Quinta-feira, 22 de Outubro de 2009

Deve o formador de Língua Gestual Portuguesa participar na aula da disciplina de Português como L2 para alunos surdos?

A pergunta tem andado no ar desde o início do ano lectivo e mantém uma discussão que vem de trás. Entendida assim a questão, em abstracto e de modo genérico, qual deverá ser a resposta?
Marta Morgado, no IV Congresso Nacional de Surdos, disse não, que o formador é responsável pela docência da LGP e que por aí se ficam as suas funções lectivas. Mesmo no 1º ciclo (sobre este nível, ver o meu post A parceria pedagógica). O argumento para rejeitar essa forma de trabalho conjunto assentou na experiência de que «os formadores surdos estariam a ser usados como intérpretes nas aulas dadas em conjunto com ouvintes» (ver o post de Maria do Céu Gomes, Intérpretes, formadores… Que papéis nas Escolas de Referência?).
É possível que sim, que o docente de Português sinta uma irreprimível necessidade de intérprete e assim pretenda tirar partido do formador de LGP. Estas práticas vêm de trás, do tempo em que havia uma hora aqui de formador, outra hora acolá de intérprete e se “distribuía o mal” pelos alunos surdos, dispersos em múltiplas turmas de alunos ouvintes e em que se misturavam as diferentes funções na amálgama do «apoio».
Leccionar a disciplina de Português como segunda língua em turmas de alunos surdos é abraçar uma realidade totalmente diferente e implica abandonar as estratégias que resultam na aula para os alunos ouvintes. O professor de Português pode sentir uma forte tentação para reproduzir a aula pensada para a turma de ouvintes, confortado pela presença do intérprete de LGP, que tudo traduz e pensar que tudo chega aos alunos naquele passe de mágica do intérprete. Não pode haver raciocínio mais errado. Porque, numa situação destas, poderíamos ainda dizer que os alunos estão mesmo na aula de Português? Se o intérprete traduz, onde está a decifração do texto, a apreensão do(s) sentido(s) e a apropriação progressiva da estrutura da língua? Sobre esta opção, em artigo acabado de publicar, Maria do Céu Gomes afirma: «Esta última alternativa [intérprete na aula de português] é a menos aconselhável, uma vez que uma das estratégias aconselhadas no ensino da segunda língua é a comparação e a reflexão metalinguística entre a estrutura das duas línguas. Esta reflexão nunca poderá ser feita pelo intérprete, pois não é essa a sua função» (Gomes, 2009, p. 13).
Mesmo o professor de Português competente em LGP, capaz de conduzir sozinho a sua aula, tem muito a ganhar com um trabalho de articulação e colaboração com o formador de LGP no trabalho de preparação das suas aulas, para adequação de conteúdos e estratégias. Mas o trabalho em equipa na sala de aula traz para este espaço a oportunidade de desenvolver aí um processo de linguística comparada que conduza ao crescimento progressivo da consciência metalinguística de cada um dos alunos. E isso, feito de modo consistente e sustentado em ambas as línguas, só é possível com os dois docentes na sala de aula.
O formador na aula de Português? Parece a melhor opção.
 
Referência:
GOMES, Maria do Céu (2009): «O Ensino do Português num Contexto de Educação Bilingue», Diversidades, n.º 25, Julho, Agosto, Setembro, pp. 10-14.


publicado por Eduardo Cabral às 11:13
Este foi um blogue aberto, partilhado, para cruzar as comunidades de surdos e pais, de docentes e técnicos e os mais que se interessam pela educação bilingue dos alunos surdos.
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