profissionais?
 
Na maioria dos casos, os intérpretes surdos trabalham em parceria com intérpretes ouvintes. O intérprete surdo recebe a mensagem, traduz para uma língua gestual estruturada que o intérprete ouvinte possa compreender e este, por sua vez, traduz para voz. Em situações de comunicação muito difícil, o intérprete surdo tenta perceber, em conjunto com o ouvinte, qual é a mensagem que está a ser transmitida. Os dois trocam impressões entre si até chegarem àquela que julgam ser a melhor interpretação, sendo esta depois transmitida aos ouvintes.
 
Quando o intérprete tem uma surdez parcial, pode fazer leitura labial e comunicar com os ouvintes através da fala. Nesse caso, pode trabalhar sozinho. O intérprete surdo profundo também pode trabalhar sozinho em seminários, congressos e conferências, funcionando como espelho das opiniões expressas por membros do público. Traduz de uns surdos para outros surdos. Aqui em Portugal, sempre que um surdo quer exprimir a sua opinião, dirige-se ao palco e todos o podem ver. Mas, em alguns países as práticas são diferentes.
 
As Associações de Intérpretes Surdos consideram que, com este serviço, se consegue uma interpretação de melhor qualidade. Outros são de opinião que, no caso de interpretação em parceria, são demasiados os intervenientes no processo de mediação da mensagem, desde o emissor até ao receptor. Há ainda quem pense que a existência de intérpretes surdos pode suscitar rivalidades entre estes e os intérpretes ouvintes.
 
É um tema interessante, que deixo para discussão.


publicado por Maria do Céu Gomes às 00:01
Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

Em 1987, o Parlamento Europeu, através do documento A2-302/87, fez um apelo aos governos dos Estados membros para que fossem reconhecidas as Línguas Gestuais e para que a Língua Gestual de cada país passasse a fazer parte integrante da educação de surdos. Isso conduziu à criação em Portugal de uma equipa de 16 elementos para organizar o Gestuário de Língua Gestual Portuguesa. Dessa equipa faziam parte representantes de várias instituições e associações de surdos/ intérpretes. O projecto foi coordenado por António Vieira Ferreira, tendo por adjunto Adalberto Fernandes, técnico da Divisão de Estudos Técnicos do SNR.

Este trabalho, que teve inúmeras reedições, foi realizado no âmbito do Secretariado Nacional para a Reabilitação e Integração das Pessoas com Deficiência e era constituído por um conjunto de fichas que apresentavam um levantamento sistemático de palavras e expressões em Língua Gestual Portuguesa.
Há alguns anos atrás, surgiu a ideia de actualizar e aumentar o número de gestos contidos no Gestuário e, ao mesmo tempo, passá-lo para versão digital. O projecto é da responsabilidade da Dra. Ana Cristina dos Reis, da APECDA de Lisboa. Tem a supervisão científica da Associação Portuguesa de Surdos e apoio do POS-Conhecimento (Programa Operacional Sociedade do Conhecimento) e do SNRIP.
O DVD foi desenvolvido, mediante investigação e recolha de vídeo, de gestos da LGP, de forma a criar um gestuário temático, cujo formato é um “dicionário” demonstrativo da execução do movimento e inerente expressão que confere significado ao gesto. Destina-se à população em geral, a surdos, intérpretes de LGP e investigadores.
 
O Gestuário Digital já está concluído e será apresentado no dia 22 de Julho, pelas 15h, no Auditório do INR, Av. Conde de Valbom, em Lisboa. Prevê-se para além da apresentação do projecto, uma discussão sobre o mesmo. Haverá serviço de interpretação em LGP.
 
A entrada é livre e os participantes receberão gratuitamente um exemplar desta versão digital.
 
Deixo aqui um vídeo, realizado em 2 de Abril de 2007, quando da apresentação da ideia do projecto por Amílcar Morais.
 


publicado por Maria do Céu Gomes às 09:30
Quarta-feira, 15 de Julho de 2009
Partindo de uma perspectiva antropológica e cultural, quero debruçar-me um pouco sobre alguns conceitos que para muitos ainda não estão claros.
Por “língua natural” entende-se “um sistema linguístico usado por uma comunidade e que constitui uma realização particular da capacidade humana para a linguagem (Sim-Sim, 2005:18). Em contacto com qualquer língua natural, a criança “descobre” espontânea e intuitivamente os princípios e as regras que caracterizam a língua a que foi exposta (ibidem) e esta passa a ser a sua primeira língua. A comunidade surda considera que a língua gestual é a língua natural dos surdos profundos pré-linguísticos, pois estes, quando são colocados em contacto com outros falantes nativos, adquirem-na de uma forma rápida e espontânea. 
Quando uma criança surda tem atempadamente, isto é, desde o nascimento, acesso a uma língua gestual estruturada, que lhe permita fazer um processo de aquisição idêntico ao das crianças ouvintes, então ela apropriar-se-á, de igual modo dessa língua, tornando-se um falante nativo da mesma, e essa será, a sua língua materna (Coelho, 2007). Não podemos afirmar que a língua gestual é a língua materna dos surdos, a não ser daqueles que são filhos de pais surdos. Como refere Bouvet (1999), nestes casos, o primeiro gesto intencional surge por volta dos oito meses de idade, algum tempo antes da primeira palavra dita por uma criança ouvinte (cerca dos onze/ doze meses). Convém, no entanto, lembrar que as crianças surdas, filhas de pais surdos, representam apenas 5% a 10% das crianças surdas, o que significa que uma expressiva maioria cresce numa família ouvinte que, geralmente, desconhece a língua gestual. Muitos dos pais ouvintes apenas comunicam oralmente com os seus filhos surdos e não estimulam a comunicação visual. O que acontece com muitas destas crianças surdas, filhas de pais ouvintes, é que embora lhes seja vedado muitas vezes o acesso à língua gestual, isso não impede que tentem comunicar através de gestos criados por si próprias. É por isso que a língua gestual é considerada a língua natural dos surdos, e portanto, sua primeira língua.  
 
Bibliografia:
 
      Bouvet, Danielle (1999) “L’accès de l’enfant sourd à la parole: une situation particulière de bilinguisme entre une langue gestuelle et une langue vocale”, in Estudios de Sóciolingüistica, 2000, 1. Université de Vigo, Espagne.
 
      Coelho, Orquídea (2007) Construindo carreiras: (re)desenhar o percurso educativo dos surdos a partir de Modelos Bilingues. Porto: Tese de doutoramento, F.P.C.E.U.P. (Documento não publicado).
 
      Sim-Sim, Inês (2005) “O ensino do Português escrito aos alunos surdos na escolaridade básica”, in Inês Sim-Sim (Org.) A criança surda. Contributos para a sua educação. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 15-28. 


publicado por Maria do Céu Gomes às 09:50
Terça-feira, 14 de Julho de 2009

Começam amanhã, no CED Jacob Rodrigues Pereira, as workshops sobre “Deafhood”, promovidas pela Associação Portuguesa de Surdos. Este é um conceito criado por Paddy Ladd, em 2003, e que deu origem a um movimento de consciencialização da cultura e identidade surdas, na mesma linha do “Deaf Awareness” e do “Deaf Pride”.

 
Este movimento defende um mundo:
 
  • Onde ser Surdo é um factor de celebração e nunca de angústia
  • Onde é possível atingir a excelência académica através da língua gestual
  • Onde os Surdos têm voz e nunca são ignorados ou silenciados
  • Onde não existe discriminação entre os próprios Surdos 
Têm sido organizadas várias workshops deste movimento pelo mundo inteiro, numa tentativa de aumentar a Consciência Surda. A mensagem que é transmitida é:
 
Embrace Deafhood…
                        So our future generations can dream big,
                        Think deep,
                        Sign freely
                        And walk proudly as Deaf people
 
Em Portugal, o dinamizador será Nigel Howard, um surdo canadiano, licenciado em Psicologia e com uma Pós-graduação em Estudos Surdos, pela Universidade de Bristol, em Inglaterra. Nigel Howard é intérprete há 15 anos e domina várias línguas gestuais: American Sign Language, British Sign Language, Japanese Sign Language e International Sign. É membro da Associação de Intérpretes de Língua Gestual do Canadá (Association of Visual Language Interpreters of Canada – AVLIC) e da Associação Mundial de Intérpretes de Língua Gestual (World Association of Sign Language Interpreters – WASLI). Dá aulas de Interpretação em Língua Gestual e aulas de Desenvolvimento Pessoal e Profissional, no Douglas College, no Canadá. Para além disso, ainda vai a empresas falar da importância de se darem aos surdos mais oportunidades de emprego, organiza e dinamiza vários seminários sobre cultura surda e, nos últimos 20 anos, tem apresentado workshops um pouco por todo o mundo, sobre “Deafhood” e outros temas relacionados com a surdez e a interpretação em língua gestual.
 
As workshops a realizar em Portugal dirigem-se a várias faixas etárias:
 
  • Para jovens dos 12 aos 15 anos – de 15 a 18 de Julho
  • Para jovens dos 16 aos 21 anos – de 20 a 24 de Julho
  • Para formadores de LGP – de 20 a 24 de Julho 
Serão sem dúvida sessões interessantes para todos aqueles que queiram marcar presença. Deixo aqui o link para o cartaz:
 
 
  


publicado por Maria do Céu Gomes às 18:49
Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Tomando como referência um artigo publicado por Maria Augusta Amaral e Amândio Coutinho em 2005, “Inovação, teoria e prática no ensino bilingue de crianças surdas”, vou tentar falar um pouco sobre o processo de aquisição do Português como segunda língua.

 
Em primeiro lugar, não podemos esquecer que, para se adquirir uma segunda língua é necessário possuir uma primeira língua. E aqui reside o grande problema das crianças surdas profundas pré-linguísticas. Enquanto as crianças surdas, filhas de pais surdos têm acesso à língua gestual desde o nascimento, o mesmo não acontece com as que são filhas de pais ouvintes. Como afirmam Amaral e Coutinho, os problemas com estas crianças começam logo no berço. Poucos meses depois do nascimento, o seu balbucio vocal, similar ao do das crianças ouvintes, decresce e desaparece. Esta ausência de balbucio traz uma grande alteração nos modelos de interacção entre a mãe e a criança surda e a necessária interactividade vocal deixa de seguir o percurso normal. Mais tarde, na idade em que o diálogo entre os pais e a criança ouvinte a conduzem à interiorização das noções de causalidade, de temporalidade e de eventualidade, noções que podem levar a criança a uma reflexão generalizada sobre a realidade, o que dará coerência e sentido à vida, permitindo o desenvolvimento da mente e das emoções, tal não se verifica com a criança surda. A não existência de diálogo entre os pais ouvintes e a criança surda vai privá-la da interiorização de todas essas noções. É por isso que, por volta dos 8 anos de idade, muitas crianças surdas apresentam um atraso na compreensão de perguntas, utilizam palavras isoladas e não dão um conteúdo significativo às suas respostas, possuindo uma noção deficiente de causalidade e raramente projectando ideias sobre o futuro. Esta questão da comunicação com os familiares mais próximos é, na minha opinião, o grande problema das crianças surdas e não se conseguirá mudar a educação destes alunos enquanto a formação e a intervenção não começar pela família. É fundamental uma Escola de Pais, que lhes dê apoio e orientação, bem como ferramentas que lhes permitam ajudar os filhos, dando continuidade ao trabalho realizado na escola.
Actualmente as expectativas de resolução dos problemas são colocadas quase exclusivamente na escola. Mas para esta os conseguir pelo menos minimizar, teria que existir uma intervenção precoce para todos os alunos. Até hoje, isso nunca foi conseguido. O serviço de intervenção precoce falta na maioria das escolas e aquelas que querem avançar esbarram na actual lei portuguesa que não permite que o ensino público receba crianças desde o momento em que nascem, só a partir dos 3 anos de idade. No caso das crianças surdas, isso significa um grande atraso na intervenção. Não há uma articulação entre a legislação existente e assim, determinadas medidas são de certo modo inviabilizadas.
Deste modo, os alunos surdos continuam a chegar à escola sem uma primeira língua adquirida, o que dificulta a aquisição da Língua Portuguesa, sua segunda língua.
Vamos imaginar uma situação ideal, isto é, que todos os alunos surdos adquirem a língua gestual precocemente. Como é que se deverá processar para esses alunos a aquisição da segunda língua?
Segundo Amaral e Coutinho, a aprendizagem da Língua Portuguesa também deve ser precoce. Se tomarmos como exemplo o que se faz na Suécia e nos Estados Unidos, as crianças são desde tenra idade expostas à língua gestual, mas esta não surge de forma isolada. Ao mesmo tempo que os educadores surdos contam histórias a estas crianças em língua gestual, mostram-lhes imagens e o registo escrito. A criança aprende a associar gesto e imagem, bem como a palavra ou frase correspondente. As aprendizagens adquirem-se de uma forma lúdica e informal. Deste modo, as crianças vão evoluindo no domínio que têm das duas línguas. Mais tarde, quando chegam ao primeiro ciclo já possuem conhecimentos que lhes permitem ser capazes de reflectir sobre a sua primeira língua e estabelecer correspondências gramaticais com a Língua Portuguesa, sua segunda língua. Esta reflexão metalinguística entre as duas línguas deverá continuar ao longo de todos os anos de escolaridade, cada vez mais aprofundada. Um exercício que poderá ser feito pelos alunos surdos é escrever textos simultaneamente em glosa (LGP) e em Língua Portuguesa, comparando depois a estrutura da frase, a forma como são utilizados os tempos verbais, etc.
Segundo Amaral e Coutinho, o docente de Língua Portuguesa L2 deverá:
 
  • ser um modelo da Língua Portuguesa, devendo por isso ser ouvinte;
  • possuir um bom conhecimento linguístico da Língua Portuguesa;
  • dominar com fluência a Língua Gestual Portuguesa;
  • possuir um bom conhecimento linguístico da LGP;
  • ter capacidade de desenvolver a língua oral e/ ou escrita dos seus alunos, tendo em conta a “ponte” que é necessário estabelecer entre as duas línguas referidas;
  • saber desenvolver o treino da leitura de fala. 
Perante este perfil, a questão que se coloca é: Será que existem profissionais com esta formação? Talvez, mas muito poucos. Nos últimos dois anos, a DGIDC tem promovido cursos de curta duração (100 horas) para professores de Português como segunda língua. É um começo, mas não chega, principalmente se considerarmos que este profissional tem que ser fluente em LGP e dominar bem a sua estrutura linguística.
Numa entrevista recente que fiz à Professora Doutora Maria Augusta Amaral, fiquei a saber que, quando há uns anos atrás, o Instituto Jacob Rodrigues Pereira decidiu enveredar por uma educação bilingue, essa transição só aconteceu após um ano de formação de docentes e técnicos. Durante esse ano, os professores de Língua Portuguesa tiveram formação em LGP e em metodologias de L2, enquanto os formadores surdos tiveram formação em pedagogia para poder ensinar LGP.
A implementação do Português como segunda língua não é fácil, pois sem uma formação e sensibilização adequadas corremos o risco de os professores continuarem a dar as suas aulas como sempre o fizeram, só que com outro nome. E em termos de língua, a utilizarem o Português gestualizado em vez da LGP.
Mas o mais grave de tudo e o que continuará a inviabilizar a obtenção de melhores resultados académicos para os alunos surdos é a falta de uma verdadeira intervenção precoce, seja na escola, seja na família. Esse é o pilar da educação de surdos, sobre o qual tudo o resto assenta.
 
Bibliografia:
Amaral, Maria Augusta & Coutinho, Amândio (2005) “Inovação, teoria e prática no ensino bilingue de crianças surdas”, in Orquídea Coelho (Coord.) Perscrutar e Escutar a Surdez. Santa Maria da Feira: Edições Afrontamento.


publicado por Maria do Céu Gomes às 00:48
Sábado, 11 de Julho de 2009

"Ensinar exige mais do que teorias, exige a convicção de que a mudança é possível”( Paulo Freire, 1997).

 
Terminou hoje o I Congresso Internacional Escola, Família e Sociedade “Educação Especial”, na Universidade Fernando Pessoa. Para terminar a minha série de posts alusivos a este Congresso, escolhi a comunicação da investigadora brasileira, Aliny Lamoglia, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
 
Esta investigadora tenta demonstrar no seu trabalho que expressar-se numa língua é uma prática social e não uma prática individual. A capacidade de perguntar qual o significado de uma palavra é adquirida por exercício, na interacção com um adulto. A compreensão das palavras acontece, quando em contacto com uma criança que aprende, nos disponibilizamos ao diálogo. Estes pressupostos são válidos tanto para uma criança ouvinte como para uma criança surda. Ao compreendermos o processamento da aprendizagem de uma língua para uma criança ouvinte, também podemos compreender o que o impedimento ocasionado pela surdez impõe a uma criança que nasce surda ou fica surda nos primeiros anos de vida. A partir daí é possível compreender porque é que existe uma educação especializada para surdos, isto é, uma educação com uma língua visual como primeira língua. Se para a criança ouvinte é o contexto no qual está inserida e o contacto com adultos falantes que vão garantir que esta aprenda a usar a língua, o mesmo deverá acontecer com a criança surda.
Nesse sentido, Aliny Lamoglia considera ser inegável o facto do bilinguismo para surdos trazer uma nova perspectiva em relação à educação destas crianças. Referindo-se ao contexto brasileiro, ela considera no entanto, que a mudança acontece apenas superficialmente. Fala-se em novos paradigmas, mas as pessoas não transformam as suas práticas só porque novas terminologias são usadas. Nesse sentido, esta investigadora aponta algumas fragilidades à educação de surdos no Brasil:
  • Muitos professores, por serem ouvintes, não usam a língua gestual, mas o português gestualizado.
  • Nem todos os estabelecimentos de ensino para surdos contam com profissionais surdos à frente da formulação e implementação das práticas educacionais.
  • Na grande maioria dos casos, professora ouvinte e aluno surdo não dominam o mínimo necessário para haver uma interacção promotora da aprendizagem: a partilha de uma língua comum.
  • Diante do desconhecimento sobre o que a ausência de uma língua provoca na criança surda, erguem-se práticas pedagógicas compensatórias, currículos especiais para surdos.
  • Muitos alunos surdos ainda são avaliados às diversas disciplinas através do Português escrito e não através da Língua Gestual, o que provoca descontinuidade e incoerência diante de tudo o que é realizado. 
Aliny Lamoglia considera que no caso da criança surda, o mais favorável para a sua educação é um ambiente com língua gestual, o que não pode ser encontrado no ensino regular. A “educação não pode ser para todos” se deixa de lado a especificidade linguística de um grupo de pessoas. Assim, para uma criança surda, estar incluída numa turma de ouvintes pode significar o que há de mais segregador ou opressor, já que não há como transmitir significados num ambiente oral-auditivo. Lança-se então mão da possibilidade de trabalhar com intérpretes de Língua Gestual, mas de que adianta o intérprete se a criança ou adolescente surdo não pôde aprender a língua gestual anteriormente?
Assim, esta investigadora considera que, se não for possível ter professores surdos, é necessário que um interlocutor surdo fluente em língua gestual (formador) actue junto do professor responsável pela turma de surdos. Mais tarde, quando os alunos já forem proficientes, podem beneficiar da presença de um intérprete na sala de aula, do sexto ao nono anos de escolaridade. Esta situação é aquela que é proposta pelo Decreto-Lei 3/2008, em Portugal, ou seja, a parceria pedagógica entre formadores surdos e professores ouvintes.
 
Tal como no Brasil, temos alunos surdos integrados em turmas de surdos e em turmas de ouvintes. E também nós nos debatemos com as mesmas questões e fragilidades no que diz respeito à educação bilingue. É por isso enriquecedora a troca de experiências e a realização de Congressos deste tipo.Terminamos com mais uma frase de Paulo Freire, também citada nesta comunicação:
 
"Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição de qualquer forma de discriminação"


publicado por Maria do Céu Gomes às 22:45
Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

Vou falar hoje de uma comunicação apresentada por uma investigadora brasileira, Thereza Cristina Bastos, da Universidade Federal da Bahia, no Congresso da Univ. Fernando Pessoa.

O objectivo do estudo apresentado foi investigar e analisar se o contexto da sala de aula inclusiva (turma de ouvintes) favorece o processo de integração da criança surda com seus pares educativos: surdos e ouvintes. A análise dos dados processou-se com base nas informações obtidas mediante observações realizadas na sala de aula.
A turma observada pertencia ao 2º ano do ensino básico e era formada por 16 alunos, 10 ouvintes e 6 surdos profundos que comunicavam entre si através da língua gestual, embora não fossem proficientes. A professora titular de turma sempre trabalhou com alunos surdos em idade pré-escolar. Além do Curso Pedagógico, fez estudos adicionais na área da Surdez. Inicialmente na sua prática pedagógica, esta professora seguiu uma orientação oralista, tendo posteriormente adoptado a Comunicação Total, sentindo grande dificuldade em aprender e utilizar a língua gestual. Actualmente, continua a usar a Comunicação Total, que utiliza o sistema bimodal, ou seja, o Português gestualizado.
No primeiro dia de observação, a investigadora chegou à sala de aula e disse “Bom dia” em língua gestual. Imediatamente, uma aluna ouvinte dirigiu-se a ela e perguntou: “Por que você não fala com a boca? Você não é muda!” Numa outra situação, em que um aluno surdo estava com dificuldades em realizar uma actividade, a mesma aluna disse: “O que empata ele de entender é esse aparelho que tá no ouvido e não deixa ele ouvir!” A investigadora percebeu que a presença de crianças surdas incomodava aquela aluna ouvinte e considerou que, se aquelas crianças ouvintes fossem sensibilizadas sobre o que era a surdez e incentivadas a aprender língua gestual (incluída no currículo), todos sairiam ganhando e possivelmente os alunos ouvintes olhariam os seus colegas surdos com outros olhos.
Na sala de aula observada, as crianças surdas interagiam entre si com desenvoltura. Quanto à integração com os colegas ouvintes, a frequência das interacções era menor, tanto em termos de proximidade física e escolhas para brincadeiras, quanto ao cumprimento das actividades pedagógicas determinadas pela professora. A investigadora observou que, como não havia um “modelo” surdo, os alunos surdos recorriam aos colegas ouvintes para observar como faziam e logo imitá-los. Essa era uma estratégia utilizada pelas crianças surdas para conseguirem executar as actividades propostas pela professora, que normalmente as formulava oralmente, sem a respectiva tradução em língua gestual.
Thereza Oliveira considera que a experiência daquela turma poderia constituir-se numa  possibilidade de respostas educativas distintas e enriquecedoras. No entanto, o que ela observou foi que a identidade surda estava a ser comprometida, em virtude da prática pedagógica estar voltada unicamente para os alunos ouvintes. Nesse sentido, os resultados do estudo apontaram que a integração de alunos surdos naquela turma de ouvintes não tinha sido favorável. A falta de uma língua comum entre os sujeitos inseridos no contexto daquela sala de aula ocasionou uma séria de situações em que as crianças surdas ficaram à margem do processo pedagógico. Em inúmeras circunstâncias, essas crianças não se puderam integrar e estabelecer uma interlocução com os seus pares e com a professora. Esta, embora conhecesse alguns gestos, não se apropriava da língua gestual de modo a estabelecer com os surdos uma comunicação efectiva. Os órgãos responsáveis pelo sistema público de ensino não proporcionaram, nem à professora e nem aos alunos, o contacto com intérpretes como também não viabilizaram a inserção de surdos adultos no contexto educacional. Frequentemente, as crianças surdas foram privadas da oportunidade de expressarem a sua opinião ou dúvida quanto ao que se estava a passar dentro da sala de aula. Essas crianças não eram oralizadas, e os sons que emitiam não eram entendidos, como também os gestos, diversas vezes, não eram decifrados pelos colegas ouvintes e nem pela professora. Tal situação provocava nas crianças surdas reacções que evidenciavam falta de estímulo e receio de insistirem na tentativa de comunicação.
A investigadora concluiu que o contexto observado não podia ser considerado monolingue, mas também não podia ser considerado bilingue. Termina o estudo com uma mensagem:
 
“A criança surda inserida num meio social de pessoas ouvintes que não se comunicam através da língua gestual, ficará privada do acesso e apropriação de uma língua de referência de modo espontâneo. Esse ambiente é fundamental, lugar privilegiado para que a criança possa desenvolver as suas capacidades linguísticas e cognitivas e também posicionar-se de modo singular no seu meio sócio-cultural.”


publicado por Maria do Céu Gomes às 23:09
Quinta-feira, 09 de Julho de 2009

Começou hoje o I Congresso Internacional Família, Escola e Sociedade “Educação Especial”. O Congresso apresenta um pormenor interessante, que é o facto de existirem muitos investigadores da área da Surdez. São muitas as comunicações nesta área, mesmo quando à partida, o título das mesmas não o faz supor.

Exemplo disso é a comunicação que escolhi para falar aqui e que é o título deste post. É da autoria de Joaquim Melro (professor de Filosofia da Escola Secundária Artística António Arroio, em Lisboa) e de Margarida César (professora agregada da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa).
Estes investigadores apresentaram resultados de um estudo realizado com pais de alunos surdos de uma escola secundária, de Lisboa. Quiseram saber como é que estes percepcionavam e vivenciavam a inclusão dos seus educandos no ensino regular. Os pais afirmaram desconhecer, ou não fazer parte, de qualquer projecto que visasse melhorar a inclusão dos seus educandos. Só eram chamados à escola quando existiam problemas ou então para as reuniões de avaliação. O estudo mostra que há uma falha na articulação da escola com as famílias. Estas precisam de formação, não só no que diz respeito à língua gestual, mas também no que concerne à Surdez. Conforme afirmam Melro e César, a colaboração e o apoio da família é um pilar fundamental, se queremos que os alunos surdos tenham sucesso nos seus projectos de vida.
A maioria dos pais referiu que a escolha desta escola e não outra partiu da opção dos filhos, por orientação da psicóloga escolar e de alguns professores e também devido à sua vertente artística, que podia dar resposta a determinadas capacidades e competências dos seus educandos. Uma outra razão apontada foi a falta de alternativa para a continuação dos estudos noutras escolas. Segundo os investigadores, esta continua a ser uma fragilidade do actual sistema educativo. No ensino secundário a resposta ainda é muito limitada para os surdos. Eles têm apenas uma ou duas escolas onde se podem matricular. As outras não os aceitam, porque não têm recursos. Os surdos vêem assim limitadas as suas opções.
Apesar de estes pais considerarem ser de extrema importância que os seus filhos estejam incluídos numa escola do ensino regular, não deixam de partilhar que, para eles, tudo é mais difícil do que para os ouvintes. A este propósito, vejamos o testemunho de uma mãe: “O primeiro período foi horrível. Eu nem sei como ela conseguiu ir até ao fim (…). A doutora queria a toda a força que ela deixasse a escola para ir trabalhar… que ela não conseguia concluir o décimo segundo ano porque era muito difícil. A rapariga até chorou porque ela queria fazer o 12º ano e então disse para mim: “Ó mãe, porque é que me empurram da escola?" E eu disse: “Oh filha, elas empurram-te para fora e a gente empurra-te para dentro porque tu vais conseguir…”
Para além destas palavras atestarem a persistência, tanto da aluna, como dos pais, em continuar na escola, mostram também o quanto na escola e na vida prevalecem ainda expectativas muito baixas em relação aos surdos.
Este estudo demonstra que ainda há um longo caminho a percorrer, sobretudo no ensino secundário. Os surdos necessitam de ter acesso a mais opções e garantias de intérpretes para os cursos que escolherem. Precisam de ter professores que acreditem neles e os façam acreditar em si próprios. Os pais também precisam de apoio e formação, tal como os filhos, para que aprendam a comunicar com eles e a conhecê-los melhor. Este não é um objectivo impossível de atingir. Como disse uma mãe: “Não nos devíamos ficar só pelo sonho… deveria ser uma realidade… e… era maravilhoso que todas as pessoas pudessem deitar largas à sua inteligência. Era um bem para o país, as pessoas não ficarem à margem ou porque são surdos ou porque são cegos ou outra coisa qualquer. As pessoas podem, por exemplo, ter o seu emprego… é um cidadão que está a fazer qualquer coisa pelo seu país. Porque hão-de ser uns coitadinhos? Não tem que ser uns coitadinhos… têm é que ser pessoas que têm capacidades… porque a inteligência não tem nada a ver com a surdez”. 


publicado por Maria do Céu Gomes às 22:29
Terça-feira, 07 de Julho de 2009

Nos dias 9, 10 e 11 de Julho terá lugar na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, o I Congresso Internacional Família, Escola e Sociedade “Educação Especial”. Este Congresso visa constituir-se como uma oportunidade de apresentação de resultados de trabalhos realizados e em curso por investigadores nacionais e estrangeiros e, em simultâneo, como espaço de reflexão por parte dos agentes educativos que, no quotidiano, intervêm em contextos de Educação Especial.

 
As suas temáticas, transversais ao espírito da legislação em vigor – recentemente revista em Portugal – estão ampliadas à escola multicultural e inclusiva, às exigências e às especificidades da Educação Especial e, em dimensão holística e sistémica, às questões de relacionamento na escola.
 
Há comunicações de todas as áreas, nomeadamente relacionadas com a Surdez. Será interessante para quem se interessa por esta temática e está a desenvolver estudos nessa área, poder assistir a algumas destas intervenções. Deixo aqui algumas sugestões:
 
5ª Feira, 9 de Julho, 14:00 -15:30, Sessão 6
 
  • The training of teachers of deaf students: reality and prospects.
            Rosana Cipriano, Celeste Kelman, Adriana Chan-Vianna
           (Universidade de Brasília, Brasil)
 
6ª Feira, 10 de Julho, 17:00 – 18:30, Sessão 16
 
  • Deafness, school and inclusion: What language is this?
            Aliny Lamoglia
            (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Brasil)
 
  • Sala de aula inclusiva: Um desafio para a integração da criança surda.
            Thereza Bastos
            (Universidade Federal da Bahia, Brasil)
 
  • Contributions of the creativity applied to the process of the writing of the deaf pupil.
            Mary Costa (Faculdade de Minas Gerais, Brasil)
            Marília Silva ( Univ. Belo Horizonte/ UNICAMP, Campinas, Brasil)
 
  • Mathematical development of deaf preschoolers: The relationship between sign language and numerical abilities.
      Heloiza H. Barbosa
      (Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil)
 
Deixo também aqui o programa completo, para quem o queira consultar na íntegra. 

 

educare.ufp.pt/Scientific_Program%20final.pdf



publicado por Maria do Céu Gomes às 07:55
Segunda-feira, 06 de Julho de 2009

 “Sendo uno e plural, o homem acaba por ser também fractal. É no corpo-todo que o corpo-fragmento se significa e assume a sua autonomia, a sua diferença" (Cunha e Silva, 1999). 

 
 
Hoje, por um mero acaso, dei por mim na Avenida dos Aliados, a ver uma exposição promovida pelo Espaço T. Neste projecto de intervenção sócio-cultural, vários artistas plásticos representam o que para eles é um Homem Total. Assim, os transeuntes que por ali passem, podem contemplar inúmeras esculturas, cada uma traduzindo uma leitura particular do tema em questão.
 
 
 
Transcrevo aqui algumas das mensagens que li.
  
Homem Total
 
= Transversal, crítico, emotivo, intenso, intemporal
= Frágil e forte, integrador, amante, autêntico, criativo
= Tenaz, ardente, frontal, total, íntegro, sensitivo
 
O que é destacado nestas mensagens são sobretudo características positivas, mas será que o Homem Total é isto? Não será pouco? E o lado lunar que todos temos? E as múltiplas identidades que nos constituem?
 
O Homem Total não é um ser perfeito nem uno. É um indivíduo fragmentado, composto não de uma, mas de várias identidades. Amin Maalouf, um escritor libanês que vive em Paris desde 1976, é um bom exemplo desta nova concepção de sujeito. Sobre si próprio escreveu:
 
“Perguntam-me inúmeras vezes se me sinto “mais francês” ou mais “libanês”. Respondo invariavelmente: “Um e outro, porque se respondesse de outro modo, estaria a mentir. Aquilo que faz com que eu seja eu e não outrem, é o facto de me encontrar na ombreira de dois países, de duas ou três línguas, de várias tradições culturais. É isso precisamente que define a minha identidade. Tornar-me-ia mais autêntico se amputasse uma parte de mim mesmo? (Maalouf, 1998:9)”
 
Quando li o livro deste autor, “As identidades assassinas”, lembrei-me dos surdos e da sua identidade dividida entre dois mundos, da pressão que tantas vezes sentem para escolher um dos lados. Maalouf considera que ninguém pode ser obrigado a escolher, porque “a identidade de uma pessoa não é uma justaposição de pertenças autónomas, não é um patchwork, se se tocar numa só das pertenças, é toda a pessoa que vibra.” (idem: 36).
 
Este autor designa o Homem de hoje como um “ser fronteiriço”, porque o considera atravessado por linhas de fractura étnicas, religiosas, linguísticas e outras. É este o Homem Total: fragmentado e plural.
 
Todos somos seres fronteiriços: brancos, pretos, outros, homens, mulheres, outros, ouvintes, surdos, outros…
 
Referências bibliográficas:  

Maalouf, Amin (1998) As Identidades Assassinas. Lisboa: Difel.



publicado por Maria do Céu Gomes às 00:09
Sábado, 04 de Julho de 2009

Já abordei neste blogue o papel e as funções de alguns profissionais que trabalham com alunos surdos. Hoje vou falar dos professores do ensino regular. Há um testemunho que uma vez li de que nunca me esqueci. Refere-se a um professor norte-americano, que fala da sua primeira experiência com uma turma de surdos. Ele era professor de História e não sabia língua gestual:

 
“Ali estava eu, em frente da turma, a tentar falar-lhes de George Washington. “George Washington era um homem alto”, disse eu. Olhei para os miúdos e eles para mim, sem me compreenderem. “Alto”, disse eu. “Alto, George Washington era um homem alto”. Depois olhei à volta da sala e perguntei aos miúdos: “Compreenderam? Alto. O.K.? E eles simplesmente olhavam para mim. Estes miúdos tinham doze ou treze anos. Nós, nem de perto conseguíamos chegar à ideia de que George Washington era o pai do país, ou o primeiro presidente dos Estados Unidos. (…) Tudo o que eu conseguia dizer era que George Washington era um homem alto. Ao fim de algum tempo, um dos alunos disse: “Eu compreendo. Você e eu compreendemos, mas eles não compreendem. São estúpidos”. Mas ele também não estava a compreender. Aquela foi a pior parte. Apercebi-me da perda de tempo que era estar a dar a aula daquela maneira. No ano seguinte, fui para Gallaudet aprender língua Gestual” (Neisser, 1990:131).
 
Este episódio aconteceu nos Estados Unidos, em 1965, mas continua muito actual Dirão muitos que não, porque hoje já existem intérpretes. Na minha opinião, não é pelo facto de existirem intérpretes numa escola que os professores do regular devem deixar de aprender língua gestual. Os intérpretes existem, mas podem faltar como qualquer outro profissional. E às vezes faltam uma semana inteira. Nestas situações, como é que se dão as aulas? O professor não pode mandar os alunos para casa.
 
Existem professores do ensino regular com um bom domínio da língua gestual, muito melhor por vezes do que alguns professores da Educação Especial. Aprender ou não depende da iniciativa de cada um, da forma como sente a educação de surdos. Não é um diploma que vai ditar quem precisa e quem não precisa de aprender LGP. Da mesma forma que não podemos afirmar que um aluno com NEE pertence à Educação Especial. Todos os alunos pertencem à escola, isto é, a todos os professores.
 
Cada professor deve seguir a sua consciência e procurar formação que vá de encontro à necessidade e especificidade dos seus alunos. Por outro lado, as escolas devem garantir que essa formação exista. Não podem limitar-se a dizer que são inclusivas. Devem dar formação aos professores, bem como a todos os funcionários para que tal seja mesmo um facto.
 
Só mais uma achega. Os alunos surdos não são "estúpidos", são crianças normais que possuem apenas uma outra língua. Se soubermos comunicar com eles adequadamente, conseguimos transmitir todos os conteúdos, mesmo os mais abstractos.
 
Bibliografia:
 
Neisser, Arden (1990). The other side of silence. New York: Alfred A. Knopf.


publicado por Maria do Céu Gomes às 18:53
Domingo, 28 de Junho de 2009

É tempo de férias, mas o contacto não deve perder-se. É por isso importante a promoção de espaços e momentos de convívio entre surdos e ouvintes. Não só aqueles ouvintes que profissionalmente estão ligados aos surdos, como os intérpretes e os docentes de Educação Especial, mas todos aqueles que queiram conhecer melhor a comunidade surda. Penso que seria muito interessante que pais ouvintes com crianças surdas fossem também a estes encontros, para que vivências e experiências pudessem ser partilhadas por todos. 

 

Estou por isso a divulgar aqui um convívio que vai ter lugar na Quinta do Gatão, em Penafiel, no dia 18 de Julho de 2009 e que é promovido pela Associação de Surdos do Porto, em colaboração  com a turma do 3º ano do Curso de Tradutores Intérpretes de Língua Gestual Portuguesa da Escola Superior de Educação do Porto. As inscrições terminam já no dia 30 de Junho.  

 

Neste Encontro, há actividades para todas as idades. O programa é o seguinte:

 

9:30 Boas vindas

         Visita guiada à quinta

10:00 - 10:30 Jogos de dinâmica de apresentação e warm-up

10:30 - 10:45 Distribuição de lanche

10:45 - 14:00 Desportos radicais 

                                - slide

                                - paralelas

                                - pontes himalaias

14:30 - 16:00 Almoço (Churrasco)

16:00 Actividades:

                    - Teatro da Associação de Surdos do Porto

                    - Expressão dramática

                    - Grupo Hip Hop Vibrações

                    - Anedotas

18:30 Encerramento   

 

Existem ainda outras actividades extra:

                      - Bilhar

                      - Ping Pong

                      - Piscina

                      - Espaço infantil

 

Aconselha-se levar roupa desportiva e sapatilhas, uma muda de roupa, calções de banho/bikini, toalhas, boné e boa disposição.

 

O transporte é grátis. Sai uma camioneta às 8h30 da Praça das Flores, em frente ao Centro de Convívio da ASPorto.

 

Inscrições e informações:

 

asurdosporto@asurdosporto.org.pt

 

Ver cartaz:

 

d91601.tinf28.tuganet.info/images/18_julho.pdf



publicado por Maria do Céu Gomes às 17:38
Domingo, 21 de Junho de 2009

Encontra-se em aberto até 25 de Junho o período de apresentação de candidaturas para o Mestrado (curso de 2º ciclo) em Ciências da Educação, Domínio de Educação e Surdez, na Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto.

 

Este curso tem como objectivos:

- Proporcionar, no âmbito da Universidade do Porto, uma oferta de formação pós-graduada e especializada em Ciências da Educação, que permita problematizar, numa perspectiva complexa e crítica, questões relacionadas com a surdez e a educação de surdos, bem como perspectivar modos de acção e de investigação nesta área.

- Proporcionar conhecimentos e competências aprofundadas sobre métodos e técnicas de intervenção que permitam desenvolver modelos e dispositivos adequados para uma educação bilingue dos alunos surdos.

- Proporcionar conhecimentos aprofundados sobre métodos e técnicas de investigação que permitam desenvolver a investigação em educação.

- Formar profissionais para o exercício autónomo da formação, da gestão, da direcção, da avaliação, da mediação e da consultadoria no campo da educação de surdos. 

 

Os destinatários são licenciados em Ciências da Educação, Ciências Sociais e Humanas, ou outras licenciaturas. 

 

Aos estudantes surdos que venham a ingressar no curso, está assegurado o direito à tradução/ interpretação simultânea das aulas em LGP, bem como outros apoios que possam vir a ser considerados necessários.

 

Todas as informações necessárias, nomeadamente em relação às vagas, formalização da candidatura e propinas, encontram-se disponíveis no site da FPCEUP:

 

 sigarra.up.pt/fpceup/noticias_geral.ver_noticia



publicado por Maria do Céu Gomes às 22:40
Este é um blogue aberto, partilhado, para cruzar as comunidades de surdos e pais, de docentes e técnicos e os mais que se interessam pela educação bilingue dos alunos surdos.
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agenda do blogue

Para nos informar do seu evento, contacte a agenda do blogue.



13 de Novembro

Dia da Língua Gestual Portuguesa

AREBAS de Lamaçães


As "festividades" começam de manhã, em cada escola de referência do Agrupamento de Lamaçães, Braga, e terminam (em apoteose) ao fim da tarde, na Escola Básica de Lamaçães, com o grupo todo e um programa animado com histórias, anedotas, adivinhas, poemas e danças.



14 de Novembro

Conferência - Dia Nacional da LGP

«Eis as Questões em LGP»


Organizada pela AFOMOS no Auditório da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto, o programa (provisório) propõe quatro painéis (LGP na Saúde, LGP na Sociedade, LGP na Comunicação Social, LGP na Educação) e uma mesa-redonda para tirar conclusões. Inscrições e mais informações no blogue da AFOMOS.



15 de Novembro

Dia da Língua Gestual Portuguesa



16 de Novembro

Comemorações do Dia Nacional da LGP

Agrupamento da Régua


O Agrupamento de Escolas do Peso da Régua organiza uma sessão de formação sobre a surdez e apresenta o Projecto do Agrupamento para se constituir como Escola de Referência para a Educação Bilingue de Alunos Surdos. Os trabalhos iniciam às 17h 30m, na Escola Básica de Peso da Régua e o convite alarga-se a toda a comunidade escolar



16 a 20 de Novembro

Colloque International

sur les Langues des Signes


O Colóquio decorre em 4 línguas: francesa gestual francesa da Bélgica (LSFB), inglês e língua gestual internacional (LSI). Local: Bélgica, Universidade de Namur. Para mais informações, visite o site do colóquio.



18 a 20 de Novembro

III Encontro Nacional sobre Políticas de Língua(s) e Ensino

Avaliando Políticas Linguísticas para um Mundo Plural


Decorre em Brasília e é organizado pela ALAB, Associação de Lingüística Aplicada do Brasil, e pela Universidade de Brasília. O Simpósio 18, Ensino de LIBRAS e Formação de Professores, tem como objectivo discutir o ensino de Libras nos cursos de Pedagogia, Fonoaudiologia, Letras e Licenciaturas em geral, em termos de objetivos e efectividade da disciplina para os diferentes Cursos, com ênfase naqueles voltados à formação de professores. A questão que se coloca é: basta o ensino de Libras em cursos de breve duração para que os professores possam se considerar formados para o exercício profissional com sujeitos surdos? Mais informações no site da ALAB.



27 a 29 de Novembro

I Congresso Internacional

Ser Professor de Educação Especial


Os professores reunem para que «destes dias de discussão, possam sair mais e melhores respostas para a questão que hoje a todos preocupa: "O que é ser professor de Educação Especial?"». No Campus de Almada do Instituto Piaget. Organização de Pró Inclusão - Associação Nacional de Docentes de Educação Especial. Mais informações no site da ANDEE.



28 de Novembro

Práticas com Crianças Surdas,

Intervenção Precoce e Educação de Infância


Para responder às necessidades especiais de encontro, partilha e reflexão de todos os que se envolvem na Educação Especial, Sábados Especiais é um programa de (auto)formação do Gabinete de Acompanhamento à Educação Especial da DREN, com a colaboração das Escolas e outras instituições. O primeiro Sábado Especial é já no próximo dia 28 de Novembro. «Práticas com as Crianças Surdas, Intervenção Precoce e Educação de Infância» é o título do Encontro, que se realiza na Escola Básica de Lamaçães, Braga. Ver o programa e modo de inscrição no post Práticas com as Crianças Surdas.



2 a 4 de Dezembro

II Congresso Baiano de Educação Inclusiva

III Fórum Internacional para Pessoas com Surdocegueira e Deficiência Múltipla Sensorial


O evento resulta de uma parceria entre as Universidades Públicas do Estado da Bahia – UFBA, UFRB, UEFS, UESC, UESB e UNEB, a AHIMSA – Associação Educacional para Múltipla Deficiência e o Grupo Brasil de Apoio ao Surdocego e ao Múltiplo Deficiente Sensorial, além das Secretarias de Educação do Município de Salvador e do Estado da Bahia. Conferência de abertura: Direitos Humanos e a Deficiência: Uma Análise Política, Ética e Educativa. Conferencistas: Carlos Skliar, Coordenador da Área Educação - FLACSO Argentina, e Isabel Maior, Coordenadora Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. Em Salvador, Bahia. Mais informações no site do Congresso.



3 de Dezembro

Dia Internacional das Pessoas com Deficiência



4 a 7 de Dezembro

X Mostra de Teatre Nacional i Internacional per a Joves Sords


Organizada pelo Casal de Sords de Barcelona, a Mostra é um acto de carácter cultural, que pretende difundir a identidade da Comunidade Surda, especialmente entre os jovens surdos de Espanha e de outros países.Será para os jovens o lugar de expressão livre, através do teatro e um encontro de pessoas surdas de distintas culturas, costumes e tradições. O fundamental do teatro é a comunicação e é por esse motivo que a organização convida à participação neste grande evento. Mais informações no site da organização.


O tema da ONU para 2009 é «Atingir os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio para Todos: o empoderamento das pessoas com deficiência e das suas comunidades em todo o mundo» Mais informações no site da united nations enable.



6 de Dezembro

Dia Europeu da Língua Gestual



7 a 9 de Dezembro

Teaching and Learning 2009


A conferência é organizada pelo IASK, International Association for the Scientific Knowledge, e vai decorrer no Porto. A submissão de artigos pode ser feita até 1 de Setembro. «Student Diversity» é um dos cerca de 30 temas propostos. Mais informações no site da conferência .



2010 - 2010 - 2010 - 2010 - 2010 - 2010 - 2010

Ano Internacional da Biodiversidade

Ano Europeu do Combate à Pobreza e à Exclusão Social



21 de Janeiro

Dia dos Intérpretes de LGP



25 de Fevereiro

Dia Internacional da Língua Gestual



23 de Abril

Dia Nacional da Educação de Surdos e da Juventude Surda



17 a 21 de Maio

II Encuentro Latinoamericano de Mujeres Sordas


O objectivo é analisar em conjunto a problemática que atinge a mulher surda. Organizado pela Federeção Mexicana de Surdos em conjuntos com as Secretarias Regional do México, América Central e Caraíbas e Regional Sul-americana da Federação Mundial de Surdos, WFD. Na Cidade do México.



18 a 22 de Julho

21st International Congress on Education of the Deaf

Partners in Education


O 2º foi em Milão, em 1880, lembram-se? Agora, reúne de 5 em 5 anos. Este é em Vancouver. Sete temas organizam as comunicações do congresso: intervenção precoce, língua e literacia, ambientes de aprendizagem, língua gestual e cultura surda, tecnologias educativas, educar crianças com necessidades diferentes, desafios dos países em desenvolvimento. Organização ICED. Informações no site do congresso.



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